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O Benfica das finais

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Depois de garantida a presença nas finais da Taça da Liga e da Taça de Portugal, o Benfica joga a cartada decisiva na Liga Europa, frente à Juventus, com vista a mais uma final, a segunda consecutiva na prova. Caso se concretize esse cenário, a equipa comandada por Jorge Jesus tem a possibilidade de, em cerca de 15 dias, jogar três finais. Três títulos! É realmente impressionante, e algo novo no universo encarnado (pelo menos nos últimos 20 anos).

É legítimo afirmar, portanto, que este Benfica é o Benfica das finais. No ano passado, a equipa comandada por Jorge Jesus disputou duas finais (Liga Europa e Taça de Portugal) e, este ano, tem garantidas mais duas (Taça de Portugal e Taça da Liga), podendo ainda disputar uma terceira (Liga Europa). Há relativamente pouco tempo, o treinador benfiquista afirmou que “as finais são para se jogar”, ao contrário que diz o “sábio povo” quando refere que “as finais não se jogam, ganham-se”. Ora, o Benfica do ano passado jogou – e muito bem, diga-se – as duas finais que disputou. Contudo, o “jogar bem” não foi suficiente para que o museu Cosme Damião fosse brindado com duas novas atrações. Ao Benfica deste ano peço, então, que, em vez de jogar, ganhe. Não será nenhum delito garantir que de vitórias morais estamos todos nós fartos. Chegou a hora de vencer.

Nas próximas semanas, o Benfica pode engrandecer o seu museu com a conquista de três troféus  Fonte: planetaslbenfica.blogspot.com
Luis Filipe Vieira e o Museu Cosme Damião podem receber mais troféus esta temporada
Fonte: planetaslbenfica.blogspot.com

Com o Campeonato Nacional no bolso, a pressão baixou consideravelmente no seio encarnado. Aliás, não duvidem, a conquista do 33º título pode ser a chave para desbloquear os restantes troféus. Entre um grupo de jogadores que respira confiança e mostra motivação para fazer história vive uma massa adepta eufórica e expectante em relação ao futuro a curto prazo. Depois de anos a fio em constante depressão, o Benfica renasce como um grande clube – com tudo aquilo a que o título obriga. As provas estão à vista de todos e o sentimento é quase palpável.

Independentemente do resultado do jogo frente à Juventus, o Benfica já disfruta de uma época de sucesso. Todavia, seria de enorme hipocrisia e falta de bom senso desvalorizar a conquista de um troféu europeu, que há tanto tempo procurámos. Honestamente, sinto-me confiante. Não importa o adversário ou o local onde jogamos: este Benfica transmite uma segurança que eu jamais senti.  Mais do que nunca, acredito no grupo, acredito no treinador, acredito na direção e acredito na mentalidade do clube. Acredito, de igual modo, que voltaremos a Turim, que voltaremos à final. E desta vez para ganhar!

P.S.: Por falar em finais, deixo aqui os meus parabéns ao Real Madrid, que carimbou, frente ao Bayern de Munique, uma merecida passagem à final da Liga dos Campeões desta temporada. É justo que o melhor jogador do mundo esteja presente no melhor estádio do planeta.

Escolhas do Brasileirão

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Um amigo pediu-me para eleger o melhor “onze” do Brasileirão. Penso que dá para fazer uma bela seleção com este leque. Uma equipa capaz, quiçá, de lutar por um Campeonato do Mundo. Como esta Liga se iniciou só agora, penso que será justo apenas nos reportarmos à temporada passada. Comecemos, então. Na baliza temos várias opções (tal como no resto do campo): Fábio, campeão pelo Cruzeiro; Victor, do rival Atlético Mineiro; Jéfferson, do Botafogo; Felipe, do Flamengo (ex-Braga) e ainda o sénior Rogério Ceni.

À esquerda, terei de escolher o gremista Alex Tello. Entretanto vendido aos turcos do Galatasaray, fez uma bela temporada. Alex veio para a Europa; mas tal como todos os outros artistas de Terras de Vera Cruz, já era bom na terra natal. Como lateral-direito temos Marcos Rocha, do Galo Mineiro. É internacional e esteve na Copa das Confederações. Jogador regularíssimo. Centrais há vários: Lúcio, campeão do Mundo em 2002, atualmente no Palmeiras. A única desvantagem do “xerife” para com os colegas é a idade… 35 anos podem pesar e bem! Depois temos Réver, também do Atlético Mineiro. Deverá ser opção para a Copa. Manoel Carvalho, ex-Atlético Paranaense e atualmente sem clube por um processo disciplinar, também é uma referência. Destaco ainda Dedé, ex-Vasco da Gama e campeão pelo Cruzeiro.

Mais à frente no terreno, naquele que é o setor nuclear de uma equipa, escolhas não faltam. Nílton, cruzeirense, a trinco; o próprio Elias, que afinal de contas foi vendido ao Corinthians. Mas há vários outros criativos. Ronaldinho Gaúcho – quem mais? – ainda estaria capaz de fazer uma perninha. E que perninha. Temos também Paulo Henrique Ganso. E não nos podemos esquecer de um grande jogador, considerado o melhor de 2013: Éverton Ribeiro.

Ronaldinho Gaúcho ainda pode(ria) ser útei à canarinha  Fonte:
Ronaldinho Gaúcho ainda pode(ria) ser útei à canarinha
Fonte:

Como avançados, há também muitos pontas-de-lança de qualidade. Jô, do Atlético Mineiro; Diego Tardelli, também do Galo; Éderson, do Atlético Paranaense; até mesmo Walter (apesar de umas gordurinhas a mais). Outro atleta que considero um craque, mas que foi várias vezes criticado no Botafogo, é Rafael Marques. É um jogador muito útil e que figuraria nesta seleção do Brasil brasileiro. Rumou para Oriente, para a China. Não podemos olvidar também Leandro Damião, agora no Santos. Uma bomba. Temos infindáveis recursos para homens-golo. Hernâni, o “brocador”, do Flamengo também é bom. Fred, do Fluminense, que deverá estar no Mundial. Luís Fabiano também, embora tenha de mudar o temperamento. Uma palavra para Alan Kardec. Excelente época. Ele queria ficar no Palmeiras; negócios levaram-no para não muito longe dali. Na verdade, para a mesma cidade, para o rival São Paulo.

Como podemos verificar, o Brasil não precisa dos outros “europeus” para criar uma grande seleção. Esta escolha seria suficiente para lutar pelo título mais importante do planeta. Quais seriam as vossas escolhas? Acham que assim está bom? Agora é só juntar mais uns quantos do Velho Continente e fica uma super-equipa.

Bayern 0-4 Real Madrid: Furacão blanco rumo a La Decima

Está encontrado o primeiro finalista da presente edição da Liga dos Campeões. O Real Madrid, num Allianz Arena absolutamente cheio, deu um “banho de bola” ao Bayern, venceu por 0-4 e carimbou o passaporte para Lisboa. Sergio Ramos e Cristiano Ronaldo bisaram na partida e foram dois dos protagonistas de uma noite histórica para o futebol europeu.

Ambos os conjuntos apresentaram onzes muito idênticos aos da semana passada – apenas uma alteração em cada lado. No Real Madrid, Ancelotti fez entrar Bale para o lugar de Isco, mas os merengues mantiveram o 4-4-2, com Di María na esquerda, Bale na direita, Modric e Xabi Alonso no centro e Ronaldo no apoio a Benzema. No Bayern, Guardiola optou por um meio-campo mais ofensivo, deixando Rafinha no banco, encostando o capitão Lahm à direita e concedendo a titularidade a Thomas Müller, que jogou nas costas de Mandzukic. Desta forma, cabia a Kroos (como pivot) e Schweinsteiger (como box-to-box) a ligação entre a defesa e o ataque.

