Não há muitos jogadores por esse mundo fora que se possam orgulhar de ter marcado seis golos num mundial de futebol, mas o antigo internacional russo Oleg Salenko foi capaz disso e de muito mais.
A 25 de Outubro de 1969 nasceu para o mundo Oleg Anatolyevich Salenko. A sua cidade natal, Leninegrado (rebatizada como S. Petersburgo após o fim da URSS), serviu de palco às primeiras incursões futebolísticas do jovem Oleg ao serviço do Zenit Leninegrado, onde se estreou na equipa principal com apenas 16 anos de idade a 1 de Março de 1986. Um jogo contra o poderoso Dynamo Moscovo na capital do império Soviético serviria para intimidar qualquer jogador, mas o jovem Salenko não acusou a pressão de jogar no emblemático estádio, que albergava numa das suas entradas a imponente estátua do lendário Lev Yashin, e vindo do banco de suplentes marcou o golo com o qual o seu Zenit Leninegrado derrotou o poderoso emblema moscovita. O jovem Oleg rapidamente se tornou numa das jóias da coroa daquela equipa superiormente comandada por Pavel Sadyrin e foi pela mão deste lendário pensador do futebol russo que Salenko desenvolveu as suas refinadas capacidades de finalização e se tornou um avançado de elevada qualidade.
Salenko a receber a sua primeira bota de ouro das mãos de um responsável do futebol da URSS Fonte: vk.com
Em 1989, com apenas 19 anos, o ainda inexperiente Salenko mudou-se de malas e bagagens para a potência do futebol soviético da década de 1980, o Dynamo Kiev. A sua transferência para o emblema da capital da Ucrânia entrou para história do futebol soviético, uma vez que foi a primeira a envolver dinheiro. Nessa altura, o todo poderoso Dynamo pagou ao Zenit 36 mil rublos, uma quantia avultada para um país que não estava habituado a este tipo de transações, mas muito longe das pretensões iniciais da equipa de Leninegrado, que exigia 1 milhão de rublos à formação treinada pelo mestre Valeriy Lobanovskiy.
Em pouco tempo tudo mudou para Salenko; a sua saída para o Dynamo deixou os adeptos do Zenit revoltados e a sua experiência na capital ucraniana foi bem mais complicada do que aquilo que ele poderia prever. O Zenit não tinha o estatuto que tem hoje e em Kiev “morava” uma equipa com jogadores fantásticos, quase todos eles internacionais pelo seu país, algo que relegava o jovem Oleg para segundo plano. Apesar de todas as dificuldades, Salenko apontou perto de 30 golos em cerca de 100 jogos oficiais e, em 1992, já depois do atribulado desmembramento da União Soviética, mudou-se para a liga espanhola, para o modesto CD Logroñes. A sua experiência na comunidade autónoma de La Rioja foi fantástica e, na época de 1993/94, Salenko marcou 21 golos em 37 jogos oficiais. Nunca nenhum outro jogador proveniente da ex-URSS marcou tantos golo numa só época em Espanha e não será por demais lembrar que a quantidade de atletas oriundos daquele antigo país que passaram pelo futebol espanhol é bastante significativa.
Salenko com o seu filho ostentando a sua segunda bota de ouro Fonte: vz.ua
Em 1994, Oleg Salenko inscreveu o seu nome na história do futebol mundial ao apontar seis golos no World Cup 94 nos Estados Unidos da América. Foi um ano fantástico para Salenko, durante o qual o antigo jogador do Zenit não só se afirmou a nível nacional como também ao serviço da sua selecção, pese muito embora a fraca prestação da equipa russa no respectivo torneio. Salenko reencontrou Pavel Sadyrin na selecção do seu país e foi novamente pela mão do homem que o lançou no Zenit quase uma década antes que Oleg se tornou, em conjunto com o lendário Hristo Stoichkov, no Bota de Ouro do torneio, com seis golos apontados, cinco deles diante da selecção dos Camarões. O experiente guarda-redes camaronês Jacques Songo’o não conseguiu seguramente esquecer aquele fatídico dia em Palo Alto na Califórnia, quando aquele jogador russo de certa forma “desconhecido” o obrigou a ir buscar a bola ao fundo das redes por cinco vezes.
Ganhar a Bota de Ouro não foi uma novidade para Oleg Salenko, uma vez que em 1989, no mundial de Sub-20 na Arábia Saudita, o jovem oriundo de Leninegrado havia sido coroado como melhor marcador do torneio, ganhando por isso o respectivo troféu. Salenko continua a ser, nos dias de hoje, o único jogador mundial a ter ganho duas Botas de Ouro em categorias distintas e continua também a ser o único a nível mundial a ter erguido o troféu ao serviço de uma selecção que não tenha superado a fase de grupos.
Oleg Salenko ao lado do lendário Roger Milla no Mundial de 1994 Fonte: img.championat.com/
Todos estes acontecimentos marcantes antecipavam uma carreira gloriosa para Oleg Salenko após o Mundial de futebol de 1994, mas tal nunca chegou a acontecer. O avançado russo mudou-se para o Valência CF depois do mundial e, um ano mais tarde, rumou ao futebol escocês para representar os Rangers FC, mas, apesar de manter a sua veia goleadora sempre activa, nada voltou a ser como antes, muito por causa de sucessivas lesões e consequentes problemas de ordem física. Uma cirurgia ao joelho, levada a cabo no início da temporada 1996-97, foi o princípio do fim da carreira do artilheiro russo, que por diversas razões, alegadamente relacionadas com a falta de coordenação entre as equipas médicas que o acompanharam nessa altura, viu a sua carreira cair até ao abismo no curto espaço de quatro anos.
De Salenko, pouco mais se ouviu até aos dias de hoje, com excepção de um desmaio em directo num canal televisivo ucraniano em 2013, de se ficar a saber que o seu livro favorito era o Manifesto Comunista de Marx e Engels e de pequenas entrevistas, sem direito a grande destaque, em jornais e outras publicações internacionais; tudo isto muito pouco para um jogador que colecciona recordes e memórias fantásticas e que devia merecer o respeito e a admiração de todos aqueles que amam e vibram, semana após semana, com o desporto-rei.
Gustavo Veloso, ciclista da W52-Quinta da Lixa e vencedor do ano passado, voltou a conseguir a camisola amarela e a sagrar-se o campeão da Volta a Portugal 2015 em bicicleta! Desde o contrarrelógio inicial que se previa que este fosse realmente o desfecho, e a vitória é completamente justa. Ao iniciar este artigo, também quero destacar algumas palavras proferidas pelo vencedor: “Muitos de nós aprendemos a ser ciclistas em Portugal, é aqui que temos essa oportunidade. O que somos hoje deve-se a Portugal”.
