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Recordar é Viver: Juventus 1-3 Borussia Dortmund

recordar é viver

Noite de 28 de Maio de 1997, Estádio Olímpico de Munique, final da Liga dos Campeões. Em confronto duas equipas que contavam nas suas fileiras com um lote excepcional de jogadores e que proporcionaram um belo espectáculo na final da montra milionária. A equipa germânica era então orientada pelo conceituado Ottmar Hitzfeld, que mais tarde também viria a sagrar-se campeão europeu ao serviço do Bayern de Munique, ao passo que a vecchia signora era treinada por Marcello Lippi, um dos mais bem-sucedidos treinadores italianos. De referir que no Borussia pontificava Paulo Sousa, que na época anterior havia vencido a Liga dos Campeões ao serviço da… Juventus.

Ambas as formações chegaram ao jogo decisivo sem problemas de maior, comprovando assim a sua excelência e poderio. A equipa de Dortmund eliminou nas meias-finais o Manchester United, enquanto a Juventus despachou o fortíssimo Ajax da altura por um concludente 6-2, somando os dois jogos daquela fase da prova, naquela que foi uma reedição da temporada transacta.

Sendo assim, estavam todos os dados lançados para uma final muito equilibrada e de desfecho imprevisível. Quatro anos antes, em 1993, estas mesmas equipas haviam-se defrontado na final da Taça Uefa, com o triunfo a sorrir ao conjunto transalpino, mas desta feita as coisas seriam diferentes. No Borussia de Dortmund brilhavam vários futebolistas, com destaque para alguns que já tinham feito parte do plantel da Juventus. Jurgen Kohler, Andreas Moller e Paulo Sousa, além de um soberbo Mathias Sammer, pautavam o jogo da equipa alemã que acabou por marcar o futebol europeu naquela fase dos anos 90. Já na Juventus, a experiência do guarda-redes Peruzzi e de Didier Deschamps conjugava com a juventude e talento de Zinedine Zidane e Christian Vieri, dando-se a equipa de Turim ao luxo de deixar Alessando Del Piero, ainda na fase inicial da carreira, no banco de suplentes.

Imagens da festa do único título europeu do Borussia até hoje Fonte: UEFA
Imagens da festa do único título europeu do Borussia até hoje
Fonte: UEFA

Em relação à partida em si, um surpreendente desequilíbrio. Quiçá motivada por jogar a final da Liga dos Campeões no seu próprio país, mesmo sendo em Munique, o Borussia não deu a mínima chance ao então campeão europeu, vencendo com total clareza. Riedle, aos 19 e 34 minutos de jogo, começou a desenhar o triunfo para a equipa de Dortmund, mas a Juventus viria a reduzir distâncias no marcador com um tento de Del Piero, que entrou para alinhar na segunda parte do desafio, aos 65 minutos. Contudo, o Borussia de Dortmund deu a machadada final nas aspirações italianas por volta do minuto 71, com um golo memorável de Lars Ricken (que havia entrado no minuto anterior!), que ainda hoje é considerado um dos melhores de sempre da competição.

De facto, um resultado tremendo para a equipa treinada por Ottmar Hitzfeld que assim atingia o ponto mais alto de uma grande era para o clube e que também ficou marcada pelas conquistas das Bundesligas 1994/1995 e 1995/1996. Todavia, já na altura as notícias de jogadores de saída do clube eram muitas e a partir dali a estrelinha do conjunto foi definhando. Por seu turno, e apesar da final perdida, a Juventus atravessava um período de grande fulgor, que viria a ser comprovado na temporada seguinte com a chegada a mais uma final da Liga dos Campeões, frente ao Real Madrid (3 presenças consecutivas em finais da Liga Milionária, extraordinário).

Um jogo marcante que envolveu duas equipas que ainda hoje são recordadas pela sua enorme valia e que figuraram claramente entre os conjuntos que mais impacto tiveram no futebol europeu dos anos 90.

Diego Rubio e a importância do golo

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a norte de alvalade

Diego Rubio tem estado em foco no regresso a Alvalade. Hoje, frente à Oliveirense, marcou o seu 10.º golo em 13 jogos, perfazendo uma média de 0,77 golos por jogo e detendo uma muito interessante percentagem dos golos da equipa (20%), se atendermos a que começou apenas a jogar já com 24 jornadas decorridas. Nessa altura, quando começou a jogar, a equipa B do Sporting registava 30 golos marcados. Agora, já com mais 11 jogos, a equipa marcou mais 17 golos, mais de 60% dos quais pertencem a Rubio (os tais 10 golos).

Para se perceber melhor a importância que a entrada de Rubio teve na equipa, e certamente na melhoria da sua posição na tabela classificativa – ao subir do 12.º para 4.º lugar (à condição) depois do triunfo de hoje -, fica a constatação de que todos os golos que marcou, excepto um (o primeiro com o Farense), foram decisivos para pontuar. Sem eles o Sporting não teria empatado ou ganho os 24 pontos que conseguiu. Estes pontos, alcançados nas últimas 11 jornadas, representam mais de 40% da totalidade dos 57 pontos conseguidos nas 35 jornadas.

Rúbio marcou um golo decisivo para a vitória com o Sta. Clara (1-0), Olhanense (2-1), Beira-Mar (3-2), Portimonense (1-0), Ac. Viseu (2-1) e dois no jogo com o Tondela (4-3). Igualmente importantes para alcançar o ponto correspondente ao empate foram os golos marcados ao Chaves (1-1), ao Trofense (1-1) e à Oliveirense (1-2). Como é evidente, não sabemos o que seria a actual classificação do Sporting B na II Liga sem Rubio, uma vez que alguém jogaria no seu lugar. Mas estes números indiciam certamente uma alteração do comportamento da equipa que dificilmente se poderá dissociar da presença do chileno.

Pode até considerar-se que é pouco provável que este momento de elevada eficácia do avançado sul-americano de 21 anos se possa manter nos níveis actuais, mas não deixa de ser uma importante chamada de atenção para a necessária ponderação a ser feita quando chegar o tempo de planear a próxima época. Isto quando um dos assuntos mais comentados é o interesse em jogadores como Hassan (Rio Ave) e o elevado salário do jogador chileno.

Como exemplo aleatório e como auxilio à tal ponderação, será que o custo de aquisição do passe de Cissé e o seu ordenado versus a sua produção não são muito mais caros para o clube?

