Início Site Página 10552

Dragões em chamas!

0

portosentido

O Porto está em crise. Não há muitas oportunidades para afirmar algo deste género. É muito raro um clube bem estruturado e com grande disciplina ter um problema deste tipo entre mãos. Em Coimbra, o Porto voltou a perder pontos e perdeu o primeiro lugar para Benfica e Sporting. No entanto, mais do que três pontos, o Porto perdeu a massa de adeptos. Já referi no passado que na base de um clube estão os adeptos. São eles que conseguem ser o 12º jogador e a força quando já não há força. Sem os adeptos, acaba por não haver Porto.

O jogo com a Académica voltou a provar o actual momento de forma do Porto: terrível e desinspirado. Não há esforço conjunto no relvado. O Porto a jogar parece ser bola no Lucho e fé em Jackson Martinez. Paulo Fonseca insiste em jogar com o duplo pivô quando Fernando nasceu para jogar sozinho. A decisão de jogar com o que eu gosto de chamar falso extremo (Josué) na esperança de manter a ala e, ao mesmo tempo, ganhar mais um homem no meio-campo ofensivo começa a ser demasiado previsível e pouco proveitoso para o jogo azul e branco. A ideia é deixar o corredor aberto para as incursões de Danilo, algo que acaba por destabilizar.

Há, de facto, uma forma de “ganhar” mais um homem no meio-campo ofensivo sem comprometer o equilíbrio da equipa: Fernando tem de jogar sozinho! Em anos recentes, a equipa do Porto sempre, mas sempre, jogou com apenas Fernando no vértice recuado do triângulo. Funcionou e o Porto ganhou títulos. A equação é simples. Com Fernando acompanhado perde-se um homem que acaba por não ter qualquer impacto no jogo.

Após o desaire na cidade dos estudantes, onde Paulo Fonseca se mostrou, pela primeira vez, completamente derrotado, não houve Porto. No entanto, pior do que o jogo em si foi a situação que aconteceu depois. À chegada da comitiva portista ao estádio do Dragão, o autocarro portista foi atacado por uma dezenas de pessoas enraivecidas. Isto é algo com o qual eu não posso compactuar.
Os resultados não são os melhores, as exibições são terríveis. Porém, nunca se deve agir da forma como os estupores que atacaram o autocarro do Porto agiram. O bando de dezenas de pessoas não faz, a meu ver, parte dos adeptos do Porto. O ataque ao autocarro portista é um acto vergonhoso por parte de uns quantos gatos-pingados. O Porto não esteve naquele pseudo ataque. Não foram os adeptos portistas que mandaram aquelas tochas improvisadas e pedras que estivessem à mão. Aquilo foi trabalho de pessoas que não entendem o futebol, que não percebem a verdadeira essência de ser um dragão em chamas.

Os incidentes à chegada da comitiva do Porto Fonte:www.record.xl.pt
Os incidentes à chegada da comitiva do Porto
Fonte:www.record.xl.pt

Entendam uma coisa… A confiança em Paulo Fonseca começa a diminuir. Facto. Mas as verdadeiras chamas que estiveram no Porto não são as das tochas atiradas ao autocarro. As verdadeiras chamas dos dragões estão nos adeptos, na equipa, na direcção, em tudo. A verdadeira chama é a nação portista. E essa… Essa nunca se vai apagar.

Swansea e a Michu – dependência

A equipa galesa dos Swans ateima em não aparecer em grande nível este ano. Primeiro há que contextualizar. O Swansea City é uma equipa galesa que subiu num passado muito recente à Premier League, mais concretamente no ano de 2010/2011, no qual garantiu a 3ª presença na liga de topo do Reino Unido, em toda a sua história.

A equipa comandada, na altura, por Brendan Rodgers conseguiu um grande 11º lugar, algo histórico para um clube relativamente modesto. As estrelas da equipa foram jogadores como Sigurdsson, atualmente no Tottenham; Joe Allen, do Liverpool; Scott Sinclair, que acabou por ingressar no City; Ashley Williams e Michael Vorm, que ainda estão no clube. A grande época ditou a saída do treinador para o Liverpool, onde ainda hoje se encontra.

Michael Laudrup / Fonte: EPLindex.com
Michael Laudrup / Fonte: EPLindex.com

Contudo, esta saída permitiu a entrada de Michael Laudrup, que desde logo se destacou por dar ao clube um futebol muito atrativo e de elevada qualidade, caracterizado por um grande poder ofensivo. O ataque era liderado por Michu, um médio que chegara no mesmo ano e depressa foi colocado numa posição mais ofensiva. Era acompanhado por jogadores como De Guzmán, Nathan Dier e Pablo Hernández. Este ano tornou-se histórico para o clube, que acabou por erguer a Capital One Cup (Taça da Liga), com uma vitória por 5-0 frente ao surpreendente Bradford City, dando ao clube o seu primeiro grande troféu.

Findo este ano, a nova época prometia e muito. O treinador manteve-se, bem como toda a filosofia de jogo, e chegaram jogadores como Wilfried Bony, o melhor marcador da Liga Holandesa, Cañas e Pozuelo, provenientes do Real Betis e Jonjo Shelvey, um jovem promissor do Liverpool. Esperava-se que, no mínimo, o Swansea City mantivesse o nível de jogo da época transata.

A verdade é que tal não aconteceu e é uma equipa que ainda à procura da melhor forma. Bony não se adaptou tão rápido quanto o esperado e Michu tem estado aquém das expectativas. Criou-se mesmo uma Michu-dependência, pois o estilo de jogo da equipa depende em demasia do espanhol.

Michu e Wilfried Bony / Fonte: soccernews.com
Michu e Wilfried Bony / Fonte: soccernews.com

Os Swans encontram-se no modesto 13º lugar, com apenas uma vitória nos últimos oito jogos oficiais, entre os quais se contabilizam três jogos para a Liga Europa e cinco para a Premier League. Foram também eliminados da Capital One Cup pelo Birmingham. Vale, assim, o atual segundo lugar na fase de grupos da Liga Europa mas precisam de ganhar o último jogo contra o St. Gallen, na Suíça, para assegurar a qualificação.

