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Recordar é viver: AD Valongo campeão nacional de Hóquei em Patins

O desporto faz-se de histórias. Umas mais previsíveis que outras, é certo, mas são as que ninguém espera que se perpetuam mais tempo na memória. Hoje, recordamos a época 2013/2014 da I Divisão de Hóquei em Patins, que foi com certeza uma das mais emocionantes da história da competição, e contou com um campeão inesperado aos olhos de muitos.

Na temporada transata, a AD Valongo terminava o campeonato em quarto lugar, mas com um plantel recheado de talento. Com mais algum investimento, a formação de um dos concelhos do Porto pensava atacar os lugares cimeiros. Nas suas fileiras, os valonguenses contavam com Ângelo Girão na baliza e os jovens Telmo Pinto, Henrique Magalhães e Rafa a despontar ao mais alto nível.

A história de Cinderela começou com 13 vitórias em outros tantos jogos, apenas parados pela UD Oliveirense à 14.ª jornada. Depois de uma boa sequência de resultados, alguns tropeções levaram ao aproximar dos ditos “tubarões”, o FC Porto e o SL Benfica, que começaram a tornar a tarefa um pouco mais complicada.

Em 2013/14, foi um ano de sonho para a AD Valongo, que contava no seu plantel com muitos jovens talentos
Fonte: AD Valongo

As últimas cinco jornadas foram de deixar o coração nas mãos aos adeptos das três equipas. Empatados na tabela classificativa, todos esperavam um resultado negativo para ficarem mais perto do título. Os primeiros foram os encarnados, que perderam frente aos dragões, deixando os clubes portuenses na linha da frente para o título.

A um jogo de definir o campeão, um estrondo caiu na cidade de Valongo. Na deslocação ao pavilhão da Luz, os valonguenses saíram com uma derrota por 12 bolas a zero. De repente, o título parecia encaminhado para o FC Porto, que partia para o derradeiro encontro com três pontos de avanço para o segundo e o terceiro classificado.

O Pavilhão Municipal de Valongo encheu-se com a esperança de uma cidade em conquistar o primeiro grande título do clube. Só a vitória servia para tornar o sonho uma realidade, e tudo correu de feição para os pupilos de Paulo Pereira. O triunfo por 5-3 frente aos dragões colocou a cidade portuense em ebulição.

É, sem dúvida, uma das páginas mais bonitas do hóquei em patins português. Escrito com os patins e sticks, os valonguenses ficaram para sempre ligados a um feito que os amantes da modalidade não vão esquecer tão cedo.

Foto de capa: AD Valongo

Artigo revisto por Diogo Teixeira

Universo Paralelo: Cabeçada de Roberto traz Champions à Cidade Berço

Se em maio de 2006 o Vitória Sport Clube caiu para o “inferno” da Segunda Liga, o final de agosto de 2008 podia levar o conjunto vitoriano até ao “paraíso” da Champions. Depois de ter feito um brilharete na época 2007/2008 ao terminar o campeonato em terceiro lugar, que lhe permitiu jogar a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões, os comandados de Manuel Cajuda estavam a 90 minutos de escrever mais uma bonita página no Futebol Português. A missão era complicada à partida, mas a fé e crença vimaranense na passagem histórica à fase de grupos faria toda a diferença em FC Basileia.

Após o nulo na primeira mão no D. Afonso Henriques, o Vitória tinha forçosamente de marcar para pelo menos ter a vantagem dos golos fora no final da eliminatória contra os suíços. O treinador português era o porta-voz do otimismo e confiança de que no final do encontro seriam os visitantes a celebrar a ida à prova milionária, embora houvesse alguma contenção devido ao adversário mais habituado a estas andanças e que ia certamente entrar forte no encontro para resolver o mais rápido possível a eliminatória.

Apito inicial e a previsão de Manuel Cajuda confirma-se: depois de duas ameaças reais à baliza de Nilson, a entrada decidida do FC Basileia tem a recompensa desejada ao minuto 11 com Valentin Stocker a fazer o 1-0 após cruzamento de Derdiyok em que Ergic remata de pronto e a bola vai ter aos pés do médio suíço que bate o guardião brasileiro sem grandes dificuldades.

O técnico Manuel Cajuda iria levar pela primeira vez a formação vitoriana à Liga dos Campeões
Fonte: UEFA

O duro golpe inicial não teve consequências graves, já que o Vitória Sport Clube iria mesmo chegar ao empate dois minutos depois do golo sofrido. O defesa Marque faz falta sobre Marquinho dentro da área e o árbitro assinala de pronto o castigo máximo a favor da equipa portuguesa. Chamado para colocar tudo empatado de novo, Fajardo teve a frieza necessária para fazer o golo que dava agora a vantagem na eliminatória ao Vitória para delírio dos dois mil adeptos que foram desde a Cidade Berço até ao St. Jakob-Park apoiar os seus jogadores.

O campeão helvético via-se agora obrigado a marcar para saltar para a frente da eliminatória, e foi de novo para cima do seu adversário e dispôs de um par de ocasiões para fazer o 2-1, mas a defesa vitoriana estava bastante concentrada e esse tal golo ambicionado pelo Basileia não surgiria até ao final da primeira parte. Faltavam 45 minutos para o Vitória Sport Clube chegar ao ‘paraíso milionário’.

O reinício do encontro podia ter sido maravilhoso para os Conquistadores, já que aos 49’ Marquinho ficou a milímetros de bater novamente Costanzo. O Basileia foi mais assertivo e voltou para a frente do marcador: minuto 54, Stocker desmarca Derdiyok e o número 31 dos suíços atira a contar, num remate em que Nilson nada podia fazer para impedir o golo. Novamente em desvantagem, a formação de Guimarães tinha de correr atrás do prejuízo, mais uma vez.

Na procura do golo que valesse o empate e apuramento, Manuel Cajuda lançou em campo os reforços Jean Coral e Roberto para ter mais opções na frente de ataque, e o último seria mesmo o “talismã”. A serem fortemente pressionados pelos adversários, os defesas do Basileia iam tapando bem os caminhos para a sua baliza, mas o minuto 86 iria ser mesmo mágico para o Vitória Sport Clube.