O Bayern começou por tentar impor-se através do seu jogo de posse, mas cedo se percebeu que o cenário da primeira mão se ia repetir: o Real Madrid, com uma defesa extraordinariamente agressiva e bem organizada, saía quase sempre com grande clarividência e velocidade para o contra-ataque. Bale teve nos pés a primeira grande ocasião de perigo da partida – aproveitando uma saída disparatada de Neuer, que deixou a baliza aberta, o galês, de muito longe, rematou por cima. Aos 16’ e aos 20’, a eliminatória ficou praticamente decidida: primeiro, num canto cobrado por Modric, Sergio Ramos ganhou nas alturas e fuzilou de cabeça para o 0-1; depois, num livre de Di María, o mesmo Sergio Ramos voltou a facturar, mergulhando para o 0-2.

Dois golpes de cabeça de Sergio Ramos, dois golos  Fonte: UEFA
Dois golpes de cabeça de Sergio Ramos, dois golos
Fonte: UEFA

A partir daí, o Real Madrid elevou ainda mais os seus índices de confiança e, sempre em contra-golpe, fez o que quis da defesa do Bayern. Pouco depois da meia hora, numa transição supersónica, Benzema soltou para Bale, o britânico ultrapassou Boateng em velocidade e assistiu Ronaldo, que, isolado, fez o terceiro do Real com toda a tranquilidade. Game-over para o Bayern – Die Roten passavam a necessitar de marcar cinco (!) golos para se apurarem para a final.

Depois de Ronaldo falhar o alvo em mais um remate com a baliza escancarada – Neuer apareceu várias vezes como verdadeiro líbero -, ainda houve tempo para Xabi Alonso ver um amarelo que o deixa de fora da final de Lisboa, para Ribéry esbofetear Carvajal dentro da área sem que ninguém tivesse dado por nada e para uma série de escaramuças entre os jogadores das duas equipas antes do intervalo. De resto, o luso Pedro Proença teve muito trabalho, mas controlou muito bem todos os conflitos e fez uma excelente arbitragem. O Real terminou claramente por cima e o Bayern revelou-se incapaz de ameaçar a baliza de Casillas.

No regresso dos balneários, o Bayern entrou com Javi Martinez no lugar de Mandukic, à procura de um golo que pudesse limpar a péssima imagem deixada durante o primeiro tempo. O Real, ligeiramente menos agressivo no momento defensivo, embora sempre muito concentrado, consentiu algumas oportunidades de golo ao adversário, mas os bávaros acabaram mesmo por não conseguir marcar. Robben e Ribéry, aparecendo pelo meio, tentaram a sua sorte com remates muito perigosos, e Kroos, de meia e longa distância, também assustou. Já sem Müller e Ribéry em campo e com Pizarro e Götze nos seus lugares, foi o ex-Dortmund a desperdiçar a última grande ocasião de perigo para os alemães.

Ronaldo fez jus ao título de melhor do mundo e foi decisivo  Fonte: UEFA
Ronaldo fez jus ao título de melhor do mundo, marcou dois e bateu records 
Fonte: UEFA

Os blancos, utilizando menos o contra-ataque e privilegiando, sempre que possível, transições pausadas e em apoio, iam procurando evitar que o ritmo de jogo aumentasse e nunca perderam o controlo da partida. A um quarto de hora do fim, Ancelotti começou a queimar substituições: Varane substituiu um super-Sergio Ramos em risco de suspensão, Benzema cedeu o lugar a Isco e Casemiro permitiu a saída de Di María, que hoje teve mais um desempenho assombroso.

O jogo não podia terminar sem a cereja no topo do bolo: em cima dos noventa minutos, Ronaldo ganhou uma falta à entrada da área, assumiu a cobrança do livre e, quando todos esperavam um tiro, o internacional português atirou rasteiro, por baixo da barreira, fazendo o 0-4 final. Foi a estocada final num Bayern completamente impotente face à excelência e à mestria do Real  – uma exibição de sonho para os merengues, um autêntico pesadelo para o germânicos.

Sem me querer alongar muito mais, não posso deixar de fazer referência às exibições estratosféricas de alguns (na verdade, quase todos!) jogadores do Real Madrid: Carvajal e Coentrão foram intransponíveis e fizeram um jogo a rondar a perfeição; Pepe e Ramos dominaram no jogo aéreo e foram dois monstros no eixo defensivo; Xabi Alonso fez mais um grande jogo – tem uma classe e uma experiência enormes e vai fazer falta na final; Modric está num momento de forma assustador – faz tudo bem, joga com uma intensidade incrível, é estupidamente inteligente, mete a bola onde quer e defende e ataca como muito poucos; Di María é um talento, muito rápido e com pormenores técnicos soberbos, mas é igualmente um mouro de trabalho que nunca pára de correr – hoje foi fundamental para o sucesso da sua equipa; Bale foi um perigo à solta e também trabalhou muito em prol do colectivo; Ronaldo… é Ronaldo.

Coentrão esteve irrepreensível mais uma vez - fantástica performance  Fonte: UEFA
Coentrão esteve irrepreensível mais uma vez – fantástica performance
Fonte: UEFA

O Real Madrid destruiu por completo o actual campeão europeu, como muito poucos acreditavam ser possível. Defenderam com tudo e atacaram com tudo, estiveram bem em todos os momentos do jogo, foram mais inteligentes e mais determinados. Há que fazer a devida vénia a Carlo Ancelotti, que preparou muito bem o duelo e ganhou em toda a linha. O técnico italiano está, assim, a uma vitória de conquistar a sua quinta Liga dos Campeões (terceira como treinador). Independentemente do finalista apurado amanhã, o Real Madrid será sempre o favorito na Luz. Resta agora saber se vai ter pela frente o rival madrileño do Atlético ou um Chelsea comandado pelo seu anterior treinador, José Mourinho.

A Figura
Cristiano Ronaldo – tem 16 golos em 10 jogos. Repito: 16 golos. Hoje apontou dois e fez história, batendo o record de número de golos alcançados numa só edição da Liga dos Campeões/Taça dos Campeões Europeus. É, sem dúvida, dos melhores futebolistas de sempre e hoje esteve ao seu melhor nível.

O Fora-de-Jogo
Pep Guardiola – sou um profundo admirador do catalão, mas tem de ser ele a assumir o rotundo fracasso da equipa. Ao cabo de 180 minutos de tiki-taka, o Bayern sofreu cinco golos e não foi capaz de marcar. Os campeões alemães acabaram humilhados no Allianz Arena e isso deve ser motivo de reflexão interna.

(Tristes) manobras de bastidores

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Diz-se por aí que a Juventus apresentou queixa junto da UEFA para retirar o Enzo do jogo de quinta-feira. Num clube tipicamente matreiro, como é o italiano, que até desceu à Serie B italiana por corrupção comprovada, estes gestos mesquinhos em nada surpreendem. Para além disso, e se nos recordarmos de quem é o líder da UEFA, ainda menos surpresos com este baixo nível ficamos. UEFA essa que, em jeito de colo de pai para filho, escreveu ontem no seu site oficial: “Juventus a um golo da final em casa”. Passem dias, meses ou anos, o futebol está sujo com estes clubes que nunca conseguirão fugir da sua génese. Mas mais do que a pequenez da Juventus, este caso mostra-nos, isso sim, a incomparável força e grandeza do Benfica. A tal ponto que a vecchia signora, que tem um dos melhores plantéis do mundo, vê necessidade em recorrer a estratagemas de bastidores para de alguma forma facilitar essa penosa tarefa que é “matar” a época europeia do clube da Luz. Em igualdade de circunstâncias, ficou visto, na primeira mão, que o Benfica tem a final da Liga Europa a um sonho de distância.