Na minha opinião, é uma equipa que terá muito a dar ao futebol inglês, com um treinador que mostrou uma enorme capacidade e vontade de elevar a qualidade do clube. Tem sido uma época algo decepcionante mas convém realçar a inexperiência do clube na alta roda europeia.

É preciso dar tempo às coisas e tenho a certeza de que Bony e Michu vão entrar numa boa forma e levar o Swansea a mais uma época de bom nível. Fico à espera para ver o que acontece. Deste clube só espero o melhor, dado o seu histórico de boa gestão, com enorme cautela e investimentos de real valor.

Ensaio sobre a cegueira, constante

0

Glóbulos Vermelhos

Não sou bruxo. Mas por duas vezes me manifestei aqui, anteriormente, sobre a má forma de jogadores do Benfica. Ola John marcou contra o Cinfães (apesar de depois disso ter voltado ao mesmo); Rodrigo também melhorou (muito mais agora, a assinar uma bela exibição contra o Rio Ave); Lima fez dois golos (ao contrário de muitos, parece-me que não fez um grande jogo, mas antes dois belos golos e pouco mais). Mas ainda assim há melhorias. Se faço um por semana para melhorarem todos, mas ninguém acredita muito nisso, até porque para a semana podem ficar em branco e correr tudo mal, mais uma vez. Agora falemos de outro caso: o jovem André Gomes.

Quando surgiu na equipa principal depressa encantou, com maturidade, com visão de jogo, com sobriedade. Atenção, não é um jogador perfeito, tem muito a melhorar, precisa de mais eficácia na velocidade de execução, depois tem de perder o medo de chegar perto da área – fá-lo lindamente na equipa B e nem tanto na A. Mas se pensarmos, como podemos avaliar a sua performance na equipa principal, se este ano, não jogou?

André Gomes no desespero / Fonte: desporto.sapo.pt
André Gomes no desespero
Fonte: SAPO Desporto

Entrou nos descontos para a Champions e agora para a Liga, falhando um derby com o Porto para a 2ª Liga, onde se tem evidenciado como um jogador de grande qualidade e importância. Sempre critiquei a sua utilização constante na equipa B em detrimento da sua possível preponderância na equipa principal. Mas logo agora que o Benfica B defronta o seu rival nortenho, Gomes vai a Vila do Conde para entrar a 30 segundos do final. Numa clara manifestação de falta de respeito por um miúdo com coisas para provar, mas que já demonstrou muito, chegando mesmo a ser convocado para a Selecção A. Mesmo com a lesão de Rúben Amorim, o homem fica de fora e não tem possibilidades de demonstrar o que de bom tem o seu jogo.

Uma estreia na Liga que se dispensava, para nem sequer tocar na bola e acumular um jogo para a estatística. No Sporting era provavelmente titular ou discutia o lugar no onze com André Martins. Aqui pode, muito provavelmente, vir a tornar-se o próximo Miguel Rosa. Parem com isto. Mais vale vender o rapaz para que possa seguir o seu caminho futebolístico que tem tudo para ser grande. É esta entrada na compensação que Jesus entende por motivação? Quem já foi atleta sabe perfeitamente que é tudo ao contrário. É um castigo, daqueles que nos retira vontade e nos faz baixar a cabeça em direcção ao balneário. Esperemos que não saia pela porta dos fundos. Se sair, o Benfica vai-se arrepender, mais uma vez. É a cegueira, eterna, constante.

O contador de histórias maiores do que a vida – Entrevista a Jaime Cravo

entrevistas bola na rede

Jaime Cravo, 36 anos e metade da vida dedicada ao jornalismo. “Contar histórias maiores do que a vida” trouxe 17 prémios ao jornalista e ao ReporTV, exemplos quase únicos da reportagem desportiva televisiva em Portugal.

Jaime Cravo

Começo com a pergunta da praxe: quem é o Jaime Cravo e que percurso fez até chegar ao ReporTV?
Sou uma pessoa banal, como todas as outras. Sou casado, tenho filhos… o habitual. Desde cedo soube que queria o jornalismo. Em criança já recortava jornais e notícias, fazia o meu próprio jornal e escrevia as minhas notícias. É com esse tipo de coisas que começamos a perceber o que é que vamos querer fazer no futuro. E assim foi. Mesmo durante a vida académica, na Universidade Lusófona, fiz um jornal chamado “Novo Lusófono” com mais dois amigos. Era uma coisa revolucionária, muito por causa da juventude inquieta. Tanto que um dos visados pelas nossas críticas levou as coisas mesmo a sério e colocou-nos um processo em tribunal. Até fui prestar declarações à Polícia Judiciária sozinho, com 18 anos, algo que não é permitido sem a presença de um advogado. Bem, acabou por não haver problema porque o caso se resolveu sem males maiores. No segundo ano da faculdade o bichinho já tinha tomado conta de mim e entrei no “Manhã Popular”, um diário que nasceu na altura. Aí, fiz sociedade, crime e educação. O jornal acabou por fechar e fui para a revista “Factos”, mas estive ainda no “Semanário” e “Política Moderna”, uma espécie de “George” à portuguesa.

Já nessa altura tinha o sonho de fazer televisão?
Não, não. A verdade é que televisão é o meio mais “vaidoso” de toda a comunicação social. Há um encanto das pessoas pelo aparecer, pelo estar e conversar com figuras públicas. E a televisão é um meio muito poderoso, porque junta imagem, voz, música… Uma boa ou má escolha da música, por exemplo, pode fazer uma imagem “normal” brilhar ou tornar uma grande imagem em mais uma apenas.