A décima etapa, e última, desta nossa Volta terminou em Lisboa e consagrou o espanhol como, novamente, vencedor, não antes de vermos mais um sprint entre os especialistas e onde o italiano Matteo Malucelli, à frente do seu colega de equipa Davide Vigano, venceu a etapa. Este final de etapa foi um dos momentos da prova, visto que os próprios italianos comunicaram entre eles ao sprintarem e, provavelmente, Vigano abrandou um pouco para dar a vitória ao seu colega de equipa – um jovem de 21 anos. Grande momento por parte de ambos quando levantaram os dois os braços a festejar a “dobradinha” na etapa.
Voltando à classificação geral, o galego, de 35 anos, repetiu a conquista realizada em 2014 e partilha o pódio final da 77.ª edição com dois corredores da Efapel, o português Joni Brandão e o espanhol Alejandro Marque, vencedor da Volta em 2013 (sendo certo que ambos ficaram a mais de dois minutos do camisola amarela, realmente uma diferença notável para o bicampeão). Veloso, com triunfos em duas etapas – a sexta, beneficiando da desclassificação de José Gonçalves, e nona, um decisivo contrarrelógio – deu a terceira vitória seguida à equipa de Sobrado, Valongo, após a sua própria vitória no ano passado e a de Marque.
Matteo Maluccelli e Davide Vigano a proporcionarem um excelente momento entre ambos Fonte: Facebook da Volta a Portugal
Tal como previsto, o top10 final foi apenas preenchido por ciclistas ibéricos. Novamente uma luta entre Portugal e Espanha, com a Itália a tentar intrometer-se nas etapas ao sprint e os belgas e holandeses a aparecem mais nos contrarrelógios. É desta forma que se pode ver a Volta a Portugal em termos de nacionalidades. Nos 10 melhores encontramos sete portugueses e três espanhóis. Visto assim poderíamos dizer que Portugal claramente venceu esta “batalha”. Mas a verdade é que os três espanhóis ficaram nos quatro primeiros lugares, inclusive no lugar do vencedor. Tudo depende da perspetiva de cada um, mas a verdade é que são os espanhóis que acabam por sair mais felizes desta Volta a Portugal.
Neste top10, além dos três nomes já referidos, Délio Fernandez, não fosse o azar no CR, poderia ter feito com que a W52-Quinta da Lixa tivesse dois homens nos dois primeiros lugares. Ainda assim, mais uma grande prova do espanhol, a mostrar estar presente para o seu líder e, ainda assim, a conseguir fazer a sua própria corrida da melhor forma. Não merecia o azar que teve. Alheio a isso, Joni Brandão conquistou o 2.º lugar e sai desta Volta a Portugal como um dos portugueses com mais capacidade de vir a singrar em termos internacionais.
Destaco, igualmente, a presença de três homens da LA Antarte: Sérgio Sousa, Hernâni Broco e Amaro Antunes. Os três fizeram uma boa prova, regulares do princípio ao fim e, tivessem apostado mais num dos três ciclistas, poderiam ter tido uma ainda melhor classificação. Nos 10 melhores, António Carvalho (vencedor da classificação da montanha no ano passado), ciclista da W52-Quinta da Lixa, trabalhou muito para os dois espanhóis e ainda conseguiu um excelente 6.º lugar. A análise ao top10 termina com dois homens da Boavista: Rui Sousa e Daniel Silva. Silva trabalhou muito bem para o próprio Rui e ainda conseguiu um 8.º lugar, sendo que Rui Sousa voltou a não conseguir vencer a Volta a Portugal. Não se esperava que o conseguisse, ainda para mais com a idade que já tem, mas a verdade é que, ainda assim, consegue ser o 5.º melhor classificado, o 2.º melhor português e terminou em grande, com uma excelente subida à Torre (como é seu apanágio) e com um excelente CR, quase ao nível dos melhores especialistas presentes nesta Volta e, por exemplo, melhor que Marque, também conhecido por fazer muito bons CR’s. Veremos se este será o seu último ano a correr a Grandíssima.
O pódio da Volta a Portugal 2015, por ordem: Joni Brandão (2.º), Gustavo Veloso (1.º) e Alejandro Marque (3.º) Fonte: Facebook da Volta a Portugal
Em relação às outras classificações, Gustavo Veloso também venceu a camisola dos pontos, superando o seu colega de equipa Délio Fernandez e o italiano Davide Vigano. A camisola da montanha foi desde cedo um alvo para o português Bruno Silva, sendo que, com a presença nas mais variadas fugas, esse objetivo foi realmente alcançado e é uma vitória justa para o único português a conseguir vencer uma das camisolas desta Volta (os dois outros elementos no pódio desta classificação foram, mais uma vez, os habituais Délio Fernandez e Gustavo Veloso, respetivamente). A camisola da juventude, à partida para esta Volta, estaria “reservada” para Evgeny Shalunov, mas o russo desiludiu e Aleksey Rybalkin mostrou-se muito bem e foi, indiscutivelmente, o vencedor desta camisola, sendo que ainda conseguiu ficar no 16.º lugar da classificação geral. Por fim, a vitória na classificação por equipas ficou para a mais do que citada W52-Quinta da Lixa (uma prestação digna de uma Sky na Volta à França). Grande trabalho de toda a equipa em prol da conquista de todos os objetivos delineados para esta Volta a Portugal. Com três ciclistas no top6, quatro vitórias em etapas e o vencedor da prova, foi uma missão muito bem-sucedida e talvez até melhor do que o que seria inicialmente previsto (a Boavista e a LA Antarte, ambas com três ciclistas no top12, foram as duas outras equipas que ficaram no pódio desta classificação).
Desde 2011 (edição vencida por Ricardo Mestre e que ficou marcada pela presença de dez portugueses no top10 final, sendo que o bem conhecido dos portugueses André Cardoso fez 2.º, com o 5.º classificado deste ano, Rui Sousa, a fazer 3.º em 2011) que um português não vence a Volta. Mais uma vez, Gustavo Veloso foi o mais forte de todos, um verdadeiro “rei” em Portugal. Conseguirá alguém quebrar este domínio para o próximo ano? Cá estaremos para verificar isso!
O Clube Futebol Benfica não é a primeira equipa portuguesa a lutar pelo acesso à Liga dos Campeões de futebol feminino. No entanto, este é um momento que marca a formação proveniente de São Domingos de Benfica, em Lisboa, por ser a sua estreia numa competição internacional deste calibre. As croatas do Osijek, as sérvias do Spartak Subotica e as macedónias do CS Norok serão as suas adversárias na disputa da qualificação para os 16 avos de final da Liga dos Campeões.