Enzo Pérez é um dos jogadores mais importantes do Benfica? Sim, sem dúvida. Mas, talvez contagiado pela loucura e alegria que nos enchem a alma nas últimas semanas, não temo a sua ausência. Os níveis de confiança do plantel estão em ponto estratosférico. O Benfica já chegou à fase em que vale pelo seu todo e não pelas suas partes. Qualquer jogador que entre sente-se plenamente integrado na equipa e esta não se ressente da ausência de um, dois ou três jogadores fundamentais…tal como vimos na primeira mão frente a este clube corrupto: sem Fejsa, Salvio e Gaitán. Depois da arbitragem mais do que tendenciosa no primeiro jogo, o Benfica tem de esperar igual tratamento em Itália. Que isso não sirva para retrair os jogadores, mas sim torná-los mais fortes e destemidos.

O polémico gesto de Enzo contra o Arouca serve hoje para "saudar" a posição da UEFA
O polémico gesto de Enzo contra o Arouca serve hoje para “saudar” a posição da UEFA

Ao Benfica peço bravura, heroicidade, sangue e suor. Joguemos à Benfica, sejamos Benfica. Podemos perder, sim, mas não será pela ausência de Enzo ou de qualquer outro. Acreditemos que esta tentativa de os italianos nos enfraquecerem apenas nos tornará mais fortes. Contra a Juventus, contra Platini e contra a UEFA, que antecipa conselhos disciplinares para deliberar sobre um caso tão desenquadrado como este. Mova-se o Céu e a Terra, peça-se uma força extra ao Eusébio e ao Coluna, alinhem-se os astros, mordam-se cachecóis, abracem-se à Benfica e o sonho será bem possível.

El Loco está de volta

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ligue 1

O regresso de Marcelo Bielsa é uma grande notícia para o futebol. O treinador argentino é um dos melhores do mundo – não é por não ter uma carreira repleta de títulos que deixa de o ser – e é sempre preferível que os melhores estejam no activo. Depois do magnífico trabalho realizado no Athletic Bilbao, El Loco, que esteve um ano parado, tem um novo desafio pela frente: tentar recolocar o Marselha na elite do futebol francês. Ainda é cedo para prever se será ou não bem-sucedido nessa tarefa (até porque apenas existe um princípio de acordo), mas não há dúvidas de que, com Bielsa, o emblema do sul de França estará sempre mais perto de conseguir voltar ao topo.

Na época em que o Athletic Bilbao chegou às finais da Liga Europa e da Taça do Rei, Guardiola confessou que Marcelo Bielsa era o seu mentor e que todos os dias aprendia com ele. Numa comparação entre ambos, não é difícil perceber que têm muitas características semelhantes. Tanto o argentino como o espanhol são treinadores inovadores e muito metódicos, com uma postura tranquila e politicamente correcta. Têm uma mentalidade muito ofensiva e os respectivos modelos de jogo privilegiam a posse de bola com trocas posicionais constantes. A capacidade de pressão – muito agressiva e em zonas adiantadas – das suas equipas é uma das qualidades mais facilmente identificáveis. Guardiola e Bielsa são treinadores diferentes dos demais. Nunca abdicam das suas ideias de jogo e é por isso que, apesar de o espanhol ter um currículo muito mais recheado do que o argentino, ambos estão entre os melhores do mundo.

Bielsa espera reencontrar Guardiola na Liga dos Campeões num futuro próximo  Fonte: blog.oddslife.com
Bielsa e Guardiola têm várias semelhanças; podem reencontrar-se na Champions num futuro próximo
Fonte: blog.oddslife.com

O maior título da carreira de Bielsa foi o triunfo no Torneio Olímpico com a Argentina, em 2004. Mais tarde, fez um trabalho fantástico ao serviço do Chile, selecção que praticava um futebol vistoso e que se apurou para um Mundial (o de 2010) depois de 12 anos de ausência. A nível de clubes, o Marselha será o terceiro projecto europeu de El Loco, depois de Espanhol e Athletic Bilbao. É mais um desafio aliciante para o técnico argentino. O histórico clube gaulês está a precisar urgentemente de um “abanão” e seria difícil encontrar alguém melhor do que Bielsa para o dar.

O Marselha está a realizar uma época miserável (ocupa apenas o 6º lugar) e corre o risco de ficar fora das competições europeias (o Lyon, que é o próximo adversário, está a 5 pontos). Ainda assim, nem tudo é negativo. Florian Thauvin, médio ofensivo de 21 anos que está a demonstrar uma margem de progressão incrível, tem sido o grande destaque da temporada. Actuando preferencialmente do lado direito do ataque – de forma a explorar as diagonais -, é forte no drible e tem uma enorme facilidade de remate com o pé esquerdo. Há outros jovens com potencial, como o central N’Koulou e o lateral Mendy, os médios Lemina e Imbula e os irmãos Ayew (Jordan está emprestado ao Sochaux), mas Bielsa não consegue fazer milagres. Em termos gerais falta qualidade ao plantel, principalmente se o compararmos com os elencos de PSG e Mónaco.

O campeonato francês pode recuperar o prestígio que tem vindo a perder nos últimos anos. Se se confirmar a ida de Bielsa para Marselha, não faltam motivos de interesse para acompanhar a próxima temporada. Com a contratação do treinador argentino, o emblema do sul de França garante desde logo que todos os adeptos de futebol ofensivo seguirão atentamente o percurso da equipa. Mas estará El Loco mesmo de volta? Para o bem do futebol, esperemos que sim.

Jesus e a arte de jejuar

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Estas futuras linhas, numa sufocante onda de entusiasmo como esta que vamos juntos navegando, tanto se deixam banhar de necessária humildade como de merecido pavoneamento. Porque é assim o Benfica de Jesus: um para sempre incomparável percurso pautado por falhanços estrondosos, mas cheios de bom futebol. Bom futebol esse que, mais tarde ou mais cedo, e graças a toda a sua magistralidade, acabaria por sair por cima.

Saiu. Chegou. Viu. E venceu. Por entre tortuosos caminhos foi driblando durante cinco (demasiado longos) anos. Um Campeonato e três Taças da Liga. Uma Supertaça Cândido de Oliveira dada ao Porto. Uma Taça de Portugal mal perdida contra um corajoso Guimarães. E ainda uma Liga Europa por conquistar em Amesterdão, tudo fruto da cabeçada de Ivanovic ao cair do pano. Se nos lembrarmos ainda do tropeção no Dragão…bom, Jesus conseguiu paradoxalmente igualar as suas grandes vitórias às suas ainda maiores derrotas. Ainda para mais sabendo que do outro lado, no campeonato, nos últimos dois anos, esteve Vítor Pereira – técnico, na minha opinião, bem menos capaz do que este Paulo Fonseca, que nem pela porta pequena saiu, mas sim pela janela…de um qualquer décimo andar.

É este o resumo, por alto e sem grandes aprumos futebolísticos, do percurso do treinador amadorense no Benfica. Óbvio que se gostarmos realmente do desporto-rei e quisermos fazer justiça ao tipo que “até” deu alma e identidade ao Benfica – o único desde Sven-Göran Eriksson, e eu ainda nem era nascido ou via futebol na altura – será necessário relembrar que o ano passado foi, apesar de todas as lágrimas derramadas no final, o ano mais brilhante que o Glorioso viveu na sua história recente. Muito provavelmente, nos seus últimos 20 anos. Ou mais. Só vi o Benfica a praticar melhor futebol quando se sagrou campeão em 2009/2010 e, mesmo aí, nem cheirámos a Taça de Portugal (derrotados pelo Guimarães, por uma bola a zero, ainda na 4ª Eliminatória) e começámos a época a perder a tal Supertaça para o rival do norte.