Então como é que surgiu a oportunidade de entrar para a SportTV?
No terceiro ano de faculdade, fui para o CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) fazer um curso intensivo sobre televisão durante três semanas. Confesso que fui um dos melhores nesse pequeno curso e foi aí que o José Gabriel Quaresma – formador do curso e actual jornalista da TVI24 – me recomendou à SportTV, em 2000. Quando entrei fazia aquela coisa rotineira de ir aos treinos das equipas de futebol, às conferências de imprensa… Mas já aí tentava dar ao telespectador uma visão alternativa. Para isto era, e é, muito importante ter uma grande confiança com o operador de câmara. Lembro-me que tentávamos oferecer sempre uma visão mais “lúdica” às pessoas. Numa das vezes reparei numa teia de aranha durante um treino e filmámo-la, para depois cruzar com outras ideias que me iam surgindo. Desde sempre, tento procurar um ângulo jornalístico diferente do que já era feito pelos outros. É desafiante passar quinze ou trinta minutos de treino para um minuto e meio diferente mas com interesse.

E no caso do ReporTV, como é feita a selecção das imagens?
Bem, neste caso tenho por volta de oito horas de filmagens em bruto. Primeiro vejo tudo e tento seleccionar aquilo que acho que pode ser interessante e novo para quem vai ver. Procuro sempre mostrar o lado que ainda ninguém viu. Depois começa o trabalho de edição de imagem, a elaboração da voz off e a escolha da banda sonora, que é muito importante.

É depois dessa primeira experiência no canal que integra o programa?
Estamos a falar de 2000, portanto altura dos Jogos Olímpicos de Sidney e com representação portuguesa. A SportTV criou, na altura, um programa chamado “Filhos do Olimpo” como espécie de antevisão da competição. Aí, o ReporTV era feito “à vez” por um grupo de cinco ou seis pessoas e o Luís Miguel Pereira – criador do ReporTV e actual chefe de redacção – chamou-me. Percorri o país de norte a sul a contar curiosidades, desde o Carlos Calado ao Nuno Delgado. Além disso, fazíamos o “abc” do programa para integrar e dar a conhecer melhor as modalidades menos conhecidas e os seus termos mais técnicos às pessoas, como o caso do judo.

Como é que o ReporTV passa, então, a ser “seu”?
Desde a minha entrada para o canal que gostaram sempre do meu trabalho, eu sabia disso. Aí por altura desses Jogos Olímpicos, o Luís Miguel Pereira deixou a chefia do ReporTV para passar a chefe de redacção. Foi uma sucessão natural e eu fiquei com a pasta do programa.

De que forma lhe chegam estas histórias às mãos?
Um pouco de todas as formas, acredita. Desde carta, como foi o caso do Paulo Azevedo (“O melhor jogador do mundo”), até um simples e-mail, tudo serve. Também acontece estar no terreno em filmagens e ficar a conhecer outras histórias que me parecem interessantes. Aí, fico com o contacto das pessoas em questão e fico a pensar na ideia. Até já me aconteceu a ideia surgir numa simples conversa com o meu operador de câmara, quando íamos para fora em reportagem. No carro, começámos a falar do desaparecimento do futebol de rua e do talento que já não existe e foi assim que surgiu o “Do meio da rua”. Confesso que foi um dos programas que mais trabalho deu a toda a equipa, perdi a conta às pessoas com quem falámos. Conheço inúmeras histórias mas, claro, a escolha passa sempre por mim: a história tem de ser interessante mas as pessoas também.

Como é que encontra estes ângulos tão alternativos, que são verdadeiras “lufadas de ar fresco” na reportagem televisiva em Portugal? Sente que o Reportv é uma forma de pegar nas histórias que as pessoas conhecem mas não têm “coragem” para contar?
Em Portugal há muito pouca abertura à reportagem desportiva. O pensamento geral é o de “ah, futebol, isso…” e é por isso que a reportagem desportiva é tão pouco explorada. A verdade é que estamos num país que vive o futebol e o desporto com paixão e de forma emocionante. Aliás, todo o desporto é emoção e só temos de aceitar essa condição, somos assim e pronto. Não vai mudar! Mais do que contar vidas, tento contar histórias maiores do que a vida e acredito que qualquer pessoa pode dar uma boa história. Procuro focar-me em duas ou três pessoas e depois contar a história a partir daí. Sempre do particular para o geral, nunca o contrário.
O facto de passar num canal pago também influencia a força do programa, não o posso negar. Não tenho dúvidas de que em canal aberto, o ReporTV seria um tremendo sucesso. Posso dar um exemplo… Um ano antes de a SIC fazer a reportagem sobre o Paulo Azevedo (rapaz sem braços e sem pernas que leva uma vida normal), tinha eu feito a minha. E a SIC teve 1.200.000 pessoas a assistir à reportagem na altura… O ReporTV é pouco conhecido até dentro do próprio mundo do jornalismo, excepto no caso dos jornalistas desportivos.

Qual foi a reportagem que mais prazer lhe deu? Porquê?
Bem… pergunta muito difícil. (Pausa) É mesmo muito difícil escolher porque já foram tantas, em quinze anos de programas… Esta do Gil Vicente (“Deus, Fiúza e outras estórias”, emitida dia 5 de Dezembro) vai ser boa, o Fiúza (presidente do clube) é uma verdadeira personagem. O programa sobre a pior equipa dos campeonatos distritais portugueses também foi muito bom, pela forma como as pessoas de Aljustrel se ligavam àquele clube e a relação entre o trabalho nas minas locais e o próprio clube.
E acho que a próxima, que vai para o ar em Janeiro, também vai ser excelente: vamos ao primeiro jogo do campeonato de uma equipa que foi bicampeã no campeonato da INATEL do Algarve e decidiu integrar o campeonato distrital. Acontece que eles não treinam, apenas se juntam para jogar ao domingo. É uma aldeia mesmo muito pequena e com pouca população, perdida no Algarve. Lembro-me também do “Pedro maluco”, um homem completamente fanático pelo Benfica. Tinha o sonho de construir uma réplica do antigo Estádio da Luz no jardim de casa e andava de mota pela aldeia com um megafone a transmitir relatos de golos do clube. Uma coisa do outro mundo. Depois de conhecer esse caso, tentámos concretizar o sonho do Pedro. E conseguimos. Até o Mário Dias (antigo vice-presidente e um nome incontornável na construção do Estádio da Luz) lá foi!