Um Jardim que vale ouro

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internacional cabeçalho

Após um começo de época decerto conturbado, o AS Mónaco conseguiu, finalmente, adquirir estabilidade no que concerne a resultados e a exibições. Neste momento, os monegascos seguem em zona europeia na Ligue 1 e com menos um jogo que os rivais, estando no quarto posto e a quatro pontos do terceiro lugar, tendo recentemente carimbado o passaporte para os quartos de final da Liga dos Campeões. Grande parte deste sucesso deve-se ao português Leonardo Jardim.

Quando o treinador luso chegou ao principado, certamente não estava a contar perder duas das principais peças da equipa, até porque era de esperar que o projeto de investimento monetário que já tinha sido realizado na temporada 2013/14 fosse para continuar no presente ano. Porém, tal não sucedeu. A venda de James Rodríguez para o Real Madrid e o empréstimo de Falcao ao Manchester United provam-no. Aliado a isto, devido a questões de cariz externo o clube não investiu na compra de atletas de topo mundial, optando antes pelo empréstimo de jovens jogadores. O Mónaco procedeu, então, à aquisição dos passes do defesa-central Abdennour e do médio-defensivo Bakayoko, assegurando o empréstimo de Wallace e Bernardo Silva (que foi posteriormente adquirido em definitivo, por 15 milhões de euros).

Assim, previa-se uma tarefa nada fácil para Leonardo Jardim conseguir manter este emblema no cimo do futebol francês. Depois de um mau começo, no qual levou algum tempo a conseguir incutir as suas ideias de jogo aos jogadores, Jardim vê agora o conjunto monegasco a cumprir os seus ideais em campo. O Mónaco é uma equipa que opta pela filosofia de que “a defesa é o melhor ataque”, sendo atualmente uma das que melhor defende na Europa e o clube da Liga Francesa com menos golos sofridos.

A equipa alia à segurança concedida pelo guarda-redes croata Subašić, um conjunto defensivo que prima pelo entrosamento entre a experiência que jogadores como o português Ricardo Carvalho ou Raggi e até mesmo Abdennour transmitem, com o carisma jovem e talento de outros como Fabinho, Wallace ou Kurzawa, formando assim uma autêntica “parede de betão” em frente à sua baliza.

No meio-campo, João Moutinho é, decerto, o jogador mais cotado. E o português tem feito por isso na presente época. O ex- Porto funciona como um autêntico maestro na orquestra de Leonardo Jardim, manobrando a equipa ofensiva e defensivamente, gerindo os tempos de jogo e pautando-o com toda a sua qualidade técnica e inteligência. Jérémy Toulalan, com toda a sua experiência e conhecimento tático e Kondogbia, jovem irreverente e com uma capacidade física fantástica para aguentar o meio-campo defensivo, providenciam uma maior consistência tática ao emblema monegasco.

Onze anos depois, o Mónaco está nos quartos da Champions Fonte: Facebook do AS Mónaco
Onze anos depois, o Mónaco está nos quartos da Champions
Fonte: Facebook do AS Mónaco

Sendo certo que a sua principal qualidade é defender, o AS Mónaco não descura o ataque. O seu primordial foco ofensivo passa pelo contra-ataque, no qual a velocidade e virtuosismo técnico de jogadores como Martial (que está a fazer uma excelente temporada), Ferreira-Carrasco, Bernardo Silva e Nabil Dirar são um perfeito complemento ao instinto goleador do búlgaro Dimitar Berbatov.

A recente passagem do clube aos quartos de final da Liga dos Campeões é de um mérito tremendo, não apenas dos jogadores mas, também, em grande parte do treinador luso. Após uma vitória inesperada por 3-1 em Londres, face ao Arsenal, os monegascos entraram para a segunda mão com a vantagem da eliminatória e de jogar em casa. Fazendo o que melhor sabe, o conjunto de Jardim defendeu o resultado trazido de Inglaterra. No final do encontro, que foi cheio de sofrimento para as hostes rouges et blancs, o resultado ficou em 2-0 para os londrinos, mas a vantagem de golos marcados fora de portas fez a eliminatória sorrir à equipa do Stade Louis II. Onze anos depois, os vice-campeões europeus de 2004 voltam a estar presente nos “quartos” da liga milionária.

O Mónaco é, assim, um emblema afirmado nos ideais do seu treinador, com uma tremenda segurança na linha defensiva, aliada a um espírito de sacrifício combativo, que faz o melhor uso dos seus venenosos contra-ataques. Uma equipa sem grandes “estrelas”, mas que vale pelo seu todo, fazendo do seu conjunto a sua principal arma.

Leonardo Jardim, técnico que faz da sua atitude, compostura e sabedoria as suas principais forças, está a executar este excelente trabalho no seu primeiro ano ao leme de um Mónaco que teve que repensar a sua estratégia financeira da época passada para esta. Se o português tem conseguido estes feitos, o que poderia alcançar se tivesse os recursos financeiros para transferências de que o emblema monegasco dispunha na temporada anterior? Certamente que tentaria atingir outras metas e objetivos ainda mais promissores, talvez até a conquista do campeonato francês.

Foto de Capa: Facebook do AS Mónaco

Top 10 – Jogadores marcantes no Sporting

[tps_title]10º Peter Schmeichel[/tps_title]

Fonte: Facebook Peter Schmeichel
Fonte: Facebook Peter Schmeichel

Já aqui escrevi sobre ele na rubrica “Jogadores Que Admiro”. Um guarda redes que já tinha sido campeão europeu de seleções e de clubes e que chega a Portugal para jogar num clube que não era campeão há dezoito anos. Foi campeão logo na primeira época, com um estilo sempre agressivo, quer com os seus colegas, quer com os seus adversários. Já era assim no Manchester United e assim continuou no nosso país. Um monstro nas balizas, com grande porte físico, excelentes reflexos e uma mentalidade fantástica. Penso que, até agora, nunca vi um guarda redes melhor que ele nos relvados portugueses e está no meu top 5 entre os guardiões internacionais que já vi jogar.

UFC 185 – A noite dos novos reinados

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Por vezes parece que quanto mais improvável é algo, mais provável isso se torna. Para a imprensa, para os adeptos, para a quase totalidade dos fãs de UFC, Rafael dos Anjos nunca teve hipótese contra um Anthony Pettis, que iria passear, enquanto esperava pelo combate “a sério” com Khabib Nurmagomedov. A realidade é que Dos Anjos atropelou (isso mesmo, atropelou) Pettis e, com ele, toda a categoria de peso Leve.