A 2 de Maio sagraram-se campeãs nacionais ao vencer a Fundação Laura Santos por 5-1. A 6 de Junho alcançaram a “dobradinha” através da conquista da Taça de Portugal frente ao Clube de Albergaria, com um golo providencial de Joana Flores. Depois destas duas conquistas e de um campeonato inesquecível, o tempo de férias do Clube Futebol Benfica revelou-se curto devido à necessidade de preparar a Liga dos Campeões. Com uma dedicação digna de verdadeiras profissionais, as jogadoras reiniciaram os trabalhos a 1 de Julho.
Para além dos treinos tácticos e técnicos a que as atletas estão sujeitas durante o campeonato nacional, a equipa técnica do “Fófó”, em conjunto com o seu fisioterapeuta João Coelho, também organizou um conjunto de treinos no qual foram trabalhados vários aspectos específicos como a velocidade ou a reacção, com o objectivo de prevenir lesões.
Intercalado com este programa, o Clube Futebol Benfica realizou ainda três jogos de treino, sendo que dois deles foram disputados com a campeã irlandesa feminina, Wexford Youths, que também se encontrava em Portugal a preparar a Liga dos Campeões. No balanço final desses dois encontros, regista-se um empate a 1-1 e uma vitória confortável por 3-0 para a equipa portuguesa. Relativamente ao terceiro jogo de treino, o Clube Futebol Benfica arrecadou uma vitória por 5-3 frente a uma equipa masculina sénior. Durante estas cinco semanas de trabalho intenso, a formação, orientada por Pedro Bouças, teve ainda a oportunidade de realizar um estágio, que durou cerca de três dias, em Penamacor.
As pupilas de Benfica realizaram exercícios onde, por diversas vezes, utilizaram uma máscara de forma a dificultar a entrada de oxigénio, tornando o treino mais difícil Fonte: Facebook do Clube Futebol Benfica
Terminado o período durante o qual a equipa técnica procurou “afinar” a equipa, o Clube Futebol Benfica prepara-se para partir rumo à Croácia, onde irá disputar o Grupo 6 de qualificação para os 16 avos da Liga dos Campeões, entre 11 e 16 de Agosto. O representante português terá como primeiro adversário o Spartak Subotica, que, a par da formação do Osijek, é apontado como uma das equipas que poderá causar maiores problemas à formação orientada por Pedro Bouças. Ainda assim, em declarações à agência lusa, o treinador afirmou que o Clube Futebol Benfica, que já conta com alguns reforços, possui todas as condições para disputar qualquer jogo e que a equipa tem vontade de surpreender. De facto, se o trabalho desenvolvido ao longo das últimas semanas conseguir ser posto em prática dentro das quatro linhas, podemos esperar uma participação bastante positiva da equipa da freguesia de Benfica que, durante anos, foi ofuscada pelo emblema vizinho do Sport Lisboa e Benfica. No entanto, neste momento e e no que diz respeito ao futebol feminino português, não existe um plantel que apresente tanta qualidade como o velho “Fófó”.
As oito vencedoras de cada grupo garantirão a passagem à próxima fase da Liga dos Campeões, onde já se encontram as 24 equipas mais bem classificadas no ranking e que ficaram isentas desta pré-qualificação.
Dois candidatos a assumirem-se e dois outros a desiludirem. Reviravoltas em catadupa e golos de belo efeito. Um surpreendente primeiro líder. E Bielsa a fazer de El Loco…
Esta primeira jornada da Ligue 1 não desiludiu tendo peripécias e histórias para contar para todos os gostos. Vamos lá então ver o que se passou nesta ronda inaugural do Championnat.
Lille 0–1 Paris Saint-Germain (Lucas 57’).Começar a época como terminou a anterior: A vencer.
Foi já sob o olhar atento de Angel Di Maria, que o PSG foi impor-se categoricamente, mesmo se o resultado não o indica, no sempre complicado estádio Pierre-Mauroy, neste que foi o jogo inaugural da Ligue 1. Nem as ausências de Ibrahimovic e Thiago Motta, o fraco histórico nas primeiras jornadas dos campeonatos anteriores ou a expulsão precoce de Rabiot, logo aos 28 minutos, alteraram a dinâmica parisiense. Nem tão pouco entusiasmaram a equipa do Lille, sempre muito órfã de ideias para desenvolver os seus ataques.
Embalados pela vitória na supertaça francesa, no fim-de-semana anterior, os homens de Laurent Blanc entraram muito fortes e pressionantes e tiveram diversas oportunidades para abrir o ativo, nomeadamente por Cavani, aos 7 minutos, que depois de ultrapassar Enyeama, guarda-redes do Lille, não conseguiu acertar na baliza contrária. A expulsão de Rabiot poderia ter indicado que as operações se iriam equilibrar, mas nem isso inquietou os campeões em título, sempre seguros de si, e foi com naturalidade que Lucas fez o primeiro golo do Championnat, aos 57 minutos, depois de um passe em profundidade de Matuidi. Guirassy tentou reagir logo de seguida mas Trapp, que parece ter definitivamente roubado o lugar a Sirigu, afastou sem problemas a fraca tentativa e até final as melhores oportunidades continuariam a ser do PSG que poderia ter acabado com um resultado mais dilatado.
O que se pode dizer é que o Paris Saint-Germain definiu, logo no primeiro jogo, o tom desta liga e que continuará a ser ele o alvo a abater.
Lucas deu a vitória aos campeões em título Fonte: Facebook oficial do PSG
Marseille 0–1 Caen (Andy Delort 27’). Falta de sorte e de eficácia levam Bielsa a bater com a porta.
A pré-época foi quente em Marselha e as saídas de Payet, Imbula, Morel, Gignac, Ayew, ainda não devidamente compensadas, deixavam antever que o início do campeonato seria tudo menos fácil para o Olympique local. Mas dificilmente os adeptos pensariam que seriam eles as vítimas da primeira grande surpresa da época.
A equipa do Caen entrou completamente desinibida no Vélodrome e Delort, primeiro, e Bessat de seguida, puseram o experiente Mandanda logo em sentido. Mas o congolês foi impotente para contrariar o potente remate de Delort, aos 27 minutos, que fez a bola entrar debaixo da barra transversal, num golo de belo efeito, que abriu o marcador. Os homens de Bielsa não se resignaram, pressionando e recuperando a bola cada vez mais à frente no terreno chegando mesmo a asfixiar o Caen na segunda parte (70% de posse bola, 14 cantos contra 2 e 17 remates contra 8). Batshuayi viu-se diversas vezes em posição de marcar mas nunca teve a arte e o engenho para tal e Vercoutre, guardião das redes do Caen, foi um dos heróis da partida parando sucessivos remates dos jogadores do OM. E quando não era ele, eram os postes, em duas ocasiões a deixar a nu a falta de sorte e de eficácia dos marselheses levando a que o resultado não sofresse alterações.
Bielsa, que vinha mantendo relações muito conturbadas com os dirigentes do Marseille, não foi de modas e resolveu bater com a porta logo na primeira jornada deixando a sua agora ex-equipa numa situação mais delicada. Certo, é que o Olympique já vai com três pontos de atraso face aos seus principais rivais.