Sente que os 17 prémios que o ReporTV já ganhou funcionam como uma “rede” de confiança do programa em relação aos entrevistados?
Claro que sim. É um cliché mas toda a gente gosta de ver o seu trabalho conhecido, não o nego. Mas a atitude tem de continuar a mesma, porque as pessoas esquecem-se dos prémios, amanhã é outro dia e há mais histórias para contar. É claro que este reconhecimento que ganhámos nos traz um maior conforto e proximidade com os próximos entrevistados. Já sabem ao que vão porque conhecem o estilo característico do programa. Isto permite-nos sempre ter uma maior abertura dos clubes e das pessoas em si.

Numa palavra ou expressão:

Jornalismo desportivo português
(Pausa) Menosprezado e mal aproveitado
ReporTV
Oásis
Equipa com que trabalha
Super-equipa, um “teamaço”
Prémios que ganhou
Relativizo-os
Paulo Azevedo em “O melhor jogador do mundo”
É um puto, um super-puto
“Livre a correr” (História de Hugo Pinto, antiga esperança do atletismo português, que foi preso por tráfico de droga mas continuou a treinar num pátio de 150 metros, na prisão)
Lição de vida
O futuro
Continuar a contar histórias

Então mas e agora quem é que manda aqui?

0

cab nba

Apesar de haver muitas coisas das quais eu poderia falar, nenhuma notícia abalou mais o mundo do basquetebol – sim, eu disse basquetebol e não só NBA – como a mais recente lesão de Derrick Rose. Uma rotura de ligamentos no joelho direito do antigo MVP acabou com mais uma época inteira da estrela dos Bulls e, provavelmente, com as aspirações de serem campeões. É uma pena sim senhor, mas a liga não pára e as equipas continuam a jogar.

A ausência do base da equipa de Illinois e de Rajon Rondo dos Celtics, ambas por lesão, abriu uma vaga no trono de melhor base da conferência Este. Se analisarmos as competências dos jogadores do hemisfério mais próximo de Portugal, existem 4 bons bases que podem disputar o título de melhor base do lado oriental: Brandon Jennings, Deron Williams, Kyrie Irving e John Wall. Neste conjunto podia incluir George Hill e Mario Chalmers, mas estes não possuem um trabalho fundamental, deixando o principal para as estrelas das suas equipas, Indiana Pacers e Miami Heat respectivamente. Só coloco nesta lista verdadeiros bases porque se não, de acordo com as estatísticas, Paul George e até o próprio Lebron James poderiam estar aqui.

Antes de mais, devo relembrar que isto é uma opinião minha e que muito provavelmente algum dos nomes acima referidos pode não ter o talento necessário para ser coroado. Porém, são jogadores que admiro bastante. Neste seguimento, tenho quase a certeza de que quando Rajon Rondo voltar o lugar será seu, mas neste momento há um défice de qualidade assumida.
Começo por fazer uma análise a Brandon Jenning. Este atleta foi recentemente trocado para os Detroit Pistons e, apesar do início de época abrupto da equipa, tenho um pressentimento de que o grupo tem potencial para ir aos playoffs se conseguir ajustar o poder físico e o talento de Josh Smith, Andre Drummond e Greg Monroe. Se isso acontecer, Brandon Jennings tem um trabalho relativamente fácil. Se agregarmos a sua capacidade inata de juntar assistências à de pontuar com regularidade, Brandon Jennings pode rapidamente tornar-se no melhor base da costa atlântica.

Deron Williams é um jogador deveras interessante de se analisar. Ora faz um jogo em que bate recordes de triplos numa parte e distribui a bola muito bem, ora faz constantemente asneiras e dá o esférico à equipa adversária. Ninguém nega que Deron tem um talento fora do comum. No entanto, é um jogador muito inconstante. Quem sabe se quando ele recuperar da lesão no tornozelo, com ajuda do treinador Jason Kidd – isto, se o último aguentar até lá – Williams poderá florescer e voltar aos tempos que o colocaram na elite, quando este estava nos Utah Jazz. Com um plantel tão experiente como o dos Nets, Deron só terá de fazer o mínimo para conseguir um bom trabalho. Com atletas como Joe Johnson, Paul Pierce e Brook Lopez ao seu lado, o base de Brooklyn tem um trabalho facilitado.

Quando penso no próximo atleta de que vou falar, não me vem à cabeça o seu nome, mas sim a alcunha que este recebeu com um anúncio para a Pepsi, aquela marca que nenhum português deseja ouvir falar agora. Estou a falar de Uncle Drew. Aliás, Kyrie Irving. O base da equipa de Ohio rapidamente conquistou o coração dos fãs. Com a sua reconhecida “ginga” e qualidade de manusear a bola, Irving demonstrou uma maturidade além da expectável, o que poderemos dizer que surpreendeu os críticos. Este, ao contrário dos referidos anteriormente, não está num plantel fabuloso, nem muito bom sequer. Como tal, tem sobre si a batuta de tentar levar os Cleveland Cavaliers ao título, ou pelo menos aos playoffs. Uncle Drew, como já foi imortalizado pela Pepsi, é capaz de humilhar por completo os seus oponentes directos com umas fintas de corpo e com cross-overs gigantes, e fazer grandes assistências. Necessita agora de o fazer com uma maior consistência e de marcar mais pontos. Se Andrew Bynum alcançar a forma que já teve antes das suas constantes lesões, se Anthony Bennett se entender com a competitividade da liga e se Mike Brown se aperceber de como pôr esta equipa a jogar de acordo com o seu potencial, os Cavaliers podem muito bem chegar aos playoffs.