O cartaz principal do UFC 185 presenteou-nos com grandes combates. O primeiro teve como protagonistas Chris Cariaso, antigo pretendente ao título de Flyweight, e Henry Cejudo, medalha de ouro em Wrestling nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, e invicto na carreira profissional de MMA. Apesar da maior experiência de Cariaso, Cejudo esteve sempre por cima da luta, mostrando-se superior não apenas no que ao wrestling diz respeito, mas também no jogo em pé, mais propriamente na capacidade de striking. Cariaso nunca conseguiu assumir o controlo do combate contra um Cejudo agressivo e com vontade de levar a luta ao adversário, pelo que a vitória por unanimidade (40-27) é mais do que justa. Se Cejudo, que já demonstrou ter problemas em atingir o peso necessário para combater nesta categoria, conseguir acertar com a balança, é muito provável que venha a ter um combate pelo título de Demetrious Johnson em 2015.

A luta entre Roy Nelson e Alistair Overeem seguiu-se e, ao contrário daquilo que era esperado por muitos, não terminou por K.O. Isto deve-se, provavelmente, muito ao trabalho do holandês Overeem, nono no ranking de pesos pesados, que mudou de campo de treino e, logicamente, de treinador, sendo este, agora, Greg Jackson, o treinador de lutadores como, por exemplo, Jon Jones, campeão da categoria Light Heavyweight e o actual melhor lutador pound-for-pound. A influência de Jackson revelou-se na luta: Overeem deixou de ser o lutador que corria riscos desnecessários em busca de K.O. para passar a adoptar uma postura mais calculista e de controlo dentro do octógono. Os pontapés oblíquos ao joelho e os pontapés ao corpo foram algumas das armas que “Reem” usou, para além de um bom trabalho de mãos, para ir desgastando Nelson que só no final do combate causou real dano e sensação de perigo ao holandês. Apesar de tudo, o americano Roy Nelson mostrou, como já havia feito noutros combates, ter uma resistência à pancada acima do normal. Overeem acabou mesmo por vencer o combate por unanimidade (30-27) e mostra ter uma nova vida dentro do octógono.

O terceiro combate da noite foi, também, um bocado contra a maré daquilo que era esperado. Johny Hendricks e Matt Brown tinham (e têm) todas as características para transformar este combate numa ode ao striking mas, conforme foi dito na antevisão feita pelo Bola na Rede ao evento, existia a possibilidade de Hendricks voltar às suas raízes e optar por utilizar o seu wrestling, primando assim por obter maior controlo da luta, procurando menos finalizar. De facto, Hendricks dominou Brown com derrubes atrás de derrubes, trabalhando mais no chão. Matt Brown nunca mostrou ter jogo para se opor a Hendricks a este nível, pelo que optou sempre por jogar em pé, salvo algumas tentativas, sem sucesso, de submissão no chão. Brown esteve sempre fora de pé num combate que, apesar de não ter sido bonito ou vistoso, acabou por ser uma ode, sim, mas aos aspectos técnicos do MMA. A vitória unânime (30-27) de Hendricks é incontestável e poderá servir de catapulta para um novo combate pelo título de Welterweight.

Joanna Jedrjczyk (na foto) tornou-se na nova campeã da categoria de Strawweight feminino após vencer Carla Esparza, sendo a primeira polaca a conquistar um titulo na UFC Fonte: UFC
Joanna Jedrjczyk (na foto) tornou-se na nova campeã da categoria de Strawweight feminino após vencer Carla Esparza, sendo a primeira polaca a conquistar um titulo na UFC
Fonte: UFC

Foi a partir do co-evento principal que as verdadeiras surpresas surgiram. A campeã Carla Esparza defendia o seu título contra a temível e invicta Joanna Jedrjczyk. Apesar do que diziam as casas de apostas, Joanna foi vista por muitos como a provável vencedora deste combate. Previa-se, portanto, um combate renhido e uma luta de estilos: o wrestling de Carla Esparza e o Muay Thai de Jedrjczyk. O que se passou foi, no mínimo, surpreendente. O combate começou com algum clima de teste mútuo. Esparza tentou o primeiro takedown, defendido pela polaca. E outro, novamente defendido. À terceira acabou por conseguir, mas Joanna rapidamente se recompôs. Esparza acaba por tentar outro takedown, novamente defendido. Entre tentativas de takedown, Joanna trabalhava o seu jogo em pé, criando claras situações de perigo com o seu striking. Ao final da primeira ronda era visível que Joanna estava por cima do combate.

No entanto, seria de esperar que a campeã mostrasse de que material é feita. A verdade é que nunca o fez. Joanna entrou agressiva na segunda ronda e com a mesma estratégia da primeira: defender as tentativas de derrube, atacar em pé. A forma como Joanna banalizou Esparza na sua especialidade, e mesmo no geral, é a verdadeira surpresa deste combate. Na segunda ronda, Esparza parecia mais uma lutadora amadora do que uma campeã. Joanna ia encurtando os espaços e castigando Esparza. Acabou por a atingir com um murro de direita cruzado que a abalou, seguido de uma cotovelada e uma sequência devastadora de socos que obrigou o árbitro a parar o combate. A incrível prestação de Joanna fez com que tudo parecesse fácil e valeu-lhe o título de Strawweight. A divisão tem um novo fôlego.

O combate só teve um sentido: o de Dos Anjos. Controlou o combate de início ao fim, vencendo o título por unanimidade Fonte: UFC
O combate só teve um sentido: o de Dos Anjos. Controlou o combate de início ao fim, vencendo o título por unanimidade
Fonte: UFC

A derradeira surpresa (ou não) da noite deu-se no último combate, em forma tanto de Rafael dos Anjos como de Anthony Pettis. O campeão, Pettis, entrou no combate com a promessa de que se tornaria num dos melhores pound-for-pound da UFC, que iria dominar a divisão, fazer história. Toda a promoção que o campeão teve gerou uma aura à sua volta que, em última análise, acabou por criar uma responsabilidade à qual este não conseguiu corresponder. A verdade é que o campeão, até à altura, teve apenas uma defesa de título desde que o conquistou, em Agosto de 2013.

