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O futebol é importante mas não é o mais importante das nossas vidas. Por isso, sempre gostei de atletas que, para além de uma inegável qualidade e inteligência dentro das quatro linhas, tivessem outras características singulares que os destacassem. Por isso, esta lista contém alguns casos de fidelidade aos clubes, e outros de dedicação a uma causa. Nem todos os jogadores que escolhi foram desportistas de top mundial, mas não há aqui nenhum que não me tenha marcado profundamente. Esta é a minha selecção dos 10 futebolistas que, de uma forma ou de outra, mais contribuíram para o desenvolvimento do meu gosto pelo desporto-rei. E, tão ou mais importante do que isso, alguns deles fizeram-me ver que é perfeitamente possível ser adepto de futebol e lutar pelas causas em que acreditamos. Agradeço-lhes por isso, e faço-lhes aqui a minha pequena homenagem.
[tps_title]10º Francesco Totti [/tps_title]

Um dos jogadores que mais marcaram a minha infância e adolescência. Quando muitos escolhiam caminhos mais fáceis e instantâneos para a glória, Totti manteve-se fiel à Roma, e isso é um exemplo para qualquer jovem. Consta que fora dos relvados não é muito eloquente, mas o facto é que dentro deles atingiu o topo. Com uma técnica soberba, tanto a nível de passe curto e longo, como de remate e livre directo, Totti lê muito bem o jogo, é imprevisível e tem uma boa capacidade para jogar entre linhas. Projectou o clube para um patamar superior e foi claramente um dos melhores do mundo da sua geração. Quando fui a Roma quis comprar uma camisola com o seu nome, mas tive um pequeno desgosto ao saber que a loja do clube estava fechada para férias.
[tps_title]9º Franz Beckenbauer[/tps_title]

O jogador mais velho desta lista e o único que não vi jogar. Mas consegui perceber muito do que se diz dele quando vi dois jogos completos do líbero alemão. Elegância, critério, simplicidade de processos, controlo de bola em progressão e capacidade de liderança, tudo a níveis estratosféricos. Gosto de jogadores inteligentes, e Beckenbauer provou que as suas qualidades nesse capítulo vão muito para além do futebol ao manter-se no cargo de presidente do Bayern de Munique durante 15 anos. Não admira que, apesar de a posição de líbero ter praticamente desaparecido, o Kaiser ainda hoje seja uma referência. Após ter sido eleito o quarto melhor desportista alemão do séc. XX, Beckenbauer disse que “enquanto praticante de uma modalidade colectiva, sinto-me um pouco desconfortável ao estar tão bem classificado em termos individuais”. A humildade e a noção da realidade ficam sempre bem, mesmo quando os prémios são totalmente merecidos.
[tps_title]8º Alberto Acosta[/tps_title]

A sua história no Sporting é quase um conto de fadas. De “velho” passou a “El Matador”, de “lento” passou a “lenda”. A contratação de um avançado de 32 anos praticamente sem experiência europeia tinha tudo para correr mal, e a verdade é que os seus primeiros meses no Sporting foram sofríveis. Sem surpresa, esteve para ser dispensado. Mas não foi, e o resto é História: golos com fartura, muita “manha” e sentido de oportunidade e um papel incontornável na conquista do campeonato de 1999/2000, quebrando um jejum de 18 anos. É um ídolo para todos os Sportinguistas.
[tps_title]7º Fernando Redondo[/tps_title]