Montpellier 0–2 Angers (Camara 5’, Sunu 79’).O primeiro líder vem da Ligue 2 e criou a sensação da jornada.
Foi uma equipa bastante inexperiente aquela que o treinador do Angers, Stéphane Moulin, fez alinhar no La Mosson, em Montpellier. Efetivamente, 5 dos titulares nunca tinham pisado um palco do principal escalão francês. Mas o que se pode retirar do jogo deste sábado é que tal não foi impedimento para que o Angers se apresentasse sem complexo e arrancasse uma bela vitória fora de portas. Um resultado auspicioso para o novo primodivisionário, alcançado com golos de Camara e Sunu que, esses sim, já conheciam muito bem a Ligue 1, fazendo assim que que o SCO se tornasse no primeiro líder do Championnat.
Nantes 1 –0 Guingamp (Jeremy Sorbon, ag, 89’).Uma vitória arrancada a ferros num jogo enfadonho.
A ideia que ficou no final do Nantes-Guingamp é que as duas equipas ainda não abandonaram a pré-época. E a equipa de arbitragem também não, já agora. Num jogo insosso e sem grandes oportunidades de golo, foi preciso esperar até ao minuto 89 para que se visse algo digno de registo. E os canarinhos precisaram da ajuda do adversário, marcaram num autogolo de Sorbon, e do árbitro, já que Audel parte em posição de fora de jogo quando centrou para o corte infeliz do central do Guingamp para conseguir levar de vencida a partida. Fica a certeza que os adeptos presentes no La Beaujoire ficaram mais satisfeitos com o resultado do que com a exibição.
Nice 1–2 Monaco ( Valere Germain 7’; Bernardo Silva 51’, Kurzawa 62’). Mónaco a assumir o estatuto de candidato em encontro escaldante.
A equipa de Leonardo Jardim beneficiou de circunstâncias bastante favoráveis para vencer o derby com o Nice que viu saírem dois jogadores por lesão, Bodmer e Pouplin, e ainda viu o seu efetivo reduzido a dez elementos para todo o segundo período. Mas o técnico madeirense também fez para que os acontecimentos lhe corressem de feição ao fazer entrar o Bernardo Silva para o lugar do reforço Pasalic, logo aos 25 minutos, quando percebeu que a equipa inicial não estava a render o previsto. E o talentoso vice-campeão europeu sub-20 tornar-se-ia o herói da partida.
E não foi a única alteração que Leonardo Jardim efetuou ainda na primeira parte. A apatia da equipa, que tardava em reagir ao golo inaugural do Nice, logo aos sete minutos por Germain, emprestado curiosamente pelo Mónaco, fez com que também El Shaarawy entrasse para o lugar de Diar. Mas só mesmo na segunda parte, depois da expulsão de Boscagli por falta sobre Bernardo Silva é que os Monegascos explanaram todo o seu futebol, sob a batuta do jovem prodígio luso. Seria o próprio a inaugurar o marcador aos 51 minutos cabendo a Kurzawa fazer o golo da reviravolta aos 62. Até o final do jogo as oportunidades de golo sucederam-se para os monegascos mas o resultado manteve-se inalterado.
Leonardo Jardim teve de puxar dos galões para entrar com o pé direito na primeira jornada, e também pode agradecer a asneira do jovem Boscagli, para começar sem atrasos a sua caminhada nesta Ligue 1 onde se perspetiva o Mónaco como principal rival do PSG.
Leonardo Jardim não hesitou em fazer duas alterações nos primeiros 45′ para contrariar a apatia da sua equipa Fonte: Site Oficial do AS Monaco
Bastia 2–1 Rennes (Ayite 50’, Kamano 69’; Giovanni Sio 39’). A maior vontade dos corsos a fazer a diferença
O Bastia soube reagir à desvantagem provocada pelo seu antigo avançado, Giovanni Sio, ainda na primeira parte e com uma exibição cheia de raça conseguiu dar a volta ao resultado com golos de Ayite e Kamano. Nem a expulsão do polémico Brandao, aos 78 minutos com uma falta muito dura sobre o português Pedro Mendes, retirou o discernimento da equipa corsa que soube aguentar a tentativa de reação do Rennes.
Troyes 0–0 Ajaccio. Alguém avise as equipas que isto já começou.
Num jogo de muito fraca intensidade, as duas equipas despediram-se do Stade de L’Aube com um nulo mais do que lógico face ao que se passou em campo. Contudo o Ajaccio até poderia ter garantido mais do que um ponto no seu regresso à ligue 1 quando Larbi, melhor marcador dos corsos na época passada, falhou um penalti aos 45 minutos a castigar falta de Martins Pereira sobre Tshimbumbu. Mas a verdade é que nenhuma equipa merecia um ponto sequer.
Bordeaux 1–2 Reims (Khazri 41’; De Preville 80’, Siebatcheu 87’).Bordéus pouco explosivo perde a invencibilidade no seu novo estádio contra um Reims voluntarioso.
Talvez vítima da fadiga após a deslocação a Larnaca, na quinta, onde garantiu a passagem aos play-offs da liga Europa, o Bordéus não soube aguentar a vantagem conquistada com o golo de Khazri, aos 41 minutos, depois de um erro de Agassa, guarda-redes do Reims. Mas na segunda parte os homens de Willy Sagnol pareceram entrar adormecidos e a equipa do Reims, essa bem mais acordada, alcançou naturalmente o empate primeiro, por De Preville aos 80 minutos, e a vitória depois por Siebatcheu aos 87’. Ficou a ideias que o Girondins de Bordeaux ainda não está à altura do seu grandioso estádio.
Toulouse 2–1 Saint-Étienne (Braithwaite 27’, Ben Yedder 53’ ; Loic Perrin 17’). Dois livres directos a ”virarem” os Verdes.
Muitas vezes apelidada de equipa enfadonha, e adepta do 0-0, o Toulouse mostrou uma bela faceta, com belas jogadas ofensivas, na sua estreia no Championnat. Nem o golo inaugural de Loic Perrin desmoralizou os pupilos de Arribagé que souberam dar a volta ao resultado. Curiosamente, na seria com as tais movimentações atacantes que conseguiriam a reviravolta mas sim através de dois livres diretos em que o international francês Ruffier não está isento de culpas. Perspetivam-se noites muito interessantes no Stadium.
Lyon 0–0 Lorient.Um Lyon ineficaz contra o Lecomte heróico
Foi debaixo dos assobios dos seus adeptos que o Lyon iniciou a sua campanha na Ligue 1. Depois da paupérrima exibição na supertaça francesa, onde perdeu por 2-0 com o Paris Saint-Germain, e de uma pré-época desastrosa, o público do estádio Gerland esperava mais do que um mísero nulo contra um Lorient valoroso mas que não deveria ser par para os vice-campeões franceses.