Bem diferente desse de 2009, este foi um jogo que acabou com Jesus a beijar um herói Oblak Fonte: ASF (Eduardo Oliveira)
Bem diferente desse de 2009, este foi um jogo que acabou com Jesus a beijar um herói Oblak
Fonte: ASF (Eduardo Oliveira)

Em verdade, se o ano que passou foi brilhante, este ano já o suplantou em (quase) tudo: Campeonato conquistado a 15 pontos do Porto e com duas jornadas por disputar, final da Taça de Portugal, final da Taça da Liga e a quase-confirmação para Turim. O que Jorge Jesus conseguiu nestas duas épocas é de bradar aos céus. É de génio. É único. Nunca o Benfica na sua história conseguiu vencer mais do que dois títulos numa só época e Jesus pode quebrar esse registo…a dobrar! Juntando à conquista da Taça de Portugal a conquista da Taça da Liga e da Liga Europa, o que lhe permitiria tornar-se no primeiro treinador a conseguir vencer as três competições nacionais de uma assentada. É de loucos. E pensar que a última vez que o Benfica conseguiu, na mesma época, vencer o Campeonato e um troféu europeu foi em 1961…

E talvez os loucos mereçam mesmo um voto de confiança. Não sei que vos diga. Sou dos que nunca deixou de apoiar o trabalho deste técnico e isso sempre me valeu calorosas discussões – se quiserem procurem por entre as minhas muitas participações no Bola na Rede versão podcast e perceberão do que falo. Não quero, nem preciso, de vir para aqui dizer que se confirma agora que na altura até tinha um bocado de razão. Até porque, na verdade, também fui dos muitos que acreditei num fim de ciclo no princípio desta época. Nunca me senti tão feliz por estar errado. Luís Filipe Vieira chegou-se à frente e, entalado até mais não, fez a única coisa que podia (e sabe) fazer: geriu mal o Benfica e lá conseguiu obter bons resultados. Não foi a primeira, nem há-de ser a última vez.

Mas falemos de coisas felizes. Do fim do jejum deste Benfica. E do princípio do jejum do Porto. Já lá iam mais de 31 anos desde que o clube encarnado conseguiu enterrar o seu rival em todas as competições que disputaram juntos. 31 anos. É uma vida adulta. E assim assistimos, de forma meio poética, ao culminar da vida adulta do Benfica. Enfrentámos e vencemos a puberdade. Renascemos. Começamos agora um novo período. Uma nova hegemonia pintada de vermelho e branco. Uma nova hegemonia onde não há espaço para os anseios e devaneios do norte. Chegou a nossa hora. Chegou a hora de bater o pé e de deixar na fome e na miséria futebolísticas aquele que foi, sem olhar a meios, o dono e senhor do futebol português.

Que o jejum vos faça bem. Até porque só agora começou.

Jogadores que Admiro #18 – Ryan Giggs

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Na minha primeira rubrica sobre “Jogadores que Admiro” escrevi sobre um senhor do futebol, Javier Zanetti, e deixei no ar que também tinha uma grande admiração por outro “menino”, o eterno porta-estandarte de Old Trafford: Ryan Giggs.

O que me leva a tremer e a emocionar enquanto escrevo sobre esta lenda do futebol? O meu amor incondicional pelo futebol e pelos jogadores que, acima dos milhões, dão a vida, o corpo e a alma pelo clube que os formou e que aprenderam a sentir. Giggs é um desses jogadores, talvez no topo de todos os restantes (a par de Paul Scholes). Tem mais de mil jogos na carreira como sénior, divididos da seguinte forma: 64 pela selecção do País de Gales (de onde é natural), quatro pela selecção de jogadores da Grã-Bertanha, e os restantes jogos pelo Manchester United, onde não me arrisco a dizer o número de jogos porque ainda fará muitos mais… Só isto já diz muito sobre a carreira de Giggs. Mas não é tudo. O médio galês começou o seu processo de formação no maior rival do United, o Manchester City (1985-1987), até que, aos 14 anos, uma “velha raposa” o viu pessoalmente e decidiu trazê-lo para o United: Sir Alex Ferguson! Fez a sua estreia como sénior corria o ano 1991, dia 2 de Março, frente ao Everton. Não era, portanto, eu nascido!

Com um vasto currículo, Ryan (permite-me que o trate assim?) conta com mais de 35 títulos colectivos ao longo da carreira e é o maior detentor de recordes da Premier League, nos quais se destacam os seguintes: jogador com mais títulos da Premier League, jogador com mais partidas disputadas no principal escalão inglês, jogador com mais assistências, jogador mais velho a marcar um golo na Liga dos Campeões, aos 37 anos e 148 dias, etc.

A juntar a tudo isto, também é detentor de prémios como a “Ordem do Império Britânico” ou o de “cidadão honorário de Manchester”. Só isto já diz muito sobre as suas qualidades, não só futebolistas, como humanas.

Giggs com uma das suas muitas condecorações Fonte:  PacificCoastNews.com
Giggs com uma das suas muitas condecorações
Fonte: PacificCoastNews.com

Ryan tem uma particularidade muito peculiar no seu futebol: soube adaptar o seu corpo ao desgaste e à dureza que uma Liga como a inglesa provoca nos atletas. Começou a carreira como extremo puro, onde a velocidade e técnica lhe permitiam ser o “Cristiano Ronaldo” da altura, chegando a ser apelidado de maior promessa britânica e sendo mesmo comparado com o “monstro” George Best. Com o tempo (muito tempo!), o extremo foi perdendo a velocidade da juventude mas ganhando a experiência que foi acumulando com a idade. Aos poucos foi-se tornando um falso extremo, para centralizar o seu jogo e passar a ser um “vadio” em campo, sem posição definida. Diga-se que a evolução do futebol também ajudou neste processo, pois, com a evolução táctica, a entrada do “trinco” no futebol permitiu a subida dos laterais e, com isso, permitiu ao jogo ter mais profundidade, podendo os extremos entrar no espaço central. Hoje em dia, Ryan tem divido as suas posições consoante os jogos: ora joga a falso extremo em jogos onde a sua facilidade táctica pode ser importante, ora joga a ”nove e meio”, deixando Rooney assumir as despesas mais defensivas, que seriam dele. Quando são jogos onde a velocidade é uma constante, contra equipas com laterais velozes e onde seja importante explorar as costas do adversário, geralmente Giggs começa o jogo no banco, pegando na batuta apenas nos 15 minutos finais.

É difícil falar deste Senhor sem repetir expressões como “fantástico”, “humilde”, “fabuloso”, “líder” ou “emocionante”… Desafio o leitor a deixar apenas uma palavra para descrever Ryan Giggs (e não, não vale “completo”!).

Aos 40 anos, e tendo renovado contrato por mais um ano (fez questão de frisar que é para cumprir e, quem sabe, renovar), o galês é uma força da natureza, e nem aquelas “chatas” lesões que vão maçando o corpo o fazem querer parar. Ele só quer uma bola e divertir-se, fazer aquilo de que gosta, ensinar os mais novos e tirar partido daquilo que é a sua grande paixão: jogar futebol! É graças a pessoas como Ryan que eu sinto ter nascido na melhor geração de sempre do futebol: assisti à transição do futebol da era “primitiva” para o futebol moderno, que pouco mais tem a evoluir. O actual médio foi dos poucos que passaram por todas essas fases e, se me fosse pedido que fizesse uma equipa de sonho de jogadores que pelas mesmas passaram, esta seria:

Peço desculpa a jogadores como Rui Costa, Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Redondo, Makélélé, etc. Mas optei por jogadores que realmente passaram pelas mesmas fases do futebol que Ryan Giggs
Peço desculpa a jogadores como Rui Costa, Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Redondo, Makélélé, etc. Mas optei por jogadores que realmente passaram pelas mesmas fases do futebol que Ryan Giggs