O lateral Luciano Amaral arranca pelo lado esquerdo, ultrapassa facilmente o opositor e cruza para a área, onde surge Roberto desmarcado que cabeceia para dentro e faz o 2-2, soltando a euforia entre os adeptos portugueses. Tudo empatado e os minutos finais exigiriam nervos de aço para confirmar mais um marco histórico na vida do clube que tem D. Afonso Henriques no seu emblema.

Christian Gross ainda iria esgotar as substituições com a entrada do chileno Eduardo Rubio para tentar chegar ao 3-2 que acabou por não acontecer para enorme felicidade dos vitorianos. Apito final e estava feita história na Suíça: pela primeira vez nos seus 86 anos de existência, o Vitória SC ia jogar a Liga dos Campeões, tornando-se assim a quinta equipa portuguesa a participar na principal competição de clubes do Futebol Europeu.

Fase de Grupos exigente

Colocado no pote quatro, não se antevia um grupo simpático para o clube vimaranense, mas a missão na Liga dos Campeões passava muito por aproveitar a oportunidade de jogar contra os “tubarões” europeus e, quem sabe, tentar fazer uma “gracinha” na prova milionária. De facto, o sorteio não foi nada meigo para o estreante luso: Liverpool FC, AS Roma e Olympique Marseille eram os adversários que o Vitória teria de enfrentar no grupo C.

A noite do dia 16 de setembro de 2009 foi especial em Guimarães: a equipa italiana visitava o estádio D. Afonso Henriques para apadrinhar a estreia vitoriana na Champions. Liderados pelo icónico Francesco Totti, os romanos eram claros favoritos a começar a edição 2008/2009 com um triunfo. Contudo, o tento solitário de Yves Desmarets contrariou as probabilidades antes do apito inicial e confirmou um começo de sonho para os “Conquistadores”.

A segunda jornada ditou a visita ao mítico Anfield Road para defrontar o conjunto de Rafael Benítez. Com uma atmosfera digna de noite europeia, o Vitória sucumbiria ao bis de Fernando ‘El Niño’ Torres, mas deu luta a Gerrard e companhia durante grande parte do encontro, o que valeu um forte aplauso por parte dos fiéis adeptos dos Reds no final da partida que reconheceram a bravura da equipa portuguesa ao jogar sem pôr o ‘autocarro’ à frente da baliza.

Desmarets e Roberto foram dois elementos importantes na caminhada ‘milionária’ do Vitória SC
Fonte: Vitória SC

O duplo confronto com o Marseille era fulcral para as aspirações vimaranenses na Liga milionária. Em casa, Roberto voltaria a ser importante ao marcar os dois golos que deram o segundo triunfo e a esperança em passar aos oitavos mantinha-se intacta. No Vélodrome, Djibril Cissé ainda deu a vantagem aos franceses aos 29’, porém um livre direto batido com enorme classe por Nuno Assis ao cair do pano obrigou à divisão de pontos e, com isso, a ida à Taça UEFA já era um dado adquirido independentemente do que acontecesse na viagem à capital italiana na jornada seguinte.

A formação lusa entrou para a penúltima jornada da fase de grupos com um ponto a mais que os italianos, pelo que uma nova vitória sobre a Roma dava automaticamente a passagem inédita à fase a eliminar. Numa partida bastante equilibrada, foi o ‘samba’ dos pés do médio Júlio Baptista que fez toda a diferença ao marcar o único golo que ditou a derrota dos vitorianos e consequente ultrapassagem na classificação.

As contas na última ronda eram simples: o Marseille tinha de vencer a Roma e o Vitória ganhar ao já apurado Liverpool para ainda ser possível garantir o segundo lugar do grupo C. Cientes da importância do apoio para empurrar a equipa para a vitória, os adeptos vimaranenses lotaram as bancadas do D. Afonso Henriques, criando assim um excelente ambiente. Os ingleses não temeram o “inferno branco” e foram implacáveis nos 90 minutos: Dirk Kuyt, Javier Mascherano e Fernando Torres foram os autores dos golos do triunfo sem margem de contestação que atirou o Vitória SC para a Taça UEFA, onde iria até aos oitavos, sendo eliminado depois pelo vencedor da edição dessa época, o FC Shakhtar Donetsk.

Artigo revisto por Diogo Teixeira

BnR TV: O futuro dos campeonatos nacionais

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Terça-feira é dia de live! Junta-te a nós para falarmos do desporto em tempos de quarentena! Os nossos comentadores do BnR TV voltam a juntar-se para mais uma ronda de análise à atualidade do futebol português!

Com Mário Cagica Oliveira, João Miguel Rodrigues e Marco Ferreira.

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Jogadores Que Admiro #113 – Jonas

No dia 12 de setembro de 2014, o SL Benfica anunciava a contratação de Jonas Gonçalves.  O clube encarnado tinha esperanças de que o já veterano avançado pudesse colmatar a saída de Rodrigo, mas o que Jonas viria a fazer com a camisola dos encarnados seria algo absolutamente único, superando a mais otimista das espectativas.

O brasileiro, que tinha terminado contrato com o Valência CF, chegava a Portugal desacreditado, depois de uma fraca temporada ao serviço do emblema che. “Velho” ou “desempregado” foram alguns dos termos utilizados para descrever o jogador (sobretudo por parte dos rivais) na sua chegada à Luz.

Com a temporada já iniciada, Jonas demorou algum tempo a entrar nas opções de Jorge Jesus. A sua estreia aconteceria apenas em outubro, frente ao FC Arouca onde se estreou também a marcar.

Contudo, o seu grande momento de afirmação aconteceria na Serra, frente ao SC Covilhã, onde o brasileiro marcou três golos numa dificílima vitória por 3-2.

Desde este momento Jonas nunca mais olhou para trás. Em 187 jogos foram 131 os golos marcados pelas “pistolas”: e tão inesquecíveis que muitos deles foram.