Foi um dos primeiros futebolistas a conseguir cativar-me quando era mais novo. Aliando capacidade de desarme, qualidade técnica e visão de jogo, Redondo dinamizava o meio-campo do Real Madrid com uma serenidade e uma classe soberbas. Após a sua saída houve Makélélé, e depois disso o Real ficou órfão de um médio-defensivo de grande qualidade até à chegada de Xabi Alonso, quase uma década depois.
Esta é, aliás, a melhor prova de que os merengues erraram ao desprezar a posição de médio-defensivo e de que, caso o plantel não seja equilibrado, ter uma equipa de “galácticos” não chega para vencer. Se não fossem as lesões, tínhamos podido apreciar este fora-de-série até mais tarde. Redondo marcou uma era no Santiago Bernabéu de tal forma que, quando jogava no Milan, os adeptos blancos o receberam como um rei num jogo em Madrid entre as duas equipas.
Após um Manchester United-Real Madrid que os forasteiros venceram por 2-3 e em que Redondo encheu o campo, Alex Ferguson proferiu um desabafo que ficou mítico: “O que é que este jogador tem nos pés? Um íman?”. Penso que não é necessário dizer mais nada sobre a mestria de Fernando Redondo, “el principe de Madrid”.
[tps_title]6º Peter Schmeichel[/tps_title]

Fiquei incrédulo quando soube que o Sporting o tinha contratado, mas o gigante dinamarquês nem precisava de ter jogado no meu clube para figurar nesta lista. Nos poucos anos em que joguei futebol fi-lo sempre como guarda-redes, pelo que Peter Schmeichel desde cedo foi uma inspiração. A sua envergadura, as “zangas” com os defesas e a forma destemida como saía à bola para fazer “manchas” perfeitas, tudo isso é mítico.
Há uns anos, quando Cech, Buffon e Casillas eram os guarda-redes que estavam na ribalta, recordo-me de que perguntaram a Schmeichel numa entrevista quem era o guardião mais parecido com ele na actualidade. “Manuel Neuer” foi a resposta, na qual juntou muitos elogios ao alemão e o classificou como um dos melhores do mundo. Na altura era uma opinião contra-corrente, hoje é um facto indesmentível. Mais uma prova de como os melhores estão sempre um passo à frente.
[tps_title]5º Zinedine Zidane[/tps_title]

Esforcei-me por não tornar esta lista num antro de lugares-comuns, mas não podia excluir o grande Zizou. Embora as minhas limitações futebolísticas me tenham impedido de pôr a teoria em prática, com entrevistas dele aprendi várias coisas simples – como a necessidade de olhar à volta antes de receber o passe, de forma a já saber o que fazer quando a bola chega ao pé, ou que o facto de se jogar com os braços ligeiramente afastados do corpo não só permite um maior equilíbrio como dificulta a aproximação dos adversários e as suas tentativas de desarme. Zidane é um dos poucos casos em que a palavra “génio” é totalmente justificada. A sua classe, talento e sobriedade eram inigualáveis. Qualquer Xavi, Pirlo ou Iniesta é muito bom, mas não é Zizou. Este é o melhor elogio que se pode fazer ao franco-argelino.
[tps_title]4º Lilian Thuram[/tps_title]

Um lateral muito bom e um central de topo. Poucos jogadores já consagrados numa determinada posição derivam para outra e ainda conseguem fazer melhor. Mas Thuram fê-lo. Discreto, inteligente e uma autêntica parede, o francês melhorou com a idade e tornou-se quase intransponível. Foi Campeão do Mundo em 1998 (dois golos à Croácia, os únicos que marcou na selecção, e Bola de Bronze do torneio), mas o Mundial de 2006 que fez foi quase perfeito.
Numa geração que conta com Maldini, Nesta e Cannavaro, será sempre discutível se Thuram era o melhor. Mas é o meu preferido, também pela atitude fora de campo. Numa era em que os futebolistas vivem muitas vezes na futilidade, Thuram destaca-se pelas visões políticas progressistas: opôs-se a Sarkozy, apoiou o casamento gay e transformou-se num activista anti-racista, tendo já inclusive vindo falar à Fundação Gulbenkian.
Numa entrevista da altura da sua vinda a Portugal explicou que ia muitas vezes falar a escolas e, a propósito dos Descobrimentos e do racismo latente na sociedade ocidental, disse qualquer coisa como isto (cito de cor): “Se eu chegasse aqui à vossa sala e, depois de abrir a porta, dissesse que vos descobri a todos, vocês concordavam? Passa-se o mesmo com os Descobrimentos. Aquilo que nos contam é a História dos vencedores”. Faz falta mais gente com este espírito crítico no futebol.
[tps_title]3º Cristiano Lucarelli[/tps_title]