Uff! Ao fazer este onze, tive o chamado “orgasmo mental futebolístico”; apetecia-me fazer uma rubrica sobre cada um destes jogadores agora mesmo! Mas voltando ao ponto central: Ryan Giggs – e a maioria dos jogadores do quadro – são a prova de que não é preciso ganhar uma Bola de Ouro para se ser uma lenda (ver imagem abaixo):

Ryan Giggs e Zanetti: o exemplo de duas lendas que nunca ganharam uma bola de ouro Fonte: soccersuck.com
Ryan Giggs e Zanetti: o exemplo de duas lendas que nunca ganharam uma Bola de Ouro
Fonte: soccersuck.com

Para finalizar, gostaria de deixar o meu desejo de que Ryan Giggs continue a espalhar magia por muitos, muitos anos! Uma vénia a ti, Ryan (e desculpa tratar-te por “tu” e pelo primeiro nome, mas, depois deste texto e de tudo o que pesquisei sobre ti, sinto que és e serás um eterno jovem…). Obrigado por existires, obrigado por fazeres parte das minhas futuras histórias aos meus netos, onde serás parte importante do “eu tive o prazer de ver jogar jogadores como…”, e, acima de tudo, obrigado por me teres dado tantas alegrias ao longo dos anos, não enquanto adepto do Manchester, mas sim enquanto amante do futebol. A ti, um obrigado do tamanho do mundo!

 

Para o ano há mais…

portosentido

A eliminação da Taça da Liga dita, finalmente, o encerramento de uma época para esquecer. Ontem, em pleno Estádio do Dragão, o Porto foi incapaz de se superiorizar a um Benfica de poupanças. O jogo de ontem pode muito bem representar a época 2013/14 do Porto. Numa palavra: escassez. Escassez de poder ofensivo e defensivo, escassez de soluções práticas e escassez de pulso por parte dos treinadores.

Para a história fica a eliminação do Porto na meia-final da Taça da Liga (que por si só não salvava a época) e mais uma derrota perante o Benfica de Jesus. Este ano, em quatro encontros com o Benfica, apenas uma vitória para o lado do Porto.

Posto isto, enquanto o Benfica, maior rival do Porto, tem o rumo marcado para uma época histórica no futebol português, o Porto ficou para trás na hegemonia do futebol. Não se pode, porém, afirmar que o Porto se encontra num ciclo negativo. O Porto vinha de um tricampeonato ganho por Villas-Boas e Vítor Pereira. Tinha e tem uma equipa desfalcada após a saída de Moutinho e James Rodriguez e, mais tarde, de Lucho. As novas chegadas não foram capazes de consolidar o que tinha sido perdido. Herrera ganhou espaço mas não fez esquecer Moutinho; Quintero, inexplicavelmente, não joga a titular; Reyes apenas surgiu no final da época após a saída de Otamendi. Há ainda as contratações de Licá (que deve estar de saída), Josué, que foi aposta pessoal de Paulo Fonseca, Ricardo e Carlos Eduardo. Estes últimos dois aparentam ser capazes de se manter e lutar pelo seu espaço no próximo ano.

Carlos Eduardo e Herrera, duas das contratações do Porto 2013/14, deverão continuar no Dragão  Fonte: Zero Zero
Carlos Eduardo e Herrera, duas das contratações do Porto 2013/14, deverão continuar no Dragão
Fonte: Zero Zero

Resta assim ao Porto a preparação da próxima época. O Porto não fica mais do que dois anos sem ser campeão de desde a época de 2001/02. É preciso, no entanto, uma evolução positiva considerável no plantel do Porto. Ao longo deste ano as fragilidades do plantel do Porto foram evidentes. Pinto da Costa precisa de fazer mudanças. Tem de haver saídas e entradas. É preciso reforçar o plantel até porque para o ano o Sporting vai assumir a corrida ao título e o Benfica, caso mantenha as peças-chave do seu plantel, continua a ser favorito.

O plano é simples, na verdade. O Porto necessita de reconstruir o plantel e precisa de contratar um treinador que consiga ter pulso firme. Já chega de aposta em treinadores jovens, está na altura de escolher uma “velha raposa”. Para além disso, precisa que os seus jogadores joguem ao seu nível. O caso mais sonante é Jackson. Embora o colombiano seja o melhor marcador da Liga, esta época esteve vários furos abaixo daquilo de que é capaz. Jackson vai jogar no Mundial; esperemos que volte para o Porto e que volte do Brasil inspirado, com vontade de retomar o nível do passado.

Jackson Martínez é uma das certezas no plantel da Colômbia  Fonte: eltiempo.com
Jackson Martínez é uma das certezas no plantel da Colômbia
Fonte: eltiempo.com

Contudo, independentemente da péssima época deste ano, 2013/2014 é uma época que vai acabar por dar o seu lugar a uma nova etapa. O campeonato começará do zero, assim como as Taças de Portugal e da Liga, e o terceiro lugar desta época garante o Play-off da Liga dos Campeões. O Porto pode ter tido um desaire este ano mas há mais para o ano. Há sempre mais para o ano….

Numa nota mais pessoal, Fernando Santos, actual seleccionador da Grécia, já anunciou que vai abandonar a selecção helénica após o Mundial do Brasil. O treinador disse, num programa de debate desportivo, que sente a falta da adrenalina e da “chatice” do treino diário com um plantel. Fernando Santos garantiu que procura uma equipa que lhe dê possibilidades de ser campeão e que põe de parte projectos de longo prazo. São demasiadas pistas para um Porto que, por enquanto, tem como treinador Luís Castro, que treinava a equipa B. Seria um enorme treinador para o Porto. A especulação vale o que vale, mas seria óptimo voltar a ver Fernando Santos no banco do Porto.

Força da Tática: Os mundos de virtudes (e defeitos) do Bayern e Real

força da tática

Actualmente, pensar em Bayern Munique e Real Madrid é pensar em dois estilos, ideias e modelos de jogo distintos. Esta eliminatória, das meias-finais da Liga dos Campeões, é um confronto de ideais. Para nosso bem – dos adeptos da modalidade – não só estão frente a frente duas formas de entender o futebol diferentes como também estão alguns dos melhores executantes do mundo. Pelo lado do Bayern, é justo recordar um dos que ajudaram a desenvolver e sustentar o futebol de posse que a equipa bávara adopta como seu: Tito Vilanova. Não foi a principal, mas foi uma das caras que fizeram erguer esta luta pelo querer contínuo da bola. Infelizmente, uma outra luta levou-o e impossibilitou-o de ver a evolução do seu estilo e do futebol mundial. Cabe aos que cá ficam respeitar e recordar a herança que o ex-treinador deixou a todos os amantes do desporto rei.

Na última quarta-feira, o Real Madrid venceu por 1-0 o Bayern Munique, muito embora tenha tido bastante menos posse de bola (72 % – 28% a favor dos alemães). A equipa de Ancelotti optou por um jogo de transições rápidas sustentadas pela velocidade de Ronaldo (depois Bale), Di María e Benzema, aproveitando o alto balanceamento ofensivo do Bayern. O que falhou na estratégia de Guardiola? Será a aposta na organização defensiva e transições ofensivas a mais segura neste nível tão alto? Ou o modelo de posse, levado ao topo pelo mesmo Guardiola mas no Barcelona, continua a ser aquele que mais aproxima as equipas do triunfo? 