Wall e Irving
Na minha opinião, actualmente, estes dois são os melhores bases da conferência Este
Fonte:kcmsports.com

Em último lugar, vou falar sobre aquele que para mim se tem mostrado em melhor forma, John Wall. O base dos Washington Wizards está numa forma impressionante, marcando imensos pontos, fazendo inúmeras assistências e roubando bolas. Enfim, Wall está a fazer de tudo. Ele não esta incluído num plantel equilibradíssimo, mas joga com um conjunto bastante coeso, com um base-lançador muito eficiente, Bradley Beal, com o brasileiro Nenê também a realizar um início de época muito interessante e com a adição do polaco Marcin Gortat que tem ajudado bastante a defender o cesto.

Para finalizar esta ideia, devo afirmar que John Wall tem o potencial e o talento para se tornar no melhor base da conferência Este da NBA na ausência de Rajon Rondo. No entanto, se Kyrie Irving começar a entrar nos eixos, pode fazer uma luta muito competitiva por esse trono. Brandon Jennings e Deron Williams são incógnitas que não dependem só de si mesmos para entrarem na luta, mas possuem um plantel completo o suficiente para se tornarem muito importantes e poderem ter uma palavra.

Isto renhido é outra coisa

cab futebol feminino

Digam o que disserem, qualquer competição é mais apelativa, interessante, emocionante, electrizante, “gusti”, prazerosa, bonita, cativante, viciante, entusiasmante (pausa para respirar)… quando é renhida. Não, nem me venham com coisas, toda a gente sabe que esta é a mais pura das verdades. Sim, é claro que dominar um campeonato ou uma partida por larga margem é porreiro para a equipa que o consegue fazer. Mas, em qualquer batalha, partida, combate ou simples corrida, o mundo é um lugar melhor quando a competição é renhida.

Agora que penso nisso, faz um pouco lembrar aquela altura na escola primária em que todos fazíamos birras porque não queríamos jogar a alguma coisa que sabíamos que iríamos perder. Uns não queriam jogar cartas porque havia sempre algum marmanjo com um super-deck, uns não queriam jogar à bola porque tinham maus pés (e acabavam sempre na baliza a levar com as clássicas “bujas”), outros recusavam-se a jogar ao “ganhas” nos tazos porque não os queriam perder. Os baixinhos diziam sempre não ao basquetebol, os gordinhos a jogos de corrida, os pequenos a zaragatas. Agora que penso mesmo bem nisso, já passei por cada uma destas fases, ainda que em momentos sempre diferentes. Foi uma bela infância, tenho de admitir.

Gallas amua por não o terem deixado marcar um pénalti Fonte: www.telegraph.co.uk
Gallas amua por não o terem deixado marcar um pénalti
Fonte: www.telegraph.co.uk

Mas, voltando ao assunto em epígrafe, e antes que comece aqui com nostalgias infindáveis, todos nós não gostamos de brincar quando sabemos que, à partida, vamos levar na boca. É a natureza; ninguém gosta de levar no “totiço”. Só que enquanto neste exemplo das crianças tínhamos sempre bom remédio – não jogar –, no mundo adulto as coisas não funcionam bem assim. Temos responsabilidades e temos de as honrar. Somos ou não somos adultos? Somos; então jogamos. Mesmo que uma equipa, tipo Barcelona, esteja com 15 pontos isolada na liderança do campeonato a quatro jornadas do fim, o Real Madrid ainda vai e joga. Já sabe que ser campeão é impossível, que perdeu, que levou na boca, que levou no “totiço”. Mas ainda joga, porque, lá está, tem essa responsabilidade. Se uma equipa de futebol estiver a levar 5-0 aos 85 minutos de jogo, é claro que já não quer jogar os minutos finais, mas ainda o faz, seja pela “honra” da coisa, ou só para ver se não leva mais.

A comparação saiu-me muito fraquinha, eu sei. Perdi-me ali por momentos a reviver a minha infância, mas acho que todos podemos concordar numa coisa: o desporto é muito mais mágico quando é renhido. Quando há duas equipas com semelhante força, quando a vitória pode cair para qualquer um dos lados, quando um simples deslize pode deitar tudo a perder, quando um pequeno movimento pode ditar uma vitória gloriosa… é pura magia. Ninguém se lembra das goleadas aos “mijas-na-escada”, mas aquela vitória arrancada a ferros por 2-1 no último minuto frente ao eterno rival, essa sim, fica para a memória.

Dwight Yorke e Peter Schmeichel abraçam-se depois da mítica vitória por 2 a 1 frente ao Bayern Munique, na final da Champions de 1999 Fonte: www.whoateallthepies.tv
Dwight Yorke e Peter Schmeichel abraçam-se depois da mítica vitória por 2 a 1 frente ao Bayern Munique, na final da Champions de 1999
Fonte: www.whoateallthepies.tv

Esta é outra daquelas características especiais do desporto, transversais a qualquer modalidade, idade e género. E estas últimas semanas têm sido especialmente entusiasmantes para qualquer fã de desporto, exactamente porque anda tudo mais renhido. Ora vejamos três exemplos no mundo do futebol:

1º Liga Portuguesa – O Porto perdeu (!), o que é igual a: Sporting e Benfica empatados em primeiro (finalmente!!) e Porto a dois pontos. É claro que os adeptos portistas se calhar gostavam de já andar com uma porrada de pontos de avanço na liderança, como de costume. Mas ainda que andem mais nervosos, sou capaz de apostar que alguns, bem lá no fundo, até gostam de ver as coisas mais renhidas. É certo que ainda há muito campeonato pela frente, mas já há muito tempo que não se via uma luta entre os três grandes pelo título de campeão português. É bonito.

La Liga – O Barcelona perdeu (!!), o que significa: Atlético de Madrid apanha Barcelona em primeiro, Real Madrid a apenas três pontos de distância. Ainda só estamos no início, mas já dá para ver que as coisas vão aquecer pela terra de nuestros hermanos.