Agora, todas as promos que se fizeram para Pettis parecem descabidas. Rafael dos Anjos esgueirou-se até ao combate do título – aparentemente todos se esqueceram de que, das últimas 9 lutas, Anjos apenas perdeu com Khabib Nurmagomedov, ganhando as restantes 8 de forma dominante. Dos Anjos entrou seguro e com vontade de dominar o combate, encurtando os espaços a Pettis desde início. Anjos procurava a luta, e não o contrário. A partir do primeiro derrube o combate foi todo de Dos Anjos. O cenário acabou por ser o mesmo em todas as rondas: o brasileiro a dar pouco espaço a Pettis, a desferir poderosos socos intercalados com takedowns, que acabava por aproveitar para controlar no chão, gerindo cada uma das suas pancadas e desgastando Pettis. Finalizadas as três primeiras rondas, estava à vista de todos que o combate era de Anjos. Pettis sabia que tinha que ditar o ritmo, tentar controlar o centro do octógono; sabia que finalizar era a única chance de vencer o combate. Nunca o fez. Muito por culpa de Dos Anjos, Pettis não conseguiu impor-se. Ia absorvendo os golpes do brasileiro mas pouco mais do que isso. Este último não correu riscos e procurou dominar também no último round, acabando por apostar muito em jogo de chão, gerindo bem o tempo. Terminada a ronda já se sabia o resultado: Dos Anjos tornou o improvável provável e sagrou-se campeão de peso Leve, com todo o mérito. Esta foi, provavelmente, a sua melhor prestação dentro do octógono e uma das que vai marcar a UFC para anos vindouros.

Resta saber que futuro espera Dos Anjos: Khabib Nurmagomedov e Donald Cerrone vão defrontar-se em Maio, no UFC 187, sendo que o vencedor será o próximo adversário de Dos Anjos, desta vez pelo título. Alguém se atreve a fazer previsões?

Foto de Capa: UFC

O Sporting tem um plantel de galácticos?

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sexto violino

A menos que o leitor ande muito distraído, a resposta à pergunta lançada no título deste texto só pode ser “não”. Desse modo, como se explica a constante presença de Fredy Montero no banco? Mais grave ainda, como se explica que, nos últimos três jogos, o segundo melhor marcador do Sporting no campeonato, com 7 golos, nem sequer tenha entrado em campo? Esse facto só seria compreensível em virtude ou de uma extraordinária abundância de qualidade no plantel ou de uma lesão do jogador. Uma vez que a primeira hipótese não se verifica e que tudo indica que Montero não esteja condicionado, torna-se difícil perceber a sua ausência recente. Marco Silva está a desperdiçar um dos melhores jogadores de que o Sporting dispõe.

De seguida, apresentam-se cinco motivos que me levam a defender a titularidade deste jogador no apoio a Slimani:

1) MAIOR VOLUME OFENSIVO: em 90% dos jogos em casa e em grande parte dos jogos fora justifica-se que o Sporting retire um elemento do meio-campo para tentar sobrecarregar a baliza contrária. Esta época, o clube raramente faz golos cedo e anda constantemente “com o credo na boca” para conseguir marcar aos adversários. Uma vez que a defesa tem sido tudo menos sólida, os leões já se viram inúmeras vezes a ter de correr atrás do prejuízo e, nos jogos contra Paços de Ferreira, Belenenses (em casa e fora) e Moreirense não conseguiram reverter completamente a desvantagem inicial.

Ora, se assumirmos que, contra adversários inferiores, o mais difícil é fazer o primeiro golo, faz sentido promover um “assalto” à baliza contrária desde o apito inicial até se chegar ao 1-0, de forma a poder depois gerir com bola, procurando calmamente o segundo golo e obrigando o adversário a abrir-se e a abandonar a sua estratégia de “jogar com o relógio”. O excesso de jogadores no meio-campo não será alheio ao facto de o Sporting dar constantemente uma parte de avanço aos adversários. É verdade que colocar mais avançados em campo não significa necessariamente fazer mais golos, uma vez que a dinâmica da equipa também importa. Mas Montero e Slimani são perfeitamente compatíveis e, mais do que isso, a presença de ambos no onze é benéfica.

2) MONTERO E SLIMANI COMPLETAM-SE, A EQUIPA MELHORA: Não é preciso ver muitos jogos do Sporting para concluir que o colombiano e o argelino são futebolistas completamente diferentes. O primeiro pode funcionar como construtor, enquanto o segundo é sobretudo um finalizador. O “problema” de Montero foi ter iniciado a sua carreira no Sporting com números “jardélicos”. 13 golos em 10 jogos é obra, e os adeptos leoninos ficaram mal habituados. Pior: na minha opinião, essa óptima mas irrepetível fase de El Avioncito levou a que muitos Sportinguistas tenham analisado de forma errada o jogador que ele é e o que pode e não pode oferecer à equipa.

Fredy Montero nunca será um ponta-de-lança puro, um goleador, mas é perfeito para jogar no acompanhamento a um homem de área. Embora menos repentista e definitivamente menos artista, encontro-lhe algumas semelhanças com Matías Fernández (um futebolista de encher o olho que, infelizmente, chegou ao Sporting na pior fase da História do clube) ao nível da visão de jogo, do último passe e da capacidade de jogar entre linhas e abrir espaços para os colegas. Deste modo, o Sporting iria deixar de estar dependente das bolas despejadas para a área pelos extremos, numa procura desesperada de Slimani (mesmo quando ele não está lá), e passaria a poder variar entre o jogo lateral e o jogo interior. O resultado seria uma equipa com uma maior variedade de recursos e, portanto, mais imprevisível e difícil de anular.

slimani montero
Contra a maioria das equipas portuguesas, justifica-se colocar Montero no apoio a Slimani. O Sporting não pode ter medo de o fazer

3) MENOS PRESSÃO SOBRE O JOGADOR: ao verem Montero como ponta-de-lança puro, os adeptos do Sporting esperam sempre que ele faça golos. Mas, como o ex-Millonarios não é nem nunca foi um homem de área – falta-lhe capacidade física, melhor jogo aéreo, melhor capacidade de desmarcação e mais frieza na hora de finalizar – é natural que não se sinta seguro nesse papel. O período de vários meses sem marcar um único golo terá sido certamente fruto da ansiedade de cumprir uma função que não pode ser a sua. Jogando no apoio a Slimani, Montero não só passaria finalmente a alinhar na sua posição natural como se libertaria da pressão de ter de fazer o gosto ao pé em todas as partidas. Como tal, em virtude dessa descompressão, não seria de estranhar que o seu rendimento em frente às balizas subisse. E o de Slimani, mais acompanhado, também.