Tentarmos responder às questões acima colocadas apenas com base num jogo é por certo demasiado redutor. Tratam-se de duas equipas que, apesar de representarem fielmente dois estilos opostos, não podem servir de argumento único a favor ou contra nenhum dos dois modelos de jogo mencionados. Acredito que o Real Madrid já atingiu um nível mais próximo do pretendido por Ancelotti quando delineou as suas matrizes de jogo comparativamente com o Bayern de Guardiola. O conjunto alemão, apesar dos resultados até agora excelentes e de algumas exibições muito boas, está mais longe de atingir o potencial que Pep Guardiola ambiciona com o seu modelo de jogo. É mais fácil colocar uma equipa com alto rendimento no processo defensivo do que no processo ofensivo, já dizia Jorge Jesus. E o Bayern está bem mais tempo a atacar do que o Real, pelo que a dificuldade em atingir um nível perto da perfeição é maior para o conjunto bávaro.

As setas azuis escuras são o passe completado; as vermelhas são o passe errado e as azuis claras representam os passes que antecederam um remate
Gráfico de passes do Bayern frente ao Real
As setas azuis escuras são o passe completado; as vermelhas são o passe errado e as azuis claras representam os passes que antecederam um remate

O gráfico que em cima disponibilizamos pode, à primeira vista, parecer confuso, mas é revelador num aspecto fulcral que falhou no jogo do Bayern: o último passe. Se verificarmos, apesar da grande quantidade de passes efectuados (711, dos quais 636 foram correctos), na zona frontal do último terço do terreno do Real não entrou practicamente nenhum passe feito com sucesso. O ter a bola é um princípio básico do jogo de Guardiola não só por aspectos ofensivos como também porque, quando com bola, a equipa não está susceptível a sofrer. Mas, apesar disso, se no último terço não existir uma movimentação eficiente e a agressividade necessária do portador da bola, e se a isto juntarmos uma equipa adversária compacta e bem organizada defensivamente, a equipa que mais bola tem passa por dificuldades apesar da alta percentagem de posse. Dito isto, considero que houve dois erros principais na montagem da equipa do Bayern, talvez a esperar um Real mais desinibido e com uma outra vontade para jogar em todo o terreno.

    1. A presença de Mandzukic – Muito embora Guardiola nos tenha habituado a dispensar do seu modelo de jogo o típico e poderoso ponta-de-lança, o certo é que o avançado croata tem sido aposta na presenta época. Mandzukic tem garantido capacidade de pressão alta sem bola, importante nomeadamente no momento em que o adversário tenta sair a jogar, e uma solução a nível de jogo mais largo se o adversário dificultar a primeira fase de construcção. O internacional croata encosta-se regularmente a uma das linhas e disputa muitas bolas junto ao lateral adversário, que por norma sente muitas dificuldades em vencer os duelos individuais (vídeo em baixo). Desta forma, o Bayern ganha uma solução simples e eficiente para a saída de jogo. Mas se o adversário não pressionar alto este efeito perde-se. Depois, Mandzukic torna-se pouco útil ao jogo quando os centrais que o marcam são igualmente poderosos do ponto de vista físico. Se houver pouco espaço, o avançado do Bayern é incapaz de procurar o melhor espaço, proporcionar tabelas ou superioridades numéricas longe do meio onde está mais confortável: a área. Assim sendo, Thomas Müller poderia ter sido uma solução mais interessante para o jogo anterior.

    2. O tridente do meio-campo: Lahm, Kroos e Schweinsteiger – A inclusão de Rafinha na direita e de Lahm no meio-campo foi talvez a principal surpresa no 11 de Guardiola. O objectivo do técnico catalão (que só perdeu pela primeira vez no Bernabéu no seu 8º jogo!!) pode ter passado por dar à sua equipa uma maior capacidade de pressão alta face à capacidade técnica e criatividade que Modric e Xabi Alonso detêm. Assim, caso o Real pretendesse assumir o jogo e sair a jogar desde trás, a equipa do Bayern estava precavida com três homens no meio-campo capazes de dificultar essa saída. O problema foi que o Real nunca procurou ter mais bola nem jogar mais tempo em organização ofensiva. Tanto Guardiola como alguns dos seus jogadores (Robben, por exemplo) demonstraram-se surpreendidos na conferência de imprensa por terem conseguido controlar e impor o seu jogo com tanta facilidade, o que parece confirmar que esperavam um Real com outras intenções. Desta forma, com muito mais bola e menos espaço no último terço ofensivo, faltou um elemento capaz de jogar entre linhas e desequilibrar o esquema de Ancelotti. Lahm, Kroos e Schweinsteiger são todos belíssimos médios-centro, mas nenhum deles é um verdadeiro perito na condução de bola, no drible ou simplesmente na ocupação de espaços entre a linha média e a linha defensiva do adversário. Só Lahm e Kroos trocaram, entre si, 44 passes! Götze ou, de novo, Müller poderiam ter dado outras soluções à equipa de Guardiola. Foram exactamente eles os donos das duas melhores ocasiões de golo (Müller com um remate ao lado e G]otze a proporcionar a defesa mais complicada de Casillas).

Por outro lado, Ancelotti voltou a usar um desenho táctico alternativo, que já havia colocado em prática (com sucesso) diante do Barcelona na final da Taça do Rei. O Real Madrid apresentou-se, principalmente quando sem bola – na maior parte do jogo -, num 4x4x2, deixando o 4x3x3 que mais sistematicamente usou ao longo da época. Com quatro no meio, o treinador merengue procurou evitar inferioridades numéricas na parte central do campo e estancar os possíveis espaços que o Bayern criasse. Xabi Alonso, Modric, Isco e Di Maria foram irreprensíveis na ocupação dos espaços na zona média-baixa do terreno, apesar de todos eles serem jogadores de características mais ofensivas do que defensivas. Ronaldo e Benzema acabaram por ser os dois mais avançados, tendo sido o lado esquerdo do ataque (de Ronaldo primeiro, e depois de Bale) o mais solicitado. Para isto também contribuiu a presença de Fábio Coentrão, que, das poucas vezes em que se envolveu no ataque o fez com muito critério. Carvajal, por seu lado, quase nunca passou do meio-campo.

Foi esta a disposição inicial dos 11, com o Real Madrid a apresentar um 4x4x2
Foi esta a disposição inicial dos 11, com o Real Madrid a apresentar um 4x4x2

Quanto à estratégia delineada, Ancelotti preferiu fechar bem os espaços no momento defensivo sem nunca abdicar das transições ofensivas rápidas e verticais (no vídeo em baixo) em detrimento de um jogo “cara-a-cara” com um Bayern que se sabe ser dominador quando os adversários tentam jogar em todo o terreno. Entregou a bola ao adversário desde cedo, estancou o jogo de Ribéry e Robben ao garantir que havia sempre superioridade numérica sobre os dois extremos (Di Maria e Isco foram importantes neste aspecto) e fechou os espaços no meio, tendo também beneficiado da pouca dinâmica de Mandzukic e da falta de um médio mais ofensivo como seria Müller ou Götze, conforme mencionado anteriormente. No processo ofensivo, Modric foi o elemento mais importante do meio-campo madridista. Foi quase sempre ele a ligar a zona defensiva à zona ofensiva, ora por temporizações importantes quando não havia soluções para sair em velocidade, ora por passes rápidos para os homens mais avançados. A capacidade técnica muito acima da média em conjunto com uma leitura de jogo e sabedoria no momento da decisão assinaláveis foram essenciais para que o croata se tornasse tão influente na partida.

Tendo o primeiro jogo corrido de feição ao Real, que surpreendeu o Bayern com uma postura pragmática mesmo jogando em casa, o que esperar da segunda mão de amanhã? Na minha visão, e sem querer entrar no campo da futurologia, há dois cenários prováveis:

  1. Que o Bayern altere os elementos do seu meio-campo, colocando no 11 inicial, pelo menos, Thomas Müller. A partir daqui, é provável que a equipa se apresente mais dinâmica, até porque houve algum tempo para tentar corrigir os erros da primeira mão. É mais expectável a saída de Rafinha (e a passagem de Lahm para a direita, até porque Ronaldo já vai estar em melhores condições físicas e Lahm é mais forte defensivamente do que o brasileiro) do que a saída de Schweinsteiger, mas a segunda hipótese também é possível dado o baixo rendimento do internacional alemão no primeiro encontro.
  2. Que o Real não mude a sua táctica, mantendo Bale no banco e começando com os quatro que iniciaram o jogo no Santiago Bernabéu. Ancelotti terá noção de que se marcar estará muito mais perto da final, mas deve privilegiar a segurança defensiva, visto que se espera um Bayern ainda mais ofensivo, com mais soluções e com outra preparação para perfurar a linha defensiva contrária.