Como esquecer os golaços de fora da área frente ao FC Paços de Ferreira ou CD Nacional. As grandes cabeçadas que tantas vezes terminavam no fundo das redes. O golo que deu a vitória frente ao FC Zenit São Petersburgo, na Luz. O hat-trick frente ao Nacional, naquele jogo às 11 da manhã.

O golo “a meias” com Mitroglou, que tanta discussão gerou. A cabeçada que finalizou o cruzamento de letra de Raúl Jiménez, frente ao Vitória SC. O décimo golo na histórica goleada ao Nacional da Madeira. Os penáltis que pareciam sempre ir ao encontro das redes.

O último tiro do “Pistolas” frente ao Portimonense SC, onde celebrou batendo incessantemente no símbolo do Sport Lisboa e Benfica. O histórico golo no Bessa, que proporcionou uma explosão de felicidade a todos os benfiquistas e que me fez celebrar loucamente em casa com o meu pai.

Jonas foi um ídolo para muitos benfiquistas
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

De pé direito, de pé esquerdo, de cabeça, de livre, de penalty, de fora da área, sem ângulo ou driblando o guarda redes. Jonas foi no Benfica realmente uma verdadeira máquina de fazer golos. Perdeu-se a conta quantas vezes as bancadas do Estádio da Luz gritaram “JONAS” o mais alto que as suas cordas vocais permitiram. Perdeu-se a conta à quantidade de vezes que Jonas colocou um sorriso na cara dos benfiquistas.

Falar de Jonas é falar de golo, mas é sobretudo falar de classe e magia. A bola parecia ter uma relação de cumplicidade única com aqueles pés.

A forma como dominava a bola e ultrapassava o seu adversário sem esboçar o mínimo esforço. A forma como, com a sua franzina figura, conseguia evitar o mais forte dos atletas. A forma como encontrava a bola perdida e incompreendida na área e, tal como fez com a sua carreira, lhe devolvia a felicidade e o sentido de existir. A forma como fazia questão de celebrar todos os golos com os adeptos, retribuindo todo o apoio. A forma como vibrava com os jogos como se fosse benfiquista desde o berço. A forma como apelava à união entre os jogadores e as bancadas.

Depois das lágrimas no último jogo e da “fuga” na lambreta de Eliseu, ficou clara a dura realidade: a história de Jonas no futebol estava a chegar ao fim, mas não sem uma última ovação num estádio que cantava apaixonadamente o seu nome semana após semana. Um estádio que Jonas apelidava de especial. Um estádio repleto de pessoas que idolatravam o brasileiro.

Quando no dia 10 ao minuto 10 saía pela última vez Jonas, cada benfiquista parecia sentir um vazio dentro de si. Os encarnados continuavam lá, mas havia a sensação de que faltava algo, de que faltava alguém. Faltava o 10. Faltava a alegria de Jonas, alegria essa que contrastava agora com a tristeza pela sua ausência.

A despedida de Jonas ficará na memória de todos os benfiquistas
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O futebol está muito longe de ser uma das coisas mais importantes no mundo, não deveria realisticamente sequer perturbar as nossas emoções. Mas, como disse o mítico treinador Arrigo Sachi, “o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes”.

Para os benfiquistas, muito desta pequena “importância”, nos últimos anos, deveu-se a Jonas Gonçalves. Parafraseando o próprio Jonas, Benfica e Jonas são duas palavras que estão interligadas. Eu acrescento: estarão para sempre.

De desacreditado a lenda. As lesões crónicas impediram Jonas de continuar a dar o seu contributo, mas, com ou sem lesões, Jonas foi, discutivelmente, o melhor jogador do SL Benfica no século XXI.

Sempre que falo de Jonas sinto-me obrigado a demonstrar todo o meu agradecimento. Quatro Campeonatos Nacionais (melhor marcador por duas vezes), uma Taça de Portugal, duas Taças da Liga e duas Supertaças.

Universo Paralelo: e se todos os remates à baliza fossem golo?

Agosto de 2019, numa realidade alternativa, em vésperas do começo do campeonato português, todos os guarda-redes da Primeira Liga, titulares e respetivos suplentes, combinaram, em segredo, uma reunião. Lá, discutiriam que medidas deveriam adotar para fazer face às constantes críticas que os adeptos dos seus clubes lhes dirigiam, quando, por um mero infortúnio, não conseguiam impedir que uma bola, classificada pela opinião pública como defensável, tocasse as suas redes.

“Estou cansado de tantas críticas”, dizia um. “Quando um avançado falha, não recebe metade das críticas que nós recebemos quando erramos; quando decidimos um jogo, não recebemos metade das glórias que um ponta de lança recebe”, complementava outro.

Estava decidido. De modo a que fosse dado o devido reconhecimento aos guardiões, estes fariam greve durante toda a temporada, porém de uma forma bastante peculiar. Treinariam normalmente com os seus companheiros, entrariam em campo quando fossem chamados para tal, contudo não iriam defender um único remate que fosse dirigido às suas balizas.

E, assim, começou o campeonato nacional. Sem que nenhum dos outros intervenientes no jogo tivessem conhecimento desta greve, os treinadores arquitetavam as suas estratégias normalmente, os jogadores de campo atuavam como habitualmente.

Em suma, tudo mantinha-se inalterado. Bom, tudo à exceção dos remates à baliza: nesta realidade paralela, todos os remates ocorridos no nosso universo eram transformados em golo, devido à inoperância dos guarda-redes da Primeira Liga.

Tudo corria bem (apesar de algumas desconfianças e boatos lançados em programas televisivos), até que chegámos à vigésima quarta ronda da prova. A pandemia que agora vivemos atingiu de igual forma  esta nossa nova realidade, forçando, consequentemente, a uma pausa nas competições desportivas.