Campeonato Português Feminino – O A-dos-Francos perdeu (!!!). Aqui calma, que tenho de fazer um reparo – comparar Porto e Barcelona ao A-dos-Francos não é sequer plausível, dado que estamos a falar de equipas que venceram o campeonato o ano passado, enquanto o A-dos-Francos acabou de subir ao primeiro escalão. Mas, ainda assim, é bom, a bem da competitividade do campeonato feminino, que a equipa sensação, invicta até aqui, tenha perdido.

Neste momento, o A-dos-Francos continua em primeiro lugar, Ouriense em segundo, a seis pontos, e Clube Futebol Benfica em terceiro, a sete, mas ambas com menos um jogo que o líder. Se estas duas equipas conseguirem aproveitar o tropeção do líder e fizerem os três pontos, as oito jornadas que faltam para acabar a fase regular prometem ser electrizantes. Curiosamente, os jogos em falta do Ouriense e do Clube Futebol Benfica são contra a mesmíssima equipa: o Boavista, que está no quinto posto com dois jogos em atraso. Mais curioso ainda: o Boavista tem neste momento um goal avarage de zero – marcou 12 golos e sofreu 12.

Estes dois jogos são provavelmente dos mais importantes da temporada para o Boavista, que, em caso de vitória em ambos, pode passar directamente para o segundo lugar, à frente do Ouriense. Mas, lá está, vai defrontar o segundo e terceiro classificados, que querem a todo o custo aproveitar o único deslize dado pelo A-dos-Francos até agora. Not an easy task.

Numa frase? Things are getting interesting. Numa palavra? Gosto. Muito mesmo. É que isto renhido é outra coisa.

Sporting 4-0 Paços de Ferreira: O Sporting de 21 anos

William Carvalho, de 21 anos, é a imagem deste Sporting: jovem, recém aparecido, tranquilo e confiante das suas capacidades. Todos os adjectivos são facilmente reconhecidos tanto ao trinco português como à equipa de Alvalade. Mas, para além disso, muito se pode dizer sobre o que é e será o presente e futuro de tanto do jogador como do próprio clube. No final da 11ª jornada, quem foi o melhor jogador da Liga? E a melhor equipa? Na minha forma de ver são, exactamente, William e o Sporting. Mas, tanto um como outro, terão de provar que têm estofo para manter o nível. Mesmo que, tanto um como o outro, não tenham a responsabilidade de o fazer.

O Sporting venceu hoje, por 4-0, o Paços de Ferreira, que não sofria golos há vários jogos. É a quarta vez que a equipa de Leonardo Jardim vence por quatro golos de diferença. Em onze jogos, quatro foram vencidos por tal diferença de golos. Pelo meio, uma derrota no Dragão – talvez o campo mais difícil do campeonato – e dois empates em casa, com Benfica e Rio Ave. Para já, saldo francamente positivo. Mas quando há um plano e uma estrutura consolidados – e, depois de tanto se esperar, finalmente há! – não é a meio do caminho que se alteram rotas. O Sporting não é candidato ao título! Apenas e só porque não foi com esse fim que preparou a época. Mas, como já se entendeu, essa meta inferior traçada em tempo certo pode muito bem vir a ser amiga do leão.

William Carvalho tem um percurso idêntico. Chegou ao clube na pré-época practicamente sem se dar por ele, trabalhou na hora e medida certas, empenhou-se e ganhou lugar não apenas no plantel como no onze. Correu por fora, sem pressões, e mostrou-se o melhor. Primeiro, para a posição. Depois, da equipa. Agora, muito provavelmente, do campeonato. Com 21 anos, mas com serenidade de veterano, William soube, segundo Sven Jaecques, director técnico do Cercle de Brugge, fugir das tentações que a vida na Bélgica lhe ia oferecendo. Diz o mesmo que o jovem jogador tinha ao seu dispor chocolate, cerveja e mulheres em quantias excessivas, mas que conseguiu perceber que não era esse o caminho. De igual forma, o Sporting deve resistir à mudança de objectivos que acrescentará apenas pressão dispensável a um conjunto talentoso mas, ao mesmo tempo, jovem e curto quando comparado com o do Porto e Benfica.

É exactamente essa uma das diferenças deste Sporting para o de anteriores anos: quando, na possibilidade de ascender ao primeiro lugar, era clássico o acusar de pressão em Alvalade. Hoje o que se viu foi o contrário. Um sinal de motivação extra, como deve ser, por existir espaço para se subir mais um degrau. O Sporting entrou bem, pressionante, como que a mostrar ao Paços que a derrota do Porto não ia jogar a seu favor. Como fruto dessa atitude positiva, marcou cedo e desbloqueou assim qualquer tipo de nervosismo que se pudesse instalar. O autor do golo? William Carvalho. O melhor em campo? O autor do primeiro golo. Daí em diante foi tudo relativamente fácil.

Ouvi, do que considero ser o melhor comentador futebolístico do país, Carlos Daniel (um dia hei-de parar de o citar, prometo), que as equipas se revêem nos seus trincos: equipa de trinco destrutivo dificilmente jogará muito bem ofensivamente; equipa de trinco macio dificilmente defenderá muito bem; equipa de trinco equilibrado estará sempre mais perto de jogar bom futebol. E assim é o Sporting. O trinco é, a meu ver, a posição mais importante do futebol actual. Qual foi o último grande trinco que actuou em Alvalade? Miguel Veloso, quando na sua melhor forma. E, desde aí, o Sporting deixou de conseguir lutar pelo título. Admito que os problemas vão muito além da qualidade do trinco utilizado, mas, como Carlos Daniel disse, o Sporting tem sido um reflexo do trinco que utiliza. O Benfica da época passada, apesar de ter terminado sem qualquer título, é a prova da teoria dos trincos. Matic foi o melhor jogador do plantel e a qualidade do futebol praticado foi de alto nível.