4) QUALIDADE NAS BOLAS PARADAS: Com a melhoria das condições de treino e da vertente táctica, hoje em dia não é surpresa que uma equipa humilde possa estragar os planos de um clube grande. Como tal, as bolas paradas – momento completamente à parte do jogo – têm vindo a desempenhar um papel cada vez mais importante na decisão de certos resultados. O Sporting, contudo, parece ainda não se ter apercebido disto, já que, época após época, os plantéis não incluem nenhum especialista em cantos e livres. Há uns anos, chegou-se ao cúmulo de colocar Polga a bater os penáltis (!) e Abel os livres directos (!!).

Nesta temporada Jéfferson continua sem justificar a alcunha de “Roberto Carlos da Amoreira”, Tanaka fez um golão em Braga (cá está um exemplo de 2 pontos que fugiriam se não fossem os livres…) mas nunca mais bateu um lance do género, e os pontapés de Nani só passam relativamente perto da baliza devido às inegáveis qualidades técnicas do jogador. Contudo, custa-me perceber como é que um futebolista que nunca deve ter feito um golo de livre na carreira seja designado para o tentar agora que está no Sporting. Fredy Montero, por seu turno, tem algum historial na marcação bem-sucedida de livres directos (como contra o Dallas, o Toronto e o Portland, ao serviço do Seattle, ou frente ao Santa Fé já pelo Millonarios, num jogo que tive a oportunidade de ver porque já se falava na vinda deste jogador para Alvalade).

5) MAIS REMATES DE LONGE: a capacidade de Montero nos livres directos estende-se aos lances de bola corrida. A boa meia-distância do colombiano deve ser tida em conta e, no Sporting, já garantiu golos à Fiorentina, ao Paços de Ferreira e ao V. Setúbal, para além do “tiro” frente aos LA Galaxy quando jogava nos EUA e que merece ser visto. Recuando um pouco no terreno, o 17 leonino não só ficaria mais liberto da marcação dos centrais, preocupados com Slimani, como poderia dispor de mais tempo e espaço para tentar o pontapé de longe. É que, no actual meio-campo do Sporting, conta-se pelos dedos de uma mão o número de remates de longe por época…

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William e João Mário são suficientes para aguentar o meio-campo do Sporting. Enquanto equipa grande, os leões não podem recear jogar ao ataque

Em suma, onde encaixaria Montero? Sendo ele um jogador diferente de João Mário e de André Martins, não se lhe pode exigir que desempenhe exactamente o mesmo papel dos médios leoninos. A sua convivência com Slimani no onze teria o objectivo de munir a equipa de mais opções atacantes, tornando-a mais agressiva na frente. Não se espere, pois, que o colombiano se destaque na recuperação defensiva. Este texto assenta na ideia de que, contra a maioria das equipas, William e João Mário são suficientes para desempenhar as funções do meio-campo, com Montero a jogar mais entre linhas. No papel, o sistema que defendo estaria mais próximo do 4-4-2 do que do 4-3-3, um pouco à semelhança do que acontece no Benfica com Jonas e Lima.

Fredy Montero é ainda hoje vítima da óptima fase por que passou quando chegou ao Sporting, e que levou a que alguns adeptos pensassem que o clube tinha contratado um novo Jardel. Montero não podia estar mais longe desse perfil, mas não é isso que faz dele um jogador dispensável. Longe disso, aliás. Em forma, o colombiano pode tornar-se facilmente num dos melhores jogadores em Portugal. Para tal, contudo, é preciso que o coloquem na posição certa. A equipa técnica tem de conhecer os jogadores que tem. Há uns anos, o Sporting teve Matías Fernández e desperdiçou-o. Que a História não se repita agora com Fredy Montero.

 

Fotos: Sporting Clube de Portugal

Olheiro BnR: Matheus Pereira

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Uma das melhores notícias que os sportinguistas receberam nos tempos mais recentes foi a renovação de contrato com Matheus Pereira, futebolista que, lembre-se, se encontrava sem competir desde o início da temporada. Isto precisamente em função de não chegar a acordo para prolongar o seu vínculo, algo que, enfim, sucedeu há pouco tempo, com o brasileiro a ficar ligado ao emblema de Alvalade até 2020 e logo com cláusula de rescisão de 60 milhões de euros.

Aliás, mal o jogador prolongou o contrato, foi mesmo com grande naturalidade que foi imediatamente integrado na equipa B verde-e-branca, tendo marcado logo um golo na estreia, diante do Tondela (4-3), e procurando agora ter um impacto nesta fase final da Segunda Liga, que o poderá, inclusivamente, transformar num reforço efectivo para a equipa principal do Sporting em 2015/16.

Em Alcochete desde os Iniciados

Matheus Felipe Costa Pereira nasceu a 5 de Maio de 1996 em Belo Horizonte, Brasil, mas cedo se mudou para Portugal, onde começou a sua carreira no modesto Trafaria – isto antes de se mudar para o Sporting, em 2010/11, representando o emblema verde-e-branco desde então.

Em Alcochete, valha a verdade, foi sempre visto como um prodígio e o maior talento da sua geração, sendo então com naturalidade que, em 2013/14, mesmo apenas no primeiro ano enquanto júnior, o jovem brasileiro se estreou no futebol sénior, somando quatro jogos para a equipa secundária dos leões, então orientada por Abel Ferreira.

Evolução travada pelo longo processo de renovação

2014/15, então, prometia ser a temporada da afirmação absoluta de Matheus Pereira no Sporting B, mas esse ensejo acabou atrasado pelo arrastar do processo de renovação do brasileiro, de quem, recorde-se, até se dizia que tinha já um pré-acordo para rumar ao Mónaco no próximo Verão.

A verdade, ainda assim, é que o médio-ofensivo acabou por prolongar mesmo o seu vínculo com os leões e ser finalmente reintegrado na equipa secundária, agora orientada por João de Deus, na qual soma neste momento dois jogos e um golo.