Agosto de 2019, numa realidade alternativa, em vésperas do começo do campeonato português, todos os guarda-redes da Primeira Liga
Assim estaria a tabela classificativa do campeonato nacional, à vigésima quarta jornada, neste universo paralelo
Fonte: José Mário Fernandes/Bola na Rede

Comparando ambos os universos (o nosso e o imaginário), é possível verificar que, caso a equipa que mais remates efetuasse à baliza vencesse sempre, algumas modificações iriam ocorrer, sobretudo na tabela classificativa.

Comecemos pelos lugares cimeiros. Nas posições que dariam acesso às competições europeias na temporada seguinte, são percetíveis algumas mudanças: uma troca direta entre SC Braga e SL Benfica, nos últimos lugares do pódio, juntamente com a inclusão de Vitória SC e de FC Famalicão no quarto e quinto postos, respetivamente. Em termos de liderança, o FC Porto continuaria a vestir a camisola amarela, desta vez ainda mais isolado.

No que toca a Sporting CP e Rio Ave FC, quarto e quinto classificados na nossa realidade, ambos cairiam algumas posições neste novo universo: os leões ocupariam o sétimo lugar, ainda que possua a mesma pontuação em ambas as realidades; os vilacondenses sofreriam a maior queda nesta comparação, “aterrando” apenas no décimo quinto posto, com menos catorze pontos.

No que toca à zona de despromoção, destaque para a presença do Belenenses SAD no último lugar da classificação, com apenas nove pontos arrecadados. Aquele que ocupa esta mesma colocação no universo em que vivemos, o CD Aves, ascenderia ao penúltimo lugar, conquistando, neste campeonato imaginário, mais quatro pontos.

Relativamente ao Portimonense SC, clube que se encontra abaixo da linha de água no nosso mundo, encontra-se separado por uma margem de vinte pontos da linha de água nesta realidade paralela num confortável oitavo lugar. O clube algarvio acabaria mesmo por possuir a maior subida neste campeonato paralelo.

No que aos golos diz respeito, devido ao facto de todos os remates à baliza efetuados na nossa realidade serem transformados automaticamente em golo neste universo, todos os clubes teriam um maior número de golos, quer marcados, quer sofridos. Dentre os dezoito clubes, destaque para o SC Braga, clube com mais golos marcados, para o FC Porto, equipa com melhor registo em termos defensivos, e, pela negativa, para o Belenenses SAD, equipa com menos finalizações certeiras e com o maior número de golos sofridos.

Por último, a maior goleada neste universo paralelo foi registada no Belenenses SAD 4-15 SC Braga, um jogo em que os bracarenses, na realidade que nos rodeia, acabariam também por golear, porém “apenas” por 1-7.

Que jogo devo rever nesta quarentena? Sporting CP 5-3 SL Benfica

Dia 16 de abril de 2008, jogo em pleno estádio José de Alvalade, disputava-se o dérbi de Lisboa a contar para as meias-finais da Taça de Portugal. Os Leões comandados por Paulo Bento procuravam o acesso à final, na tentativa de conquistar o segundo troféu da época, tendo já no seu museu a Supertaça vencida em agosto frente o FC Porto. Do outro lado, um Benfica comandado por uma das suas grandes figuras, Fernando Chalana, terceiro treinador dos encarnados na época. Na liga, a distância para o FC Porto era enorme e, por isso, qualquer um dos grandes de Lisboa queria chegar à final para terminar a época na disputa pela prova rainha. Na final já tinha lugar reservado o FC Porto, depois de vencer o Vitória de Setúbal por 0-3 na véspera.

Jogo marcado para às 20h30. Ambiente animado e quente em Alvalade numa noite de chuva. Jorge Sousa apita para o início do jogo sob um nevoeiro provocado pelas tochas, com o Sporting CP a alinhar com o seu clássico losango, marca de Paulo Bento, com Rui Patrício na baliza, eixo defensivo composto por Abel, Tonel, Miguel Veloso e Leandro Grimi, o meio campo composto por Adrien Silva, João Moutinho, Simon Vukcevic e Leandro Romagnoli, e na frente faziam dupla Yannick Djaló e Liedson. Do lado dos encarnados Óscar Cardozo foi surpresa, no banco, alinhando as Águias com Quim na baliza, Maxi Pereira, Nélson, Luisão e Leo na defesa, meio-campo com Kostas Katsouranis, Rui Costa, Petit, Cristián Rodríguez e Ángel Di María, e Nuno Gomes como referência atacante.

Jogo que começa repartido, com perdas de bola de ambas as partes e muitas precipitações na hora de rematar à baliza. O primeiro lance de perigo pertenceu ao Sporting, aos 6 minutos, num livre batido por João Moutinho, a cruzar para o cabeceamento de Tonel que só valeu para o susto. Aos 8 minutos Leandro Grimi tenta um remate à entrada da área que passa muito longe do alvo. Aos 9 minutos, num mau atraso da defesa, Di María isola-se procurando ganhar a bola a Rui Patrício, o guardião sai e, na disputa do lance, o extremo argentino deixa o pé esquerdo para trás e cai, vendo o cartão amarelo por simulação. Primeiros dez minutos de muitas bolas largas, na procura de aberturas para os homens mais rápidos e habilidosos de cada equipa. SL Benfica a demonstrar algumas desconcentrações defensivas e o Sporting CP a tentar tirar proveito disso.

Aos 13 minutos, livre de longa distância para as Águias batido por Rui Costa, com um balão facilmente agarrado por Rui Patrício. Aos 14 minutos, Liedson recupera a bola num lance que parecia perdido, frente a Leo, junto à bandeira de canto, descendo até à baliza e a rematar de trivela, mas a bola vai direta à malha lateral. A partir dos 15 minutos de jogo, o SL Benfica começa a crescer, a ter mais consistência e, aos 16 minutos, Di María, numa tabelinha, entra dentro da área, cruza mas Leandro Grimi tira a bola dos pés de Rui Costa, que ficava em excelente posição no centro da área para inaugurar o marcador. A chegar os 19 minutos, numa combinação entre Rui Costa e Di María, que deixou a defesa verde e branca completamente perdida, o ‘maestro’ faz o primeiro das Águias, com a bola a passar entre as pernas de Rui Patrício.