Publicação de William Carvalho no seu Instagram
Publicação de William Carvalho no seu Instagram

Agora é a hora de fazer aquilo de que não gosto: a futurologia. Com base no apresentado, no máximo, tenho condições para afirmar que o Sporting pode lutar pelo título. Pode manter o nível apresentado. Pode assegurar a força de vontade própria dos 21 anos, idade com que todos nós sonhamos conquistar os objectivos traçados, mais pela ambição do que pela razão. Como William, o Sporting pode vir a ser o melhor. Mas não tem essa obrigação. Trabalhar arduamente e manter o equilíbrio entre alegrias e possíveis desapontamentos é o caminho que leva às estradas do sucesso. Estradas essas que serão percorridas pela certa. Este ano ou no próximo, “ninguém vai poder atrasar quem nasceu para vencer”.

De volta a onde sempre devemos estar

0

nascidonafarmaciafranco

O Benfica apresentou-se hoje em Vila do Conde com apenas uma alteração na formação que jogou contra o Anderlecht na passada jornada europeia: entrou Rodrigo e saiu Markovic. As alterações na frente não negam a dependência que ainda existe em relação a Cardozo e a dificuldade que tem existido para criar uma alternativa colectiva eficaz quando o paraguaio não joga. O golo de Rodrigo em Bruxelas não lhe conferiu automaticamente uma boa forma física e Lima tem estado a léguas daquilo a que nos tem habituado. Considerando que o meio-campo do Benfica é, nesta altura, o melhor do campeonato, e que “lá atrás”, fora o fantasma das bolas paradas, está quase tudo bem, serviu hoje o jogo no Estádio dos Arcos para reconsiderar a avaliação que fiz de Lima e Rodrigo? Talvez não.

Às 17h45 de hoje, Bruno Paixão apitou o início do 11º encontro do campeonato para o Benfica e para o Rio Ave. Olhando para os 90 minutos, podemos falar de um jogo bastante disputado a meio-campo, com muito contacto físico, alguns duelos individuais e vários cartões mostrados. Com dinâmicas de jogo distintas ao longo do encontro, ambas as equipas se anularam bastante bem na primeira metade do jogo – a oferta do jovem Ederson ao minuto 38 não invalida este facto. Um futebol pouco atractivo neste primeiro capítulo foi o que tivemos.

Com uma vantagem magra, o Benfica não soube entrar para a segunda parte com mais agressividade, jogando na expectativa e claramente a achar que defendia um resultado bem mais dilatado do que era na verdade. Ukra, pertinente e oportuno, igualou o marcador depois de um corte menos feliz de André Almeida. O golo do Rio Ave surge, à semelhança do que aconteceu com o primeiro golo do Benfica, numa fase em que o jogo se desenrolava a um ritmo baixo e desinteressante.

Um livre executado na perfeição por Lima voltou a colocar as águias na frente. Felizmente aqui o Benfica pareceu ter aprendido a lição e não voltou a incorrer no mesmo erro. A equipa soube encarar a vantagem com outra atitude e a entrada de Markovic veio trazer velocidade ao jogo e um risco acrescido à defesa do Rio Ave, que aos poucos foi cedendo e foi perdendo a coesão inicial. O Benfica acaba com o jogo ao minuto 78, quando Lima bisa, após assistência de Rodrigo. Por esta altura com dez jogadores, de nada valeram as substituições a Nuno Espírito Santo, que dificilmente mudaria o rumo do jogo, como se comprovou.

O Benfica festeja a subida ao primeiro lugar Fonte: Publico.pt
O Benfica festeja a subida ao primeiro lugar
Fonte: Público

O Benfica sai de Vila do Conde com os tão importantes três pontos e passa para o topo da tabela. À hora a que escrevo este artigo não sei ainda o resultado final do Sporting x Paços de Ferreira, que agora decorre, mas este degrau mostra-se decisivo por colocar o Benfica no primeiro lugar da tabela classificativa (sejam descontados os critérios de desempate em caso de vitória do Sporting, que, a 19 jogos do fim do campeonato, pouco ou nada representam).

Concluindo esta abordagem ao jogo, quero referir que, se, por um lado, acho sempre que uma dupla de avançados abre muitas mais possibilidades de ataque do que um solitário ponta-de-lança, por outro não posso para já assentir que seja esta dupla Rodrigo-Lima a solução perfeita. São dois jogadores de que gosto bastante individualmente e que considero merecerem vestir a camisola do Benfica, mas o futebol entre os dois espera ainda por um “click”, que eu espero que se dê.

Como nota final, quero deixar um bom apontamento à exibição de Fejsa. Sempre competente, mostrou-se fulcral no processo defensivo da equipa e inteligente no desarme e na eminência da falta. Quanto a Enzo e Matic, mais do mesmo, muito boa prestação.

Ontem o João Pedro Oca escreveu aqui que a possível vitória hoje poderia representar “o início de um caminho glorioso para a equipa”. Colega, espero de facto que assim seja e que o primeiro lugar não mais nos fuja. Seja este o trigésimo terceiro.

“Depois de mim virá quem de mim bom fará”

0

eternamocidade

Não tenho palavras. Nem sequer ideias para escrever este texto. Perdoe-me, caro leitor, mas este FC Porto deixa-me sem ideias, sem palavras, sem espírito para escrever em algumas linhas aquilo que é a minha opinião. É triste dizê-lo, sobretudo de uma equipa tricampeã nacional, de uma equipa que tem tantos títulos conquistados nos últimos anos, dentro e fora de portas.

Mas então, o que se passa com este Porto? Não é preciso ser-se muito entendido em futebol para se perceber que esta é uma equipa cansada, triste, que desilude quem a vê e que não faz tremer quem a enfrenta. Ao olhar para este “FC Porto”, parece que só resta uma coisa de todas essas épocas de glória: as camisolas. Voltando ao início desta história, talvez valha a pena recordar que quando foi anunciada a saída de Vítor Pereira, a esmagadora maioria da plateia azul e branca ficou radiante. O futebol não cativava, a equipa até jogava a passo, mas no final de contas…foi campeã duas vezes. Das cinzas, Vítor Pereira conseguiu acordar em duas ocasiões uma equipa, e acabou por ir buscar dois campeonatos. O futebol nunca foi o melhor, Vítor Pereira não entusiasmava no discurso, mas acabou por ganhar. Se calhar, na mente de alguns aquela ideia de que “no FC Porto qualquer um é campeão” cada vez se tornou mais realista depois de Vítor Pereira. Nos inícios de Julho, quando a equipa entrou na pré-época, acreditava-se numa nova era, num novo ciclo. Vindo de Paços de Ferreira, vinha um treinador que havia feito o impensável: levar o Paços à Champions. Dizia-se que era o melhor que podia acontecer ao Porto, e houve até quem já o comparasse com André Villas Boas.