E a verdade é que não foi por faltas de oportunidades que o Olympique Lyonnais não conseguiu marcar neste domingo. A estrela emergente francesa, Nabil Fekir esteve num dia não no que a pontaria diz respeito e quando não era Lecomte, guarda-redes do Lorient e autor de uma brilhante exibição, era o poste a parar os seus remates. Mas a equipa bretã até poderia ter conseguido a vitória quando Raphaël Guerreiro, aos 37 minutos, acertou na barra transversal depois de ultrapassar o compatriota Anthony Lopes.
Hubert Fournier tem tido um início de época muito complicado e terá rapidamente de arrepiar caminho se quiser repetir a brilhante temporada protagonizada no ano passado. Para já os indicadores são tudo menos positivos.
Bernardo Silva a prometer mais uma grande época em França Fonte: Facebook oficial do AS Monaco
A Figura da Jornada: Bernardo Silva
Leonardo Jardim arriscou e lançou-o na equipa logo aos 25 minutos, quando o Mónaco já estava em desvantagem, e Bernardo Silva não defraudou as expectativas. Transfigurou por completo o jogo dos monegascos e depois de sacar a expulsão a um adversário conseguiu o golo do empate catapultando a sua equipa para a reviravolta final. Agressivo e muito justo tecnicamente soube trazer dinamismo ao meio campo do AS Monaco.
Bielsa foi, mais uma vez, El Loco Fonte: Site Oficial do Olympique Marseille
O Momento da Jornada:Bielsa diz “Basta”!
Quando ainda na quinta-feira, Bielsa tinha garantido que iria renovar contrato, ninguém esperaria, nem com a derrota caseira do OM, que o treinador voltaria com a sua palavra atrás passados apenas três dias. El Loco fez jus à sua alcunha e anunciou a sua despedida do Olympique Marseille ainda na conferência de imprensa pós-jogo. Talvez terá percebido tarde demais que este ano em Marselha as coisas iriam ser complicadas visto as saídas não terem sido devidamente colmatadas. Mas o extravagante técnico argentino já na época passada não tinha estado à altura das suas credenciais.
A Premier League começou este fim-de-semana e já provoca chamadas de capa, inúmeras notícias no interior dos jornais desportivos e o habitual alarido. É o melhor campeonato do mundo, hands down. Com um futebol muito particular, transições e tácticas exímias e a agravante das várias contratações de encher o olho, a liga inglesa continua a despertar as habituais paixões.
Por terras de Sua Majestade, há uma dessas – paixões, repita-se – que me acompanha, mesmo com o passar dos anos pouco frutíferos. Apoio e sofro pelo Manchester United. E foi com pequenos rasgos de alegria mas, principalmente, com algum receio, que vi este sábado a estreia dos red devils nesta edição da Premier League. Os rapazes de Van Gaal venceram o Tottenham por um magro 1-0, sem sequer terem precisado de marcar; um auto-golo de Kyle Walker decidiu a partida. Foi uma vitória sofrida, com os adeptos a terminarem a partida “com o credo na boca”.
Acho que não preciso de explicar o porquê do pouco entusiasmo que ostento. O United realizou apenas um remate na direcção da baliza, por intermédio de Ashley Young; em 90 minutos, a equipa de Manchester rematou por apenas 10 vezes. É pouco, para quem se diz, invariavelmente, candidato ao título. É pouco, para quem investiu mais de 100 milhões no reforço do plantel. É pouco, para quem pode contar com Rooney, Depay, Schweinsteiger, Mata e companhia.
Ainda assim, e como já disse, há vários pontos positivos que ainda me garantem uma réstia de esperança na luta pelo título 2015/16. Os reforços preteridos por Van Gaal estão a funcionar, e as suas pequenas “invenções” também. Matteo Darmian, o lateral que o técnico holandês tanto quis, cumpriu o seu dever defensivo e mostrou bons lances de ataque no meio-campo dos spurs. Foi, quase indubitavelmente, o melhor em campo. O internacional italiano mostrou-se uma boa extensão do treinador em campo, tendo Van Gaal, inclusive, afirmado que “quando precisar de pensar num jogador, é ele”.
Matteo Darmian foi dos melhores em campo Fonte: Facebook do Manchester United
Já o holandês Depay, que também havia dado boas indicações na pré-época, mostrou-se bastante proactivo nas investidas atacantes e revelou um bom entendimento com Rooney. A confirmar-se, esta será uma dupla mortífera e perigosa para as defesas adversárias. As estreias dos médios Schneiderlin e Schweinsteiger deixaram, também, um desejo de meio-campo edificado sobre estas duas torres; o United precisa de médios experientes mas rebeldes, que partilhem a ousadia do veterano Carrick ao servir os atacantes. Espero que, este ano, veja por fim um meio-campo estável, sem passes errados e com transições ofensivas certeiras.
Quanto às criações de Van Gaal, protagonismo para uma. O técnico colocou o habitual lateral Blind na posição de defesa central. Assumindo uma colocação que lhe é estranha, o holandês mostrou-se seguro e não cometeu erros. Van Gaal tenta assim solucionar um problema que já advém de outras épocas: a falta de centrais de raiz.
Sem ser reforço, nota muito positiva para o jovem central Chris Smalling. O jogador realizou uma exibição sem erros, tendo garantido a vitória da sua equipa através dos inúmeros roubos de bola que conseguiu, na fase mais sufocante do Tottenham.
A polémica na baliza continua, tendo sido o recém-contratado Romero a ganhar a titularidade. Na bancada, Victor Valdés, David De Gea e Lindegaard observavam a partida. Rio Ferdinand disse esta semana que o clube “pode esquecer os títulos” se efectivar a transferência de De Gea. Uma novela que não tem fim à vista…
Sem ter sido brilhante (longe disso…), o Manchester United conseguiu uma importante primeira vitória na Premier League, e diz “presente” quanto à conquista do título. Segue-se o Aston Villa, no campeonato, e uma imprevisível pré-eliminatória da Champions, frente ao Club Brugge.
Um mês após o fim do torneio de Wimbledon, os melhores tenistas do mundo voltam a estar em acção no Canadá para o sexto torneio Masters 1000 da temporada. O campeão em título é Jo Wilfried Tsonga, que teve uma campanha absolutamente sensacional em 2014, batendo Djokovic (#1), Murray (#9), Dimitrov (#8) e Federer (#3) consecutivamente, com a perda de apenas um set. De então para cá, o francês tem sido fustigado por constantes lesões, que o tiraram do top 20 e o obrigarão a outra campanha heróica se quiser revalidar o título: Coric e Bautista Agut nas duas primeiras rondas e depois muito possivelmente Cilic, Murray, Nadal/Nishikori e Djokovic.