Nos minutos seguintes a turma de Paulo Bento procurou pressionar e chegar à igualdade, mas sem qualidade no último terço, com a defesa do SL Benfica a conseguir parar as iniciativas dos Leões. Aos 24 minutos, Di María faz um cruzamento longo para Nuno Gomes que, num pontapé fortíssimo na zona onde Rui Costa fez o primeiro, atira ao lado da baliza. Apesar do maior caudal ofensivo verde e branco, as águias causavam mais perigo.

Perto da meia hora de jogo já aqueciam Pedro Silva e Marat Izmailov. O Benfica continuou a crescer e a pressionar, principalmente pelos pés de Di María e Rui Costa. Aos 30 minutos, Léo passa Rui Costa, que devolve ao brasileiro, entra na área pela ala esquerda do ataque, cruza para a pequena área onde aparece Nuno Gomes para fazer o segundo golo da partida.

Primeira substituição no jogo, sai Adrien Silva e entra Marat Izmailov aos 33 minutos. Paulo Bento, e com razão, não estava satisfeito com as transições entre defesa e meio campo, espaço ocupado pelo, na altura, jovem leão. João Moutinho recuou no meio campo, jogando o médio russo na ponta mais ofensiva do losango.

Canto para o SL Benfica aos 36 minutos, bate Rui Costa para o cabeceamento de Luisão contra o relvado e a bola sai ao lado da baliza. Protestos de Luisão, ficando uma grande penalidade por assinalar a favor dos encarnados. O defesa foi agarrado por Tonel. Nos restantes minutos da primeira parte, o SL Benfica controla minimamente a partida, com momentos de troca de bola acompanhados por ‘olés’ e assobios. O Sporting procura atacar mas sem sucesso, com muitas dificuldades, principalmente no último terço. Ángel Di María ainda mete a bola dentro da baliza aos 44 minutos, mas estava em posição irregular. Muitos protestos dos Leões, que pediam o segundo amarelo para o argentino. Jorge Sousa apita para o intervalo após um minuto de compensação.

Ambas as equipas começam a segunda parte com os jogadores que terminaram a primeira. Início de segunda parte pacato, com disputas de bola taco a taco. Aos 46 minutos, Fernando Chalana manda aquecer László Sepsi, Luís Filipe e Óscar Cardozo. Do lado do Sporting, continua a aquecer Pedro Silva e juntam-se Bruno Pereirinha e Derlei, este último que veio de uma lesão que o afastou por sete meses e meio dos relvados.

Aos 48 minutos, Marat Izmailov faz um passe a rasgar para Liedson que, no lado direito da grande área, atira ao lado, com a bola a sair junto à bandeirola de canto. Continua a pouca qualidade no último terço por parte dos Leões. Muita eficiência do encarnados na pressão e no corte, jogando com tranquilidade.

Grande saída de Rui Patrício aos 54 minutos, após um mau corte da defesa verde e branca, impedindo o isolamento de Ángel Di María que ficaria em boa posição para fazer o terceiro dos encarnados. O relógio marcava 55 minutos de jogo quando Luisão vê o cartão amarelo por entrada dura sobre Liedson na zona do meio-campo. Aos 57 minutos é a vez de Crístian Rodríguez ver a cartolina amarela, por ter parado em falta um contra-ataque dos Leões.

Marat Izmailov faz um remate perigoso aos 59 minutos, à entrada da área mas a bola passa ao lado. O Sporting estava a instalar-se no meio campo do Benfica, mas sem conseguir criar grandes oportunidades de golo. Estava uma hora de jogo corrida quando João Moutinho tira a bola a Rui Costa e, à meia distância, atira, Quim defende com a ponta dos dedos e a bola embate na barra. O lance acordou os adeptos e a equipa. Aumenta a pressão leonina.

Paulo Bento faz a segunda substituição e tira Leandro Romagnoli aos 61 minutos para entrar Derlei. Muito aplaudido. Yannick Djaló recua para a posição 10. Passo um minuto, Derlei tem a primeira oportunidade. Cruzamento de Djaló e, em estilo mergulho, o avançado brasileiro ganha posição a Luisão e atira ao lado.

Primeira mexida do lado do SL Benfica. Entra László Sepsi para o lugar de Ángel Di María, aos 66 minutos. Sai o responsável pelos desequilíbrios da primeira parte que permitiram aos encarnados marcar.

Faltavam 24 minutos para o fim quando João Moutinho levanta a bola para Simon Vukcevic que, dribla na ala direita, junto à linha da grande área, cruza e Yannick Djaló, na pequena área, faz de pé direito o primeiro golo para os Leões.
Os Leões continuaram a pressão e aos 68 minutos, sob um nevoeiro das tochas, Derlei atira à entrada da área para uma grande defesa de Quim. Seguiram-se vários ataques dos leões na procura do empate. Aos 70 minutos, a bola ressalta na área do SL Benfica e Simon Vukcevic tem tudo para fazer o segundo, mas Quim, mais uma vez, impede.

Aos 71 minutos João Moutinho vê a cartolina amarela por puxar a camisola a Cristián Rodriguez, que já tinha passado pelo médio leonino. Na sequência, livre batido por Rui Costa perto da área, e Nuno Gomes falha o terceiro das Águias, tinha tudo para aumentar a vantagem.

Perto dos 76 minutos, numa insistência de ataques dos leões, João Moutinho passa para Marat Izmailov que, dentro da grande área perde, João Moutinho recupera, faz um cruzamento atrasado para Liedson que, sozinho perto da marca da grande penalidade, atira para o segundo dos leões. Em menos de 10 minutos o Sporting chega à igualdade.

Mais uma falta a meio campo, mais um amarelo. Nuno Gomes vê o cartão amarelo aos 77 minutos por falta sobre Miguel Veloso. Nem passados 5 minutos, o Sporting faz o 3º e passa a frente do marcador. Lançamento rápido marcado na ala esquerda do ataque, a bola chega a Liedson que, perto da área, pica para Marat Izmailov que, no lado direito da área, cruza para a entrada da pequena área onde está Derlei para finalizar.