Quantas vezes se vêem jogadores de equipas pequenas a sagrarem-se os melhores marcadores de um campeonato, à frente de estrelas planetárias? Poucas, e cada vez menos. Mas aconteceu com Cristiano Lucarelli, avançado do Livorno, em 2004/2005, ano em que marcou 24 golos e ficou a um da Bota de Ouro Europeia. Alto, poderoso, oportuno e com bom jogo de cabeça, era um oásis de talento numa equipa modesta. Cheguei a enfrentar o “suplício” de assistir a jogos da sua equipa só para o ver jogar. E Lucarelli não desiludia.
Anti-fascista assumido, festejou um golo pelos sub-21 de Itália mostrando uma t-shirt de Che Guevara e, pese embora os seus números notáveis, depois desse episódio só voltou a vestir a camisola da selecção aos 30 anos. Fundador de um jornal na sua comunidade, Lucarelli preferiu continuar no seu Livorno a assinar um contrato milionário com um “tubarão” europeu. “Há jogadores que pagam um milhão de euros por um Ferrari ou um iate. Eu comprei uma camisola do Livorno”. Um exemplo dentro e fora de campo, e uma prova de como o futebol e as grandes causas não têm de andar separados.
[tps_title]2º Javier Zanetti [/tps_title]

Se Messi ganhar a Bola de Ouro então Javier Zanetti também merece, porque “com 40 anos parece que tem 20”. Foi assim que Mourinho reagiu em 2012 à provável atribuição do prémio de Melhor Jogador do Mundo ao atleta do Barcelona. Il capitano era versátil, dono de um imenso pulmão que parecia não mirrar com a idade, senhor de um controlo de bola fora-de-série e de uma inteligência que o tornava praticamente imune ao erro. Se não fosse a lesão que sofreu no ano passado, ainda podia estar a jogar.
Há uns anos convenceu o Inter e os colegas de equipa a financiar o Exército Zapatista Mexicano, escrevendo que acredita “num mundo melhor, não globalizado, enriquecido pelas diferenças culturais e pelos costumes dos povos. É por isso que apoio a vossa luta pela preservação das vossas raízes e ideais”.
Após tantos anos no Inter, muitos deles a jogar com futebolistas duvidosos ou em fim de carreira, Zanetti teve finalmente a glória que merecia. A sua cara de felicidade ao erguer o troféu da Liga dos Campeões, como mostra a fotografia acima, ficará para a eternidade. A carreira de um dos melhores laterais da História atingia finalmente o zénite.
[tps_title]1º Pedro Barbosa[/tps_title]

Não foi o melhor jogador do mundo, mas é o meu ídolo. O futebolista em que mais me revejo e aquele que mais tentei imitar nos intervalos da escola. Essa imagem de tal modo ficou, aliás, que ainda ontem um antigo colega meu de escola ficou sentado ao lado deste jogador num café e mandou-me uma foto a comprová-lo. Encantava-me a técnica de Pedro Barbosa (neste capítulo sim, foi dos melhores jogadores que vi por cá), a sua inteligência, os seus rasgos geniais que podiam resolver uma partida e o facto de jogar melhor parado do que muitos colegas seus a correr. Há uns tempos, dediquei-lhe este texto. Foi o capitão das melhores equipas do meu clube que vi jogar. “Comprava o Pedro só para o pôr a jogar no meu quintal”, disse Quinito um dia, e até Cristiano Ronaldo admitiu que admirava Barbosa quando era mais novo. Para mim, o antigo 8 do Sporting foi e será sempre um génio incompreendido, apenas claramente atrás de Ronaldo, Eusébio, Figo e Rui Costa.