O grande favorito ao título é, sem dúvida, Djokovic, que ganhou todos os 4 Masters 1000 que disputou esta temporada e 2 dos 3 Grand Slams. O seu quadro afigura-se bastante acessível, com um Dimitrov que está a rubricar uma péssima temporada e um Berdych que o sérvio sempre dominou. Nas meias-finais, Wawrinka seria um adversário muito complicado mas o suiço é tudo menos consistente; não espantaria ninguém se víssemos Gasquet, Kyrgios ou especialmente o homem da casa, Milos Raonic, atingir as meias-finais nesta parte do quadro.
Será este o 5º masters do ano para Djokovic? Fonte: Facebook de Djokovic
Na primeira parte da metade inferior do quadro, um confronto entre Nadal e Nishikori nos quartos-de-final parece inevitável. Nadal venceu o torneio de Hamburgo em terra batida de maneira muito pouco convincente, não parecendo estar ainda de volta ao seu melhor; Nishikori venceu Washington este domingo e parece ter aqui uma oportunidade de ouro para finalmente vencer Nadal, o único jogador de topo (além de del Potro) que ainda não conseguiu levar de vencido.
Na última parte do quadro, Murray é o favorito – apesar da surpreendente derrota contra Gabashvili em Washington – mas temos vários jogadores que podem ser muito perigosos se jogarem perto do seu melhor nível: o campeão em título, Tsonga, o vencedor do US Open, Martin Cilic ou Gael Monfils… na metade superior do quadro, Djokovic é o claro favorito para chegar à final, mas a metade inferior parece bem mais aberta, com vários candidatos a chegar à final.
No que toca à participação portuguesa, João Sousa tem uma primeira ronda complicada mas longe de ser impossível contra o recente campeão de Bogota, Bernard Tomic, seguindo-se Cilic na segunda ronda em caso de vitória. Não se espera um grande resultado de João Sousa neste torneio, mas o quadro podia ter sido pior.
As identidades demoram a formar-se. É um processo normal da vida e, por isso, de uma equipa de futebol. No início, é normal que exista mais inseguranças e que a personalidade seja menos vincada. Assim foi com o Benfica da Supertaça 2015/16, em pleno processo de crescimento e transição.
Uma equipa completamente diferente da última que os adeptos tinham visto pela última vez em jogos “a doer”. Desde logo na linha defensiva, ocupada por três nomes que não eram habituais titulares na época passada e que, portanto, não “tocaram” no mesmo tom. Algo expectável, ainda para mais tendo em conta que o diapasão habitual (Luisão) não estava apto para afinar uma orquestra onde abundava o desacerto que a inexperiência traz à tona. Cenário fielmente ilustrado na permeabilidade do conjunto e na figura de um miúdo sem grande experiência nestas andanças (Nelson Semedo), e que colocou um adversário em jogo numa altura em que a ordem era para subir a linha defensiva, dando origem a um golo… mal anulado.
As coisas, até aí, (23 minutos) foram algo caóticas para o lado encarnado, nomeadamente lá atrás, mas a pouco e pouco, foi-se ganhando lampejos de segurança e estabilidade e a equipa conseguiu manter uma coesão defensiva razoável até ao final da primeira parte. Isso espalhou-se ao resto do onze, e Jonas teve o golo na cabeça por duas ocasiões, porém, o processo ofensivo, pela falta de assimilação de processos em 3×1, com Jonas sozinho na frente, embora fosse, na prática, um vagabundo, deambulando pelas alas e recuasse, amiúde, para vir buscar jogo… um esforço incompreendido pelos seus colegas e sem correspondência no talento (?) dos seus companheiros de sector, sobretudo Talisca, apagadíssimo e frequentemente desposicionado, quer na primeira fase de pressão, quer na zona de construção no meio-campo contrário.
Júlio César foi o melhor elemento do Benfica em campo Fonte: Página de Facebook do Benfica
A segunda parte começou como a primeira- com um Benfica em processo de desenvolvimento, bastante permeável na zona defensiva e sem capacidade para sair, com sucesso, do seu meio-campo. O desacerto e o desentrusamento eram evidentes, e o adversário ia crescendo…. até que marcou, num lance fortuito, e em que não se pode apontar o dedo à defesa.
O Benfica tentou responder, mas ainda precisa de ganhar roinas e assimilar processos. Pizzi entrou para o lugar de Talisca e conseguiu fazer melhor que o companheiro, introduzindo assertividade e dinâmica ao processo de criação ofensiva, mas isso, sem um último passe letal ou um disparo perigoso de fora da àrea, é inútil.
Rui Vitória ainda colocou Mitroglou (substituiu Samaris, colocando a equipa em 4x4x2) e Gonçalo Guedes (saiu Ola John) em campo. Ganharam-se mais bolas aéreas, e houve maior frescura nos flancos, mas faltava o essencial – a criatividade, a imaginação… o último passe.
O que fica deste jogo é que este Benfica está a crescer, a formar uma identidade, uma ideia de jogo, mas isso tem sido feito muito lentamente (uma pré-época cheia de viagens e num fuso horário diferente não ajudou, mas o marketing no futebol assume importância cada vez maior e um clube não se pode desviar dessa realidade).
Nestes primeiros “jogos” de vida, a águia de Rui Vitória já é uma criança, mas vai relevando atraso no desenvolvimento.
A Figura do jogo Júlio César – Sempre que foi chamado a intervir, não vacilou, exibindo-se a um nível altíssimo, tactica, posicional e tecnicamente. E não foi pouco, o trabalho que teve. Revelou-se a peça mais consistente do xadrez encarnado, e evitou que o resultado se avolumasse. No golo sofrido, nada podia fazer.
O Fora-de-jogo Talisca – Não seria a mesma coisa tê-lo ou não em campo, mas só mesmo pelo facto de o Benfica ficar em inferioridade numérica. O brasileiro esteve apagadíssimo. A dinâmica ofensiva do Benfica não foi nula durante o tempo em que ele esteve em campo, mas sê-lo-ia não fossem os rasgos de Gaitán e o sacrifício e a qualidade de Jonas.
O Sporting venceu hoje a Supertaça e, na minha opinião, a vitória nem sequer é o ponto mais positivo da noite. Os “leões” estiveram muito bem em campo, com alguns destaques, como João Mário, Naldo, Paulo Oliveira e Slimani.
O Benfica entrou mal nas duas partes, e nunca foi uma equipa perigosa no ataque. Lembro-me apenas de um cabeceamento de Jonas na primeira parte e pouco mais. No final, ainda tentaram o tradicional “chuveirinho”, mas sem sucesso. Não se pode dizer que os “verde e brancos” tenham tido mais oportunidades, mas foram sempre mais ofensivos e o jogo foi mais jogado no meio campo “encarnado” do que no leonino.