80 minutos de jogo e Sporting está na frente do marcador. Sporting passou de uma equipa sem ideia para uma com resoluções. A entrada de Derlei e a saída de Ángel Di María mudaram completamente o rumo do jogo.

Jogada de ataque do SL Benfica, um corte incompleto da defesa do Sporting deixa a bola para Cristián Rodríguez que faz um remate fora de área sem hipóteses da Rui Patrício. 82 minutos, 3-3.

Jogo intenso no momentos finais, com muitas trocas de bola e muito disputado. Óscar Cardozo preparava-se para entrar quando Yannick Djaló, fora de área, atira, a bola levanta ao bater na biqueira de Luisão, faz um arco e entra sem hipóteses para o guarda-redes encarnado. O Sporting volta a ter vantagem, 4-3. Duas alterações aos 86 minutos, uma para cada lado: Óscar Cardozo e sai Petit, sai Yannick Djaló e entra Gladstone.

O Benfica tenta nos últimos minutos fazer o golo do empate, mas sem grandes ocasiões. O Sporting fez gestão de posse de bola, jogando com o desgaste dos encarnados. Jorge Sousa deu 4 minutos de compensação e, no penúltimo minuto de jogo, Simon Vukcevic faz, num remate de primeira, o quinto a contar para os leões, após um grande passe de Miguel Veloso, a aproveitar a subida no terreno dos encarnados na procura do tento do empate.

A partida termina com a festa verde e branca. Após estar a perder por 2-0 ao intervalo, em pouco mais de 20 minutos de jogo, o Sporting marca 5 golos. Grande partida de futebol, onde na primeira parte Ángel Di María e Rui Costa foram donos e senhores da bola e, na segunda, a crença, a raça e a vontade dos Leões foram mais que suficientes para virar, de forma brilhante, o rumo do jogo.

Sporting CP: Rui Patrício; Abel, Tonel, Miguel Veloso e Leandro Grimi; Adrien Silva (35’ Marat Izmailov) , Leandro Romagnoli (61’ Derlei), Simon Vukcevic e João Moutinho; Yannick Djaló (86’ Gladstone) e Liedson

SL Benfica: Quim; Maxi Pereira, Nélson, Luisão e Leo; Petit (85’ Óscar Cardozo), Kostas Katsouranis, Rui Costa e Cristián Rodriguez; Ángel Di Mária (66’) e Nuno Gomes

Foto de Capa: Youtube

Forest Green Rovers FC | Um clube diferente

Hoje trago-vos uma história diferente, não tão focada em resultados, em finanças, ou de perspetivas fantásticas futuras, hoje trago-vos uma história de um clube distinto, um clube sustentável a todos os níveis. Sim, sustentável desde a abordagem financeira até à forma como o relvado é mantido, mas que mesmo assim é clube profissional e competitivo.

Falo do Forest Green Rovers FC, clube fundado a 16 de abril de 1889 com raízes na pequena cidade de Nailsworth no, também pequeno, condado de Gloucestershire.

O Forest, onde os jogadores são apelidados de “Green Devils” têm um passado de sucesso com um palmarés invejável de conquistas, com o ponto de ouro situado com a conquista da FA Vase em 1981/82 após derrotar o Rainworth Miners Welfare na final no mítico Wembley.

Os também apelidados de “Rovers” de momento competem na League Two, quarto escalão da pirâmide Inglesa, e tudo isto não seria mais que normal se não fosse o projeto do Clube diferente e raro de se encontrar nos tempos que correm na indústria do Futebol.

Um dos rostos deste projeto, é Dale Vince, condecorado com uma das patentes mais reconhecidas na Grã-Bretanha (OBE – Order of the British Empire), distinção normalmente atribuída a individualidades que contribuíram nas mais distintas áreas, Dale é um Industrialista de energias verdes e sustentáveis.

Dale não é só o Chairman e Owner do Forest Green Rovers, é o fundador da Ecotricity, uma empresa baseada em Stroud, Gloucestershire e especializada em vender energias renováveis aos consumidores. Dale assumiu a presidência do Clube em 2010 e em fevereiro de 2011 o Forest Green Rovers anunciou que a alimentação dos integrantes da equipa iria passar a ser totalmente vegetariana, cortando o fornecimento de carnes vermelhas e brancas e alimentos que não fossem totalmente sustentáveis.

Plano aprovado do novo estádio do Forest
Fonte: Forest Green

Mas as mudanças por parte do novo Chairman não ficaram por aqui. Vince inseriu inúmeras medidas ecológicas no Clube, como a introdução de painéis solares e a instalação do primeiro relvado 100% orgânico no Mundo, e em 2015 foi neste revelado que o Forest se tornou o primeiro Clube Vegan do Mundo. Não satisfeito, Dale Vince conseguiu ainda a aprovação para o novo estádio dos Rovers, em Dezembro de 2019, que será o primeiro estádio totalmente construído em Madeira sustentável.

Mas a inovação do Forest Green Rovers ultrapassa as medidas que tomam no campo da energia e alimentar. No final de 2015, Charlie Reeves, economista de profissão, dividia o seu tempo entre ser trader de energia na Ecotricity e Analista de Performance no Clube. Aqui, desenvolveu inúmeras métricas e modelos matemáticos com o objetivo de recrutar jogadores de qualidade para Mark Cooper, treinador da altura e ainda atual do Forest.

Realizava análise pós-jogo com a ajuda da informação enviada pela empresa STATS Company, de forma levar o seu clube para outro patamar, e de facto levou. O Clube mais sustentável do Mundo foi promovido à League Two após a conquista da National League (5º escalão do Futebol Inglês) na época de 2016/2017. O trabalho de Charlie Reeves tem sido tão fortemente reconhecido, que foi recrutado pelo Everton Football Club, que milita no 1º escalão do Futebol Inglês.

É difícil prever quais serão as intenções ou os objetivos de Dale Vince para o Forest, neste momento têm um plantel de qualidade e jovem, em que a base do recrutamento passa por jogadores vindos da National e Conference League, que indica que não entrarão em investimentos que meteria o Clube fora de pé.