Matheus Pereira renovou com o Sporting CP até 2020 Fonte: Sporting Clube de Portugal
Matheus Pereira renovou com o Sporting CP até 2020
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Todo o talento para singrar ao mais alto-nível

Com apenas 18 anos, e ainda habilitado a jogar nos juniores do Sporting, Matheus Pereira é, da geração de 1996, o jogador em que a estrutura verde-e-branca depositará mais esperanças, ou não estivesse perante um futebolista que apresenta todas as qualidades para singrar ao mais alto nível.

Afinal, o jovem craque apresenta uma superior qualidade técnica e de passe (seja a curta ou longa distância), é fortíssimo no drible, imprevisível, tem excelente visão de jogo e é ainda um finalizador muito efectivo, sendo especialmente perigoso em lances de bola parada. Para além disso, e talvez por ter rumado à Europa muito cedo, Matheus Pereira consegue ainda juntar a esse lado mais “brasileiro” do seu futebol algumas características que serão fulcrais para se impor no Velho Continente. São exemplos disso a sua generosidade na recuperação defensiva e a raça que impõe sempre no seu futebol.

Extremo-direito ou “dez”

Explosivo, fortíssimo em lances de um contra um e com uma extraordinária capacidade para fazer diagonais da direita para o meio com o intuito de usar o seu fantástico pé esquerdo, parece ser a extremo-direito que Matheus Pereira terá condições de atingir a plenitude das suas capacidades, podendo desempenhá-las de forma híbrida tanto enquanto falso-ala, recorrendo muitas vezes aos referidos movimentos interiores, como também no sentido mais puro do termo, ganhando várias vezes a linha para aplicar os seus venenosos cruzamentos.

Ainda assim, é inegável que o jovem craque brasileiro também se sentirá muito bem a jogar na posição “dez”, onde perderá algum impacto no aspecto mais explosivo do seu futebol, mas onde sobressairá a sua enorme inteligência e percepção do jogo. Jogar nesta posição até o aproximará mais vezes de zonas de tiro, onde poderá aplicar o seu fortíssimo e colocadíssimo pontapé.

Certo, de qualquer maneira, é que Matheus Pereira apresenta todas as características para se impor na alta roda do futebol europeu, não sendo de descartar inclusivamente a integração, aos poucos, do jovem de 18 anos na equipa principal dos leões já a partir da próxima temporada. Afinal, se há coisa de que o conjunto orientado por Marco Silva necessita em fases adiantadas é criatividade e capacidade de desequilíbrio, características que se vão acentuar com a previsível saída de Nani e que poderão ser compensadas com o talento da precoce promessa canarinha.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Quando o futebol abafa o resto

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raçaquerer

No último sábado, o Estádio da Luz encheu para ver mais um jogo na longa caminhada para o título. Naquela tarde soalheira de Inverno, juntaram-se famílias, fizeram-se romarias até à capital, vindas de todos os pontos do país, na esperança de que o regresso a casa decorresse em clima de festa. E como é bonita a Catedral com todas as bancadas preenchidas… Festejaram-se dois golos, um em cada parte, reveladores da qualidade do adversário, mas também do poder ofensivo do Benfica, que, em casa, tem construído, para deleite dos adeptos, várias goleadas. Quase tão importante como ganhar era jogar bem. E foi isso que aconteceu. Mais uma vez a equipa mostrou a sua solidez defensiva.

Pouca gente diria no início da época, e perante a perda de Garay e Siqueira, que o registo de golos sofridos pudesse ser melhorado. Para isso muito contribuiu a chegada de Júlio César, cuja contratação eu mesmo critiquei. Felizmente estava errado e agora sinto que a baliza não podia estar em melhores mãos. Mas o Benfica é claramente uma equipa montada para marcar golos. Veja-se a dinâmica que os laterais dão ao ataque. Maxi e Eliseu estão permanentemente a apoiar Gaitán e Salvio. Com quatro extremos, as triangulações são constantes e baralham os defesas adversários.

Mas também o contra ataque está muito bem trabalhado. Jonas e Lima seguram a bola de costas ainda dentro do meio campo defensivo e depois lançam o passe em profundidade nas alas por onde entram os médios criativos. Contra o Braga, os encarnados fizeram 21 remates, número que ainda não tinha sido atingido nesta temporada. Muitos fizeram levantar os adeptos da cadeira para depois darem lugar a rostos de frustração pelo facto de a bola não ter entrado. É por isto que o futebol é tão amado e respeitado: porque cria ansiedade quando a bola se aproxima das balizas, porque faz esquecer os problemas pelo menos durante hora e meia, porque é o pretexto ideal para unir a família ou os amigos. Então quando se fala de um jogo entre o 1º e o 4º classificados a um sábado às cinco da tarde, torna-se quase irresistível.

Adeptos de todo o país fazem centenas de quilómetros até à Luz Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Adeptos de todo o país fazem centenas de quilómetros até à Luz
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica 

Se há situações em que gosto de estar totalmente errado, é naquelas em que vaticino o insucesso de um jogador e depois esse atleta consegue surpreender e ficar no onze inicial. Foi o que aconteceu com Pizzi. Poderia ter sido apenas mais um dos muitos casos de jogadores portugueses (Ivan Cavaleiro, Bernardo Silva, Nélson Oliveira, João Cancelo, Bebé, André Gomes) ou estrangeiros (como Djuricic, que na semana passada concedeu uma entrevista ao jornal Record em que acusava Jorge Jesus de não ter acreditado no seu valor) que acabaram por ser emprestados, nalguns casos bem de modo a ganharem ritmo competitivo, ou mesmo vendidos. Pizzi esteve em Espanha, voltou, Jorge Jesus acreditou que poderia estar ali uma razoável alternativa para colmatar a saída de Enzo, mas nos primeiros jogos a aposta parecia estar condenada ao fracasso.

No entanto, com o passar dos jogos, e também devido à inexplicável queda de forma de Talisca, o transmontano foi ganhando conhecimentos táticos, que o treinador tanto valoriza, foi melhorando a organização dos ataques e tem vindo a melhorar também no plano defensivo, com inúmeras recuperações de bola. É justo dizer-se que atrás de si tem contado com a preciosa ajuda de Samaris, que tem vindo a melhorar significativamente. Não tenho dúvidas de que na próxima época JJ o vá transformar noutro Javi ou Matic. O potencial está lá.