Paulo Fonseca vs Nacional
Paulo Fonseca / Fonte: Record

Passados 4 meses, como é possível que a história se tenha alterado tanto? A equipa não aparece, não joga, não intimida. Este sábado até nem foi por uma falha individual, mas sim por um erro de equipa. E sim, esta equipa parece cada vez mais um erro, dos pés à cabeça. Sem imaginação, sem garra, sem alma, sem atitude, não foi o FC Porto que perdeu em Coimbra. Sem inteligência tática e sem capacidade de finalização, não foi o tricampeão nacional que perdeu sete pontos em três jogos. O FC Porto que nos habituou tinha tudo isto e muito mais: partia para cima do adversário, controlava sempre, e triturava até marcar e ganhar os jogos. Vítor Pereira tinha isto, mesmo que sem o brilho de outros. Este treinador não o tem: não vou entrar no discurso gratuito, nem no insulto sem sentido. Acho que a falta de qualidade não deve levar a exageros no discurso. Porém, como autor deste texto, permita-me que diga que acho que já chega. Que não dá mais. Que a situação tem que chegar ao fim. Não é sorte nem azar, nem mera falta de finalização. É falta de atitude e daquilo que é ser FC Porto. É falta de garra e de espírito tripeiro.
Afinal de contas, nunca isto fez tanto sentido, ao olhar para um passado apenas com quatro meses: “Depois de mim virá quem de mim bom fará”.

O Passado Também Chuta: Costa Pereira: Uma Estrela Voadora

o passado tambem chuta

Eram outros jogos. Eram outros jogadores. Os clubes conservaram os nomes, mas as vibrações que saltavam desde a relva para o mais longínquo dos espetadores eram diferentes. Na primeira metade da década dos 50 chegou a Lisboa um guarda-redes e um basquetebolista procedente do Ferroviário de Moçambique; as duas vertentes encarnavam numa única pessoa; chamava-se Costa Pereira. Chegara uma das personalidades mais marcantes do desporto e do futebol. O basquetebol do Benfica conheceu, durante os primeiros anos, as qualidades do jogador que mais tarde viraria articulista nos jornais desportivos. O futebol do Benfica viu como um guarda-redes podia ser eficaz e fino nos seus movimentos. Foi campeão tanto como futebolista como como basquetebolista. Não foi caso único; o desporto e a sua prática eram entendidos, ainda, com mentalidade formativa integral e bem olímpica. Acúrcio, também guarda-redes e jogador de hóquei patins do FC do Porto, era outro dos desportistas integrais. No entanto, poucos anos antes e mais alguns anos, o Sporting vivera a sua época mais esplendorosa de sempre: o Sporting dos cinco violinos. Tinha jogadores mágicos e tinha um extremo-direito chamado Jesus Correia; este bom atleta foi campeão em hóquei patins e em futebol. Mas, antes do Sporting ter o veloz e dinâmico Jesus Correia, o Benfica tivera, nas suas filas, um dos seus grandes mitos: Espírito Santo. O atletismo e o futebol desfrutaram deste fino estilista.

O sorriso de uma estrela Fonte: http://delagoabay.wordpress.com/
O sorriso de uma estrela
Fonte: http://delagoabay.wordpress.com/

Costa Pereira, no entanto, foi mais abrangente e estava possuído por uma magia especial. Era, na altura, culturalmente forte. Atreveu-se, mal chegou ao Benfica, com a mesa das negociações e discutiu e negociou, sem medos, com a Direção tudo o que tinha e queria negociar a equipa. Se não foi um sindicalista, foi um delegado do grupo. A sua magia e erudição rapidamente se espalharam e conjuntamente com o José Aguas e o Germano formou a coluna vertebral natural na equipa onde se podiam acomodar novos e velhos. Como todos os grandes teve um apodo. Era um guarda-redes completo muito elegante e as suas mãos, muitas vezes, parecia que acariciavam a bola para a roubar da cabeça do contrário, no entanto, teve descuidos espetaculares, tanto foi assim que era conhecido pelo Costa dos Frangos. Na famosa final da Taça da Europa do “tri”, entre a pressa e a autossuficiência, deixou passar uma bola mansa entra as pernas. Acabaria lesionado e o seu lugar ocupado pelo célebre defesa-central Germano.

Os três moçambicanos do Benfica (Eusébio, Costa Pereira e Coluna) Fonte: http://delagoabay.wordpress.com/
Os três moçambicanos do Benfica (Eusébio, Costa Pereira e Coluna)
Fonte: http://delagoabay.wordpress.com/

Retirou-se, finalmente, perto da década dos 70. Os jornais desportivos começaram a receber as suas crónicas. Tinha uma pluma ágil. Mais tarde, teve vida de treinador e passou uma boa temporada na velha CUF. Um ano, andou pelos lugares cimeiros sendo a sensação do campeonato. Finalmente, saiu da primeira linha. O Benfica e não só demoraram uma eternidade a superar a sua lenda. Fora único. Qualquer candidato a guarda-redes do Benfica padecia um bombardeamento de comparações. Saíam sempre derrotados; a grandeza do seu antecessor pairava sobre o Estádio da Luz e aplastava. Anos mais tarde apareceu o José Henriques. Finalmente, os sócios e adeptos do Benfica acalmaram a sua nostalgia. O firmamento benfiquista tem muitas estrelas chispantes, mas Costa Pereira é uma dessas estrelas que mais deslumbram.