O que parece ser certo, é que todos os Clubes e até mesmo nós como individuais, temos um pouco a aprender com os Green Devils.

Que jogos devo rever nesta Quarentena? FC Barcelona 6-1 Paris Saint-Germain FC

8 de março de 2017. Em Camp Nou, estádio do FC Barcelona, estava em disputa um lugar nos quartos de final da Liga dos Campeões. A equipa visitante era o Paris Saint-Germain, que na primeira mão havia conseguido um resultado histórico: uma vitória por quatro bolas a zero. Só com um resultado ainda mais histórico e um Barcelona muito superior havia a possibilidade de reviravolta na eliminatória que estava, aparentemente, resolvida. Mas o que estava por vir não cabia na cabeça de ninguém, nem dos mais otimistas e esperançosos. Mas já lá iremos.

Estávamos perante o melhor jogo dos oitavos de final da competição. Dois colossos mundiais defrontavam-se e, apesar do ligeiro favoritismo atribuído ao FC Barcelona, esta seria uma eliminatória que ninguém queria perder. De um lado a equipa de Paris que tem, nos últimos anos, vindo a tornar-se numa das mais poderosas de todo o mundo. Do outro o Barcelona, com uma constelação que mete medo e respeito a qualquer adversário.

Depois de fases de grupo bastante pacíficas, estava na hora da prova a eliminar, onde qualquer pequeno erro seria fatal. E de erros esteve esta eliminatória repleta, ou então não teriam existido resultados tão díspares como os que hoje nos recordamos. A primeira mão jogou-se em França, e desenganou-se quem esperava um jogo equilibrado que deixasse para a segunda mão todas as decisões.

Com um autêntico recital de futebol, a equipa caseira venceu por quatro golos sem resposta e estava com pé e meio nos quartos de final da prova. Um Barcelona irreconhecível tinha dado poucas provas no Parc des Princes, e seria quase impossível reverter a situação, apenas três semanas mais tarde. Mas o jogo tinha de ser jogado, e a eliminatória só acabava ao fim dos segundos 90 minutos de jogo. Era então hora de fazer história.

O jogo começou e rapidamente se percebeu que seria quase de sentido único. Os jogadores da casa, motivados pela necessidade de marcar 4 golos e com a ajuda do público, estabeleceram o domínio dentro das quatro linhas e apenas permitiam contra-ataques aos visitantes. O primeiro golo surgiu muito cedo, logo aos três minutos, através de Luís Suárez. Ainda faltava muito tempo, e muitos golos também, mas a esperança de que seria possível fazer uma remontada começava a entrar na cabeça de todos os adeptos.

A primeira parte decorreu sempre dentro do mesmo estilo, e aos 40 minutos Kurzawa fez o autogolo e colocou a eliminatória em 4-2. Este terá sido o golo da reviravolta mental, por ter acontecido perto do intervalo. O sentimento de que o dever da primeira parte estava, matematicamente cumprido, transformou-se numa força adicional para os jogadores do FC Barcelona que no segundo tempo apenas tinham de fazer algo semelhante para garantir pelo menos o empate.

O segundo período começou em tudo semelhante ao primeiro, e com apenas cinco minutos Messi fazia o 3-0 e colocava pressão sobre a equipa de Paris que via a sua vantagem desvanecer-se em pouco mais de metade do jogo.

Mas aos 62 minutos Edinson Cavani dava uma machadada nas aspirações dos catalães com um golo que colocava a eliminatória em 5-3 e obrigava a equipa da casa a marcar por mais três vezes. Só um milagre permitiria ao Barcelona fazer três golos nos minutos que restavam. E se por essa altura só um milagre os poderia salvar, por volta dos 85 minutos já nem uma força divina conseguiria inverter tal resultado. Já nenhum adepto acreditava, e mente quem disser que todos os jogadores confiavam ainda na possibilidade de passar a eliminatória. Mas repare bem no que vem a seguir.

Aos 88 minutos, depois de um livre soberbo, Neymar fez o 4-1, pouco festejado pelos adeptos que acreditavam que aquele seria o resultado com que se despediriam da competição que mais ambicionavam vencer. Mas poucos minutos mais tarde o brasileira bisava na partida depois de uma grande penalidade, e voltava a colocar a passagem a apenas um golo de distância. Faltavam ainda jogar quatro minutos, e o milagre voltava a parecer possível, desta vez na cabeça de todos, até dos parisienses.

Sergi Roberto, marcador do golo que deu a passagem ao Barcelona
Fonte: FC Barcelona

Foi então que aos 90+5, depois de um cruzamento frontal de Neymar, apareceu o herói improvável. Sergi Roberto, que tinha começado a partida no banco de suplentes, aparecia na área solto de marcação, e com um pequeno toque colocava a bola no fundo da baliza, fazendo o 6-1 final. O FC Barcelona estava nos quartos de final da Liga dos Campeões, depois da maior reviravolta de todos os tempos da competição e, quem sabe, da modalidade. Parecia que já estava escrito.


O que se viveu dentro daquele estádio é difícil de ser explicado por palavras. Os festejos foram diferentes. Ninguém havia experenciado algo tão surreal, e prova disso foi o terramoto registado por um sismógrafo perto do estádio. Naquela noite aconteceu história, daquela que vai ficar marcada em todos os livros e filmes de futebol. E a partir dessa noite todos os impossíveis se tornaram um bocadinho mais possíveis.

Recordar é Viver: Tiago Monteiro no pódio do GP dos EUA em 2005

No Recordar é Viver de hoje, decidimos voltar 15 anos atrás no tempo, para recordar um dos momentos mais felizes do Desporto Motorizado em Portugal. Um dos Grandes Prémios mais diferentes que vimos até hoje realizou-se no dia 19 de Junho de 2005, e marcou a História do Automobilismo em Portugal: Tiago Monteiro foi o primeiro português a conquistar um pódio de Fórmula 1.