Quem ainda tem dúvidas sobre qual é a equipa que neste momento melhor futebol pratica em Portugal tem um de dois problemas: ou não tem visto jogos nos últimos três meses ou então está amarrado por um pretensiosismo clubista que lhe distorce a visão. Acho curioso que os mesmos indivíduos que se apressam a apontar os erros de arbitragem que favorecem o Benfica tenham agora mantido o silêncio perante dois penáltis por marcar em Arouca a favor dos encarnados e mais dois contra o Braga. Agora, enquanto vão assistindo, com grandes doses de tédio, às exibições fraquinhas das suas equipas, entretêm-se a contabilizar os pontos que o Benfica teria a menos se tivesse acontecido isto e aquilo.

O que vale é que se conjuga tudo no modo condicional e não no indicativo. A realidade é que o glorioso está no melhor momento da época, a jogar um futebol vistoso, rápido, criativo, que alguns jogadores querem parar de forma agressiva: daí o elevado número de cartões vermelhos que são mostrados aos nossos adversários, a maioria, convém dizer isto, para evaporar mais umas acusações, quando o resultado já lhes é desfavorável. Entretanto, os bilhetes disponíveis para a deslocação a Vila do Conde já voaram. Já mal se ouvem as lamúrias do costume na estrada rumo ao título.

Escolha-se o amor

internacional cabeçalho

Nenhum mortal conhecerá o sentido da vida, e se o conhecer das duas uma: ou tê-lo-á bem escondido ou o divulgou para um número restrito de pessoas que não passaram a mensagem ao resto do mundo. Por medo, posso especular. É que, caso o descobríssemos, provavelmente não nos entregaríamos à luta diária de nos vermos (ainda) mais felizes e de construírmos um futuro (ainda mais) risonho, talvez não nos afectassem imagens de pessoas menos afortunadas que nós, nem nos motivariam as notícias que falam do sucesso de gente que partira do mesmo patamar que o nosso. Se fôssemos “spoilados” relativamente ao sentido da vida, talvez não estivéssemos tão gratos pela vida que levamos, e talvez não lutássemos tanto para ter algo que ainda não temos por achar que não valia a pena.

A garra, o afinco e a determinação dos outros deixaria de ser uma inspiração. E talvez não estivéssemos esperançosos em converter o “impossível” num acontecimento improvável. Livros, filmes, músicas e outras demonstrações da vida real deixariam de criar a ilusão de que podemos chegar onde quisermos caso tenhamos a persistência de acreditar nos sonhos que fomos criando ao longo da nossa vida.

Provavelmente deixaria de haver amor. Não só o maior combustível do ânimo, da persistência, da luta por atingir o inatingível como também “o” factor imprescindível nos feitos heróicos que foram conseguidos ao longo da história, desde a Batalha de Aljubarrota à Revolução dos Cravos. O amor à pátria prevaleceu, e histórias destas nunca serão contadas nem realçadas em demasia. Histórias de adversidades vencidas e impossibilidades desfeitas que nos inspiram a confiar no amor.

Elas continuam a existir. Seja qual for o ramo em que estejamos. O desporto, sem excepção. Esta semana foi rica em histórias destas. Do amor (com toda a garra, determinação e querer que lhe estão adjacentes) à camisola e à glória a sobrepôr-se e a ridicularizar aquilo que é tido como impossível.

Só assim se explica que uma equipa como o Schalke 04 (5ª classificada na Liga Alemã e com poucos recursos comparativamente ao seu adversário), perdida a primeira mão da eliminatória da Liga dos Campeões, em casa, por 2-0, para o Real Madrid, possa ter ido ao reduto do campeão europeu vencer por 4-3. Huntelaar, Meyer, Fuchs e companhia não desanimaram e enfrentaram as “improbabilidades”, os grandes nomes que contra eles jogavam, e fizeram sofrer os merengues. Não se apuraram para os quartos-de-final, é certo, mas noutras circunstâncias, provavelmente, nem se atreveriam a discutir o jogo. Quando o fizeram, venceram-no

O amor à camisola e à glória também é a única explicação que vejo como plausível para a exibição do PSG em Londres. Os franceses chegaram à Velha Albion depois de uma igualdade a uma bola em Paris. Entraram à procura de um golo que desfizesse a desvantagem provocada pelo golo que o adversário apontara fora, mas foram sendo travados por um conjunto de adversidades: aos 30 minutos de jogo tinham o seu melhor jogador expulso, aos 83 estavam a perder por 1-0. A esperança parecia cair, as probabilidades de sucesso eram ínfimas, mas os jogadores agarraram-se a elas e conseguiram empatar e levar o jogo para prolongamento. Durante esta fase, a lógica ditaria que o cansaço de jogar contra mais um “consumisse” os franceses. As coisas começaram por correr mal, com um penalty consentido aos 96 minutos. As probabilidades voltavam a estar nas dízimas percentuais.

As lágrimas de alegria de Thiago Silva como ilustração da vitória da emoção sobre a razão Fonte: Facebook do PSG
As lágrimas de alegria de Thiago Silva como ilustração da vitória da emoção sobre a razão
Fonte: Facebook do PSG

Faltavam 14 minutos para acabar a eliminatória e os jogadores acusavam, no corpo, o desgaste da intensidade do jogo. Na mente, porém, em nome do amor à profissão e à glória, não lhes passava pela cabeça outra coisa que não ir à procura do golo que colocasse a equipa em vantagem e a apurasse para os quartos-de-final da Liga dos Campeões, esquecendo quaisquer adversidades pelas quais passassem… e assim conseguiram. 116 minutos. Thiago Silva cabeceia para o ar, a bola percorre parte da àrea e vai “morrer” nas redes de Thibaut Courtois. 2-2, o Paris Saint Germain estava pela primeira vez, quando menos se esperava, na frente da eliminatória. E assim ficou.

A paixão, a garra, a luta, a determinação prevaleceu sobre a lógica que muitas vezes nos desanima. Um feito heróico a demonstrar que vale a pena sonhar alto. E outro a mostrar que o que, como dizia um certo prémio nobel português, “o que importa é a viagem” e não o seu destino (ou a vida e o sentido dela).

Que vale a pena escolher-se o amor sobre a razão.