O mundo do futebol terá amanhã mais um magnífico embate entre dois estilos opostos e dos quais só pode beneficiar o adepto, privilegiado por poder assistir a duas equipas tão fortes como os actuais Real Madrid e Bayern Munique. Seja qual for, o vencedor desta eliminatória será sempre o favorito a levantar o troféu no Estádio da Luz. Até lá, que toque o hino…

FC Porto 0-0 Benfica (3-4 a.g.p.)

Depois do nulo registado no final dos noventa minutos, o SL Benfica eliminou o FC Porto nos penalties e carimbou o passaporte para a final da Taça da Liga. Num jogo que ficou marcado pela expulsão de Steven Vitória à passagem da meia-hora, o FC Porto, a jogar em casa, dispôs de várias ocasiões para marcar ao longo da primeira parte mas foi incapaz de transpor a bem organizada defesa encarnada no segundo tempo. Na lotaria das grandes penalidades, um falhanço de Fernando terminou com as aspirações azuis e brancas e permitiu ao Benfica manter-se em todas as frentes. Assim, a final da Taça da Liga irá ser disputada por Benfica e Rio Ave, à semelhança do que sucederá na Taça da Portugal. Francisco Manuel Reis (FC Porto) e Francisco Vaz de Miranda (Benfica) analisaram o encontro.

Nas grandes penalidades, o Benfica levou a melhor sobre o Porto  Fonte: Público (APF)
Nas grandes penalidades, o Benfica levou a melhor sobre o Porto
Fonte: Público (APF)

 

Pronúncia do Norte

Longe de ser o “jogo da época”, como algumas vozes sugeriam, o jogo de hoje representava a última hipótese de o FC Porto terminar esta temporada com mais do que uma mísera Supertaça. Se o adversário – um Benfica com uma vantagem de 15 pontos no campeonato e que já havia eliminado os dragões da Taça de Portugal – se apresentou com uma equipa recheada de segundas escolhas, o FC Porto apresentou o melhor onze disponível e Luís Castro voltou a apostar no “meio-campo de combate” em que já havia apostado nos outros embates com os encarnados (Fernando, Defour e Herrera).

A história do jogo pode resumir-se em duas partes relativamente distintas: nos primeiros quarenta e cinco minutos, o FC Porto dominou claramente a partida, conseguiu impor-se ao Benfica, foi capaz de rasgar a defesa adversária e criou inúmeras oportunidades para marcar; na segunda metade, frente a um Benfica em inferioridade numérica mas muito bem organizado e com as linhas muito próximas, o FC Porto continuou por cima, tendo mais bola, mas esteve muito mais distante do golo, não revelando a agressividade, a velocidade e a competência suficientes para penetrar na muralha vermelha instalada à sua frente.

As contas são fáceis de fazer: na primeira parte, Jackson teve três ocasiões soberanas para marcar (aos 9’, de cabeça; aos 20’, numa emenda deficiente a dois metros da baliza; e aos 38’, quando tentou picar por cima de Oblak), Varela também desperdiçou uma oportunidade claríssima (aos 14’, com Jackson isolado ao seu lado) e Defour teve igualmente nos pés a possibilidade de facturar (aos 26’, rodou sobre o defesa à entrada da pequena área e rematou ao lado); na segunda, o banana shot de Herrera aos 79’ foi a situação de maior alarme para os pupilos de Jesus.

O Benfica só foi mais forte nos primeiros cinco minutos. A partir daí o FC Porto tomou conta das incidências e lançou-se em busca da vantagem, não consentindo uma única ocasião de golo ao longo dos noventa minutos. Enfrentando uma equipa aguerrida e sólida, como se esperava, os melhores momentos dos dragões até foram contra onze (Steven Vitória foi uma passadeira e acabou expulso), quando havia mais espaço entre as linhas do Benfica. Depois, os lisboetas recuaram e o FC Porto, embora instalado no meio-campo adversário, teve sempre muita dificuldade em fazer chegar o esférico à área.

Embora a sorte tenha sorrido ao Benfica nas grandes penalidades, premiando a coesão defensiva e a capacidade de sofrimento dos seus atletas, o FC Porto merecia um desfecho diferente porque dominou toda a partida. O fôlego foi-se dissipando à medida que o cronómetro corria, mas mesmo assim teria sido mais justo ver o FC Porto na final da Taça da Liga. No final, acabou por ser mais um capítulo do filme de terror que tem sido a época 2013/14 no Dragão.

O FC Porto desperdiçou demasiadas oportunidades e acabou por pagar a factura  Fonte: ZeroZero
O FC Porto desperdiçou várias ocasiões e acabou por pagar a factura
Fonte: ZeroZero

Fabiano (6) – teve uma noite muito tranquila e quase só foi chamado a intervir nos penalties. Aí, fez o que pôde…

Alex Sandro (6) – sem grande trabalho defensivo, teve algumas dificuldades em incorporar-se no ataque – fruto da boa cobertura dos extremos adversários – e acabou por não assumir a preponderância que se lhe pedia no momento ofensivo.

Danilo (6) – também não teve muito para fazer na hora de defender, mas acabou por ser mais assertivo do que o seu compatriota da faixa oposta no ataque, procurando desequilibrar através dos seus movimentos interiores.

Mangala (6) – sem erros graves, esteve particularmente mal durante a primeira meia hora, quando o Benfica pressionava alto e obrigava o Porto a optar pelo jogo directo, ao falhar uma série de passes de forma disparatada.

Maicon (8) – o melhor da defesa do Porto; apesar de o Benfica ter atacado pouco, ficam na retina dois ou três desarmes de enorme classe do capitão do Porto.

Fernando (8) – foi o tampão de sempre sem bola e foi fundamental com ela no pé: bem no capítulo do passe (curto e longo), bem a gerir os ritmos e os tempos da partida; bem a iniciar a construção do jogo do Porto. Fez o que lhe competia.

Defour (6) – ofereceu à equipa aquilo que pode e sabe – equilíbrios e boas decisões -, mas acabou por sair de campo para dar lugar a um elemento incomparavelmente mais criativo como é Quintero. Foi “certinho” como quase sempre é.

Varela (7) – se teve problemas físicos durante a semana, esses não se notaram durante quase toda a partida (em especial durante a primeira parte): muito dinâmico, mais explosivo que o habitual, mostrou-se galvanizado e fez um bom jogo. Pena aquela perdida em que rematou sem nexo com Jackson ao lado.

Jackson Martínez (7) – teve várias oportunidades para fazer o gosto ao pé (e à cabeça!), mas acabou por ser demasiado perdulário. Ainda assim, por tudo o que trabalhou para a equipa, merece uma boa nota. Só faltou o golo para ter feito uma grande exibição.

Quintero (7) – entrou para encontrar espaços onde ninguém os encontra, para fazer passes que ninguém faz e para descobrir colegas onde ninguém os descobre. Em certa medida, conseguiu-o, mas não desequilibrou tanto como se esperava.

Ghilas (5) – entrou para o lugar de um desinspirado Quaresma, mas acabou por fazer muito pouco. Remetido ao espaço nas costas do Cha Cha Cha, nunca apareceu no jogo e contribuiu muito pouco para a equipa.