Apesar de se apresentar sem William Carvalho, o Sporting esteve muito bem, com Adrien e João Mário a não sentirem problemas perante Talisca (será que ele soube que o jogo era no Algarve?) e Samaris. Islam Slimani fez um jogo fantástico, em que faltou apenas a cereja no topo do bolo, diga-se, o golo. O argelino comanda os colegas nos momentos de pressionar a defensiva contrária, corre por todo o lado e até já sabe jogar bem com os pés, coisa que não acontecia quando cá chegou. Muito mérito também para Leonardo Jardim e Marco Silva, que não devem ser esquecidos neste momento. Em suma, Slimani foi um quebra-cabeças constante para os dois centrais sul-americanos do Benfica, ao contrário de Teo Gutiérrez que, ainda assim, foi o homem-golo da partida. O colombiano marcou um golo limpo na primeira parte (mais uma vez aconteceram “coisas esquisitas” no Estádio Algarve entre Benfica e Sporting) e desviou o remate de André Carrillo, que só parou no fundo das redes. Contudo, Gutiérrez parece ainda um pouco preso de movimentos, não tendo ganho um “sprint” a Jardel e a Lisandro López, que foi um dos melhores na equipa do Benfica.
Nas alas, Bryan Ruiz e Carrillo estiveram bem na circulação de bola e nas movimentações em frente da grande área benfiquista, mas, naturalmente, estarão a um nível ainda mais alto com o decorrer da temporada. Para já, as movimentações e trocas posicionais perto da linha defensiva adversária fazem crescer água na boca dos sportinguistas. Prova disso é o golo que foi válido, e que nasceu de uma incursão de “La Culebra” no espaço deixado entre Fejsa e a dupla de centrais do Benfica. No meio campo, como já disse, Adrien esteve muito bem a nível defensivo, mas João Mário é que fez um jogo monstruoso. Receção e controlo de bola, visão de jogo, maturidade, inteligência na posse de bola foram predicados mostrados com grande classe pelo jovem formado em Alvalade.
Bryan protagonizou uma exibição repleta de inteligência Fonte: fpf.pt
A nível defensivo, Naldo e Paulo Oliveira estiveram gigantes, tanto na marcação a Jonas e Mitroglou, como nas “dobras” aos companheiros quando estes eram ultrapassados pela velocidade de Ola John ou pela magia de Gaitán. Pelo que vimos até agora, estão resolvidos os problemas na defesa do Sporting, que tanto atormentaram o clube na época passada. Continuo a acreditar plenamente que, se houver justiça, Paulo Oliveira terminará a época em França, no Europeu com a seleção portuguesa. Jefferson, sempre em alta rotação e com cruzamentos venenosos, é garantia de qualidade e João Pereira, apesar de ainda não estar na melhor forma física, também não nos deixou ficar mal hoje.
Em relação ao Benfica, penso que faltam soluções, principalmente para as alas, tanto a nível defensivo como ofensivo. Nélson Semedo não comprometeu mas não é solução para agarrar desde já a titularidade e Sílvio mostrou alguma fadiga e falta de concentração. Se tivesse sido João Pereira a ter cartão amarelo e pisar Slimani como fez Sílvio no início da segunda parte, seria um escândalo… No ataque, Ola John até esteve bem, mas quando o holandês é titular e Gonçalo Guedes é a primeira opção que sai do banco para aquele lugar, alguma coisa está errada nas “águias”.
A equipa de arbitragem falhou, principalmente em três lances. O golo mal anulado a Gutiérrez, a expulsão perdoada a Sílvio e um penálti claríssimo a favor do Benfica, cometido por Carrillo sobre Gaitán, que também não percebo como Jorge Sousa não assinalou.
O Sporting mostrou já ter as garras bem afiadas neste princípio de época, onde poderá efetivamente lutar por títulos. Carlos Mané (que entrou bem na partida, com alguns dos seus raides característicos), Alberto Aquilani, William Carvalho, Ewerton ou Fredy Montero são elementos que também acrescentarão qualidade e competitividade ao onze preferido de Jesus no início de época. Afinal de contas, está aí também o início do campeonato e o “play-off” da Liga dos Campeões contra o CSKA Moscovo.
Nota final para Jorge Jesus: continua a ser demasiado vaidoso e até “gabarolas” nas vitórias, coisa que lhe poderá sair cara numa altura mais adiantada da época. Está a trabalhar muito bem a nível técnico, mas deverá ser mais contido a nível de discurso, apesar de manter este polémico e duvidoso estilo de há seis anos para cá.
A Figura Slimani – Já o disse acima, mas repito: Slimani está feito um jogador de alto gabarito. Já o tinha visto nas bancadas de Alvalade frente à Roma, e novamente hoje. O argelino corre, serve, é a verdadeira referência atacante dos “leões”. Até já faz assistência de calcanhar… A luta pela titularidade só poderá ser entre Fredy Montero e Teo Cutiérrez, porque Slimani, a jogar assim, é intocável.
O Fora-de-Jogo Luís Filipe Vieira – Poderá ser estranho colocar aqui o presidente do Benfica, mas Rui Vitória não tem as mesmas soluções que os seus antecessores tiveram, como Vieira tinha prometido. O plantel está notoriamente mais fraco e Rui Vitória terá tarefa mais difícil. Este é um duro golpe em Luís Filipe Vieira e na estrutura “encarnada”.
Foto de capa: Página de Facebook do Sporting Clube de Portugal
Depois de quase dois meses sem partilhar a minha opinião sobre o estado das coisas futebolísticas, assim regresso a este meu espaço no Bola na Rede. Nova época e novos desafios surgem, com a promessa dita por quase todos de que esta será uma das temporadas mais interessantes a nível competitivo no nosso futebol. Como não poderia deixar de ser – e creio que neste ponto estarão de acordo comigo – as últimas semanas têm demonstrado aquilo que é o típico “defeso”: rumores e mais rumores; contratações e mais contratações; vendas e mais vendas. Umas supostas, outras possíveis e outras concretizadas. Assim se faz a história do futebol e do mercado de verão por esta altura, sendo que em Portugal a situação não é diferente.