Foto de Capa: Facebook do PSG

FC Porto 1-0 Arouca: Sofrer para meter a sétima

eternamocidade

Não raras vezes escrevi no Bola na Rede que um campeonato nacional passa por muitos momentos, aos quais uma equipa como o FC Porto tem que se adaptar. Por vezes – sobretudo em jogos com um grau de exigência maior – o fato de gala é chamado ao relvado; noutras ocasiões – como no encontro desta noite – o fato macaco é o que melhor serve as exigências. Esta noite, e ao contrário do que aconteceu em alguns jogos deste campeonato (Boavista, Estoril ou Marítimo), o FC Porto soube vestir o fato macaco. Futebolisticamente falando, a equipa de Lopetegui conseguiu superar mais uma etapa no seu crescimento tático.

Mas vamos por partes: pressionado pela vitória do Benfica frente ao Sp. Braga na véspera, os azuis e brancos subiam ao relvado do Dragão com a necessidade de somar os três pontos. Do lado arouquense, a exigência era semelhante: depois dos triunfos de Académica e Vitória de Setúbal e dos deslizes de Penafiel, Gil Vicente e Boavista, a equipa comandada por Pedro Emanuel entrava no anfiteatro portista num perigoso 16.º e penúltimo lugar da tabela. Foi talvez por essa necessidade impreteriosa de somar uma vitória que FC Porto e Arouca entrarem de “peito feito” no jogo desta noite. Num jogo entre equipas com um nível tão distinto, esta disposição arouquense acabou por se revelar uma autêntica surpresa. Apesar de considerar que este Arouca é uma das equipas que melhor futebol pratica no campeonato e que, simultaneamente, dá quase sempre mais aos jogos do que aquilo que recebe, confesso que não estava à espera de um bloco tão subido por parte dos pupilos de Pedro Emanuel.

Também por isso surgiu o lance que acabaria por marcar todo o encontro. Aos 11 minutos, Fabiano Freitas fez uma falta sobre Rui Sampaio à entrada da área – quando este ia em situação iminente de perigo – que acabou por ser punida pelo árbitro Jorge Tavares com o cartão vermelho direto. Decisão justa do juiz da partida e o FC Porto a jogar com dez elementos com cerca de 80 minutos para jogar. Acredito que para a maioria dos cerca de 35 mil que estavam no Dragão esta noite, a expulsão de Fabiano fez pairar o fantasma da expulsão de Maicon no jogo da primeira volta contra o Boavista. Nesse encontro, a punição ao central portista foi castigo suficiente para que a armada portista não conseguisse chegar à vitória e tivesse desperdiçado dois pontos que por esta altura tanta falta lhe fazem.

O jogo de hoje marcou o regresso de Óliver à competição  Fonte: fcporto.pt
O jogo de hoje marcou o regresso de Óliver à competição
Fonte: fcporto.pt

Ainda assim, mesmo com dez elementos, a equipa azul e branca não entrou em “pânico tático”. Aliás, Lopetegui surpreendeu tudo e todos ao retirar Ricardo Pereira do onze, lançando o guarda-redes Helton. Invertendo a tendência normal nestas situações – que passa pela retirada de um avançado – o técnico espanhol decidiu não recuar demasiado o bloco. É caso para dizer que a ambição do treinador acabou por passar para os jogadores. E isto porque até ao intervalo, basicamente só deu FC Porto na partida. Mesmo jogando com menos um, a equipa portista decidiu partir para cima do adversário, criando constantes lances de perigo junta da baliza de Goicochea. Num desses lances, aos 26’, Ivan Balliu decidiu pontapear a cabeça de Quaresma dentro da área visitante, sem que uma evidente grande penalidade fosse assinalada pelo árbitro aveirense. Ainda assim, seis minutos depois, o FC Porto chegou à justa vantagem: Quaresma tirou Balliu do caminho e fez um cruzamento perfeito para a cabeça de Aboubakar, que não teve dificuldades em abrir o marcador. Ao intervalo, a vantagem justificava-se, pois, apesar da vantagem numérica, o Arouca nunca conseguiu nos primeiros 45 minutos assustar demasiado a defensiva portista.

No segundo tempo, tudo mudou: Lopetegui decidiu colocar Herrera do lado direito da defesa, recolocando Indi a jogar junto a Marcano no centro da defesa. Com estas alterações, Casemiro e Óliver tornaram-se os únicos médios portistas. Por isso, não foi de estranhar que o aumento da pressão do Arouca tenha acabado por criar problemas evidentes ao FC Porto. Com a intensidade do trio composto por Nuno Coelho, David Simão e Rui Sampaio, a equipa portista foi cada vez mais deixando o Arouca à vontade na partida e sempre com o fantasma do empate a pairar. Apesar de a equipa de Pedro Emanuel só ter criado uma oportunidade digna de registo (num lance precedido de fora de jogo), a excelente atitude da equipa visitante foi claramente o sinal mais interessante de uma segunda parte em que o ritmo não foi muito intenso.

Quaresma fez a assistência para o golo de Aboubakar  Fonte: fcporto.pt
Quaresma fez a assistência para o golo de Aboubakar
Fonte: fcporto.pt

Até ao final da partida, e mesmo entre alguns sobressaltos, o FC Porto foi conseguindo, sobretudo depois das entradas de Rúben Neves e Tello, ter mais vezes a bola e, por conseguinte, ter mais controlo sobre o jogo. Contas feitas, a vitória desta noite permitiu manter a desvantagem pontual para o Benfica em apenas 4 pontos. Esta foi a sétima vitória seguida no campeonato e o sétimo jogo sem sofrer golos. Com dificuldade e nervosismo à mistura, assim vai o passo do dragão rumo ao objetivo que ainda persegue. Hoje, a sétima foi mais difícil de meter. Mas tal como disse no início, às vezes jogos destes também são precisos.

 

A Figura

Brahimi – O avançado argelino conseguiu dar ao FC Porto em muitas ocasiões aquilo que a equipa precisava: controlo sobre a bola, inteligência e sobretudo dinamismo. Depois de um excelente jogo frente ao Basileia, mais uma boa exibição esta noite.

 

O Fora-de-Jogo

Jorge Tavares – Este campeonato tem sido marcado por inúmeros lances que marcaram a classificação desta Liga. A exibição do árbitro aveirense esta noite foi simplesmente medíocre: a expulsão de Fabiano é justa, mas a grande penalidade de Balliu sobre Quaresma é evidente. Felizmente, acabou por não ter influência no resultado.

 

Foto de Capa: fcporto.pt