Ricardo (-) – esteve pouco tempo em campo e não mudou nada.

 

A Figura
Herrera (8) – o mexicano teve uma performance muito positiva e provou que, com confiança, é um elemento muito válido. Foi o responsável pela profundidade do jogo portista na primeira parte, demonstrou mais uma vez muita força física e velocidade e hoje revelou serenidade na tomada de decisão e no momento do passe. Perdeu preponderância com o recuo motivado pela entrada de Quintero, mas terá sido o elemento em maior destaque no lado dos anfitriões.

O Fora-de-Jogo
Quaresma (6) – não foi o abre-latas que poderia ter sido. Agarrou-se demasiado à bola, foi lento a decidir, insistiu em marcar (mal!) as bolas paradas e hoje não teve grandes golpes de inspiração. Não fez um jogo terrível, mas esteve abaixo das expectativas. Foi o único a ficar surpreendido com a sua própria saída.

 

Francisco Manuel Reis

benficaabenfica

Com Jorge Jesus a pensar no jogo em Turim da próxima quinta-feira, foi um Benfica de cara lavada a apresentar-se no Dragão para o jogo que dava o acesso à final da Taça da Liga. Importa aqui dizer que esta competição é, de longe, a menos importante nas ambições encarnadas e, por isso, a rotação feita no onze inicial justificava-se plenamente. Com o regresso de Oblak à baliza e André Almeida e Siqueira nas laterais, a grande surpresa esteve no centro da defesa. Jardel e Steven Vitória permitiram o (merecido) descanso de Luisão e Garay, Ruben Amorim ocupou o lugar de Enzo e a Ivan Cavaleiro coube a difícil tarefa de ultrapassar Alex Sandro. Com o sérvio Sulejmani do lado esquerdo, Cardozo e Lima apareceram como referências no ataque. Poupança quase total a pensar na Juventus, visto que apenas três destes jogadores costumam ser escolha habitual por parte de Jorge Jesus: Oblak, Siqueira e Lima.

Com a diferença de rotação e dinâmica existente entre as duas equipas, não seria difícil de prever que o domínio do jogo pertenceria ao F.C. Porto, que deu muito mais importância a esta meia-final do que o Benfica. Se a surpresa de Jorge Jesus esteve reservada para a dupla de centrais que lançou em campo, menos surpreendente foi a falta de entrosamento por esta demonstrada. Steven Vitória, que passou a temporada entre o banco e a bancada, cometeu erros atrás de erros e acabou expulso à meia-hora de jogo, numa decisão duvidosa do árbitro Marco Ferreira, após um carrinho fora de tempo sobre Jackson Martínez. Repetia-se o filme da Taça de Portugal, com o Benfica a ficar reduzido a dez logo no primeiro terço do encontro. Desta vez, e sendo coerente com as suas ideias, Jorge Jesus retirou Lima para lançar Garay, deixando Cardozo perdido entre a defesa contrária. Num primeiro tempo de sentido único, só por inércia dos atacantes do F.C. Porto o nulo se manteve ao intervalo. Varela e Jackson desperdiçaram oportunidades claras de golo, que quase sempre surgiam pelo lado de Steven Vitória, totalmente fora do ritmo de jogo e incapaz de pôr cobro às investidas portistas. No meio-campo, Ruben Amorim e André Gomes revelavam-se insuficientes perante a maior rotatividade do mexicano Herrera.

No segundo tempo, esperava-se um F.C. Porto a continuar a carregar na procura do golo que lhes permitisse alcançar a única final da temporada. Algo que não se verificou. O Benfica melhorou substancialmente o seu momento defensivo com a entrada do soberbo Garay, a quem a responsabilidade do momento nunca parece afectar. O Benfica espreitava timidamente o ataque através de Ivan Cavaleiro e Markovic (entrou para o lugar de Cardozo) mas esbarrava sempre em Mangala, central do F.C. Porto a quem parece ser difícil arrancar uma falta ou um cartão amarelo. Mais do que a qualidade defensiva apresentada pelo Benfica, esta segunda parte deixou as evidências de uma época desastrosa para os dragões. Em menos de duas semanas, por duas vezes estiveram com mais um homem em campo durante 60 minutos e pouco ou nenhum proveito conseguiram tirar disso.

Com o empate sem golos no fim dos noventa minutos, a decisão estaria nas grandes penalidades. E que monstro foi Oblak, que classe teve Enzo, que épica foi esta vitória. O Benfica apresenta uma confiança inabalável e nem o facto de se apresentar no sempre complicado Estádio do Dragão com uma equipa de segundas linhas lhe retirou o discernimento e o saber estar em cada momento do jogo. Depois de virar a eliminatória da Taça de Portugal de forma épica, o Benfica foi ao Dragão selar a presença na final de 7 de Maio, frente ao Rio Ave. Só um grupo de jogadores com um enorme espírito de união consegue superar por duas vezes o Porto nas condições em que isso aconteceu. Mas, verdade seja dita: o campeão nacional já merecia um ano assim.

A equipa do Benfica manteve-se sempre unida e acabou por chegar à final da Taça da Liga  Fonte: ZeroZero
A equipa do Benfica manteve-se sempre unida e acabou por chegar à final da Taça da Liga
Fonte: ZeroZero

André Almeida (7) – com Quaresma pela frente, avizinhava-se tarefa difícil para o jovem português. Mentira, disse ele. Tão apagado esteve Quaresma que nem quis acreditar quando foi substituído.

Steven Vitória (3) – jogo para esquecer do 4.º central benfiquista. Desastroso no posicionamento, lento a reagir, foi pelo seu raio de acção que nasceu o principal perigo adversário. Expulsão duvidosa.

Jardel (7) – sempre que é chamado, Jardel cumpre. Excelente exibição do brasileiro, culminada com uma grande penalidade muito bem cobrada.

Garay (8) – a classe do central argentino sai-lhe por todos os poros. Segurou a equipa no momento mais difícil do jogo.

Siqueira (6) – o lateral-esquerdo brasileiro apresenta-se numa condição física invejável. Contudo, continua a complicar em demasia alguns lances em que se pede maior objectividade.

Ruben Amorim (7) – está feito um belíssimo jogador. Melhorou a olhos vistos a qualidade do seu posicionamento táctico e isso permite-lhe estar sempre um passo à frente dos restantes.

André Gomes (6) – sem o brilhantismo que apresentou no encontro da Taça de Portugal, melhorou o seu nível no segundo tempo, após algumas falhas de concentração no primeiro.

Ivan Cavaleiro (6) – jogo de sacrifício, destacou-se mais por ter conseguido travar umas das principais fontes do jogo ofensivo portista: Alex Sandro.

Sulejmani (6) – serve o comentário feito a Ivan Cavaleiro para o jogador sérvio. Acusou algum desgaste natural, depois de ter jogado quinta-feira frente à Juventus.

Lima (6) – apenas meia-hora em campo e o primeiro remate do jogo para registo.

Markovic (7) – quando o Benfica se encolhia no meio-campo defensivo, o talento do sérvio veio dar alguma criatividade e capacidade de segurar a bola ao ataque encarnado.

Enzo Pérez (6) – pouco tempo em jogo, fica mais uma demonstração da categoria do médio argentino na marcação da grande penalidade.

 

A Figura
Oblak (9) – mais uma demonstração de enorme qualidade por parte do jovem esloveno. Seguro dentro dos postes, autoritário fora deles, mãos de ferro nas grandes penalidades.

O Fora-de-Jogo
Cardozo (4) – com a poupança de Rodrigo, Cardozo assumiu a titularidade e, uma vez mais, passou ao lado do jogo. Nem o jogo esteve para ele, nem Cardozo esteve para o jogo. Fase final de época para esquecer do paraguaio.

 

Francisco Vaz de Miranda