GRANDE PRÉMIO DOS EUA

É importantíssimo salientar que este Grande Prémio, não foi, de todo, normal. Na sequência de um problema dos pneus, na altura, fornecidos pela Michelin à maioria das equipas, a verdade é que estes foram considerados “perigosos” para a execução da corrida.

A polémica com os pneus envolvia, principalmente, a curva 13 do circuito de Indianápolis, que, sendo das únicas curvas feitas através da velocidade máxima, faria com que os pneus da marca francesa cedessem à pressão – a prova seria a de Ralf Schumacher, que já teria embatido duas vezes naquele fim-de-semana na curva 13, com este jogo de pneus.

Depois de inúmeras soluções rejeitadas para o problema se resolver – criação de uma chicane na curva, ou mesmo a redução da velocidade – por fim, a corrida acabou por acontecer. Mas, desengane-se, caro leitor, se pensa que correram, neste Grande Prémio, os 20 carros destinados.

Como a Michelin cobria os pneus de sete das dez equipas presentes na Fórmula 1 – BAR, McLaren, Red Bull, Renault, Toyota, Sauber e Williams – sobravam apenas três equipas que tinham o equipamento fornecido pela marca japonesa Bridgestone – Ferrari, Jordan e Minardi.

E, então, foram estas três equipas que deram o ponto de partida para o Grande Prémio dos EUA em 2005.

No vídeo abaixo, conseguimos ver que a volta de apresentação (aquecimento) foi dada pelos 20 pilotos. No entanto, apenas os seis pilotos destinados é que arrancaram a sério para a corrida.

TIAGO MONTEIRO NO PÓDIO

Tiago Monteiro representou, durante duas épocas, Portugal na Fórmula 1.

Em 2005, o piloto português correu pela Jordan, e, diga-se que, não era, de todo, a equipa mais competitiva da grelha.

Mas, voltemos ao GP dos EUA. Tiago Monteiro juntava-se aos seis pilotos que tiveram o «privilégio» de correr nesse fim-de-semana – estes eram Michael Schumacher e Rubens Barrichello (Ferrari), o colega de equipa Narain Karthikeyan (Jordan), e Christijan Albers e Patrich Friedsacher (Minardi).

Foi uma corrida caraterizada pelas estratégias de pit stop, mas também pelo domínio claro da Ferrari, em que Michael Schumacher garante a sua primeira vitória da época até então, com Rubens Barrichello a assegurar o segundo lugar.

O que mais interessa reter daqui é que o primeiro (e único, até agora) pódio de um português na competição de topo dos Desportos Motorizados foi feito, numa corrida em que apenas participaram seis carros, houve muita polémica à mistura, e marcou a História como um dos Grande Prémios mais estranhos que se realizaram na modalidade.

É assim que recordaremos o pódio de Tiago Monteiro que, apesar das circunstâncias em que foi conseguido, a verdade é, sinceramente, dá saudades de ver uma bandeira portuguesa num pódio de Fórmula 1 (e esperemos que aconteça, em breve).

Mas, temos apenas saudades na Fórmula 1, porque, nos outros escalões do automobilismo, como Fórmula E, WEC, entre outros, vemos o valor que os nossos portugueses tem em prova, e, como sempre, tanto o Tiago Monteiro, como o Filipe Albuquerque ou o António Félix da Costa, continuam-nos a representar da melhor maneira possível.

Foto de Capa: Formula 1

WRC: Tecnologia híbrida a caminho dos ralis

O Campeonato do Mundo de Ralis já viu as suas novas regulamentações, que entram em vigor em 2022, aprovadas pelo Conselho Mundial da FIA. Este é o último bastião da FIA a utilizar a tecnologia híbrida. São várias as mudanças, tanto técnicas como na pirâmide dos ralis. Assim, os World Rally Cars, apresentados em 2017, vão desaparecer, e vão dar lugar ao Rally1.

A atual geração de WRC será a última, sendo substituída em 2022 pelos Rally1
Fonte: Toyota Gazoo Racing

Vamos aos carros do campeonato do mundo. O WMSC destinou que nos motores não se mexia, ou seja, vão continuar a equipar com motores 1.6 turbo. A diferença é que agora terão a ‘ajuda’ de tecnologia híbrida, que vai ser produzida por uma companhia alemã, Compact Dynamics, que por acaso também é responsável pelo MGU utilizado na Fórmula 1.

A transmissão também vai ter diferenças e de acordo com o AutoSport PT, os Rally1 passam a ter uma caixa de cinco velocidades. Também os carros vão deixar de ter diferencial central. Quanto às suspensões, estas terão um curso reduzido, o que na minha opinião pode influenciar em ralis mais duros, como o México ou até Portugal. Mas, suspensões de rali são sempre muito resistentes.

Quanto à pirâmide, já sabemos que os Rally1 vão ser o topo, com a FIA a garantir que o desempenho deve ser semelhante aos WRC. Nos Rally3, o orçamento foi reduzido, passando a ser de 100.000€. Esta categoria pretende aproveitar os antigos carros R2, colocar-lhes um diferencial e terem tração às quatro rodas. Uma boa oportunidade para os gentleman drivers, ou até para os mais jovens. Nos Rally4, já conhecemos alguns pretendentes a melhor carro. Já se lançou o Peugeot 208 Rally4, que irá estrear-se na Peugeot Rally Cup Ibérica. Também a Ford já apresentou o seu pretendente, o Ford Fiesta Rally4. Na base da pirâmide ficam o Rally5, mais conhecidos por serem os atuais R1, que oferecem cerca de 150cv com motores um litro turbo, ou atmosféricos até 1400cc.

Na categoria Rally4 já temos dois pretendentes: O Peugeot 208 Rally4 (capa) e o Ford Fiesta Rally4
Fonte: M-Sport

A entrada numa nova era está próxima, e estas regras gerais antevêem que a espetacularidade do Campeonato do Mundo de Ralis continue. Mal podemos esperar por esta pandemia acabar e podermos ir para a estrada ‘ver os carros passar’.

Foto De Capa: Peugeot Sport