No que a esta “silly season” diz respeito, obviamente que o campeonato nacional não poderia ter começado de melhor forma: na 2ª circular, o todo poderoso Jesus decidiu abandonar a casa onde tinha feito história durante seis anos. De forma inesperada ou nem tanto, o rival Sporting recebia um dos melhores treinadores portugueses da atualidade. Assim se mudam os protagonistas das histórias que fazem o nosso campeonato. No Benfica, veio da cidade onde nasceu Portugal o treinador que promete continuar a colocar o bicampeão nacional no trilho das conquistas. Rui Vitória, um homem que em Guimarães fez omeletes sem ovos e que agora se perceberá se tem mãos para os ovos que Luís Filipe Vieira lhe prometeu. Em Alvalade, o “efeito Jesus” passa pelos jornais, pelas redes sociais, pelas conversas de café e pelos estados de ânimo que nunca foram tão exacerbados para a massa adepta leonina. Afinal de contas, o todo poderoso Jesus veio ali parar depois de seis anos a provocar desgostos no seu clube de sempre. De forma inesperada, parecia que com a mudança de Jesus o defeso tinha lançado para a mesa a sua melhor carta. Nada disso, pois a notícia da mudança do técnico para Alvalade foi apenas o primeiro capítulo de um livro que tem sido rescrito diariamente pelos jornais, televisões e rádios.
Contudo, e como este espaço de opinião aponta mais para a atualidade portista, não poderia pois, no meu regresso ao “Eterna Mocidade” deixar de analisar o que tem sido a pré-temporada portista. Mais do que falar dos resultados – que valem o que valem – parece-me importante refletir sobre as entradas e saídas do plantel que claramente sofreu mais alterações quando comparado com o dos dois rivais. Talvez por isso, seja eu, entre os portistas, um dos poucos que não me tenho deixado iludir com as “luzes da ribalta” que parece terem pairado sobre a nação portista. Aliás, como analista atento, não deixo de achar curioso tudo aquilo que tenho lido e ouvido sobre a época que se avizinha. Durante os últimos dois meses, existe um denominador comum quando se fala sobre o FC Porto: a necessidade obrigatória de ganhar, sob pena de ver um terceiro campeonato consecutivo fugir das mãos. É óbvio, e importante não esquecer, que o FC Porto tem construído um legado recente que faz com que um interregno de dois anos sem vencer o título nacional seja um escândalo a que a esmagadora maioria dos adeptos portistas não está habituada. Talvez por isso, em toda e qualquer análise que se faça ao plantel de Julen Lopetegui está lá sempre presente a premissa de que, com aqueles jogadores, o treinador espanhol tem obrigação de ganhar.
Casillas é uma das principais figuras do novo FC Porto Fonte: footazo.com
Todas estas declarações de intenção feita por portistas é algo que me intriga. Bem sei que a pré época é aquela fase em que diariamente nos enchem os ouvidos com rumores de entradas no plantel e desconfianças de saídas que ninguém quer que sejam verdade. Basta olhar para as novelas Lucas Lima ou Alex Sandro para perceber do que falo. Numa fase da temporada onde o futebol jogado praticamente não existe quando comparado com o “futebol falado”, é a realidade dos rumores que se sobrepõe a tudo e que faz com que, muitas vezes para os adeptos, a ilusão acabe por se superiorizar a uma realidade que deve ser analisada. Chego a este ponto pois creio que é disso que falamos quando nos referimos ao plantel atual do FC Porto. Ao longo das últimas semanas, tenho lido inúmeras opiniões de que os portistas têm uma forte vantagem para com os dois principais rivais lisboetas. Essa é uma visão que se centra sobretudo do facto da equipa manter o seu treinador – algo que Benfica e Sporting não fazem – e na “suposta” qualidade superior que este plantel tem quando comparado com os adversários.
Relativamente a estes dois fatores, creio que no caso da premissa do treinador ela é, porventura, a mais válida. Apesar de Jorge Jesus e Rui Vitória serem já profundos conhecedores do futebol português – bem mais do que Lopetegui – a mudança de realidades, sobretudo no caso de Vitória, acaba sempre por ter alguns efeitos. Aliás, basta ler a entrevista de Jorge Jesus de antecipação à Supertaça para perceber as inúmeras dificuldades que supostamente ele enfrenta no novo desafio em Alvalade. Afinal de contas, Jesus tem agora que mudar a realidade no futebol leonino, como se o passado de Leonardo Jardim e Marco Silva não tivessem existido e como se só agora o Sporting tivesse “acordado” para a realidade. No Benfica, e de acordo com o mesmo Jorge Jesus, nada mudou: o esquema tático, o modelo de jogo, as bolas paradas defensivas e ofensivas; tudo é igual com Rui Vitória. De acordo com o treinador sportinguista, só falta na Luz uma coisa: o seu cérebro. Tenha sido falta de elegância ou a arrogância desmesurada que tão bem carateriza Jesus, porventura o técnico leonino tocou naquela ferida que levanta uma das questões mais pertinentes para o início da nova época: como será o Benfica sem Jesus? Será que finalmente iremos perceber se foi a estrutura do Benfica que fez mais por Jesus ou Jesus a fazer mais pela estrutura do Benfica?
Tudo resumido, parece-me óbvio que é num espírito de poker que a nova temporada se inicia. Refiro-me ao poker pois este “all-in” em que os três grandes entram para a época que começa acaba por ser a primeira pedra na engrenagem daqueles que acham que o FC Porto está absolutamente obrigado a ganhar o campeonato. Como adepto exigente, é óbvio que os portistas têm a obrigação de ganhar. Mas essa é uma premissa que não é de hoje, até porque a história do clube a assim o obriga. E se em relação à questão dos treinadores estamos conversados – assim Lopetegui tenha aprendido com os erros -, a outra falácia que se conta é a do “todo poderoso” plantel portista. Bom, a última temporada trouxe um novo paradigma à realidade portista: sem meias medidas, percebeu-se que Lopetegui procurou, desde cedo, funcionar como um verdadeiro manager no que a contratações diz respeito. Basta aliás olhar para o plantel da época transata para perceber que, como não poderia deixar de ser, muitos dos nomes que ali pairavam tinham o dedo de Lopetegui. Ainda assim, com um dos melhores plantéis da história portista, o treinador espanhol não conseguiu ser campeão. Por muitos erros próprios e por algumas interferências alheias, a verdade é que o principal objetivo portista não foi conseguido. Para alguns, e tendo em conta o investimento que se havia feito, a saída de Lopetegui era um ato natural. Pinto da Costa teve opinião contrária e acabou por não deixar cair uma das opções mais pessoais que teve enquanto presidente do clube.
Lopetegui terá esta temporada um teste de fogo Fonte: desporto.sapo.pt
A questão, e é tudo menos um pormenor, prende-se então com as armas que o treinador espanhol terá ao seu dispor para a nova época. Assim de uma assentada, rapidamente se chega à conclusão de que “revolução” é porventura o melhor termo para caraterizar o plantel portista. Do onze base da época passada, saíram nada mais nada menos que cinco titulares: Fabiano, Danilo, Casemiro, Oliver Torres e Jackson Martinez. Meia equipa titular abandonou o Dragão, fazendo do reforço do plantel uma obrigação imediata tais são os desafios com que a equipa de depara. No que a entradas diz respeito, já foram dez, entre regressos à casa mãe, contratações a custo zero e outras oportunidades de negócio inesperadas e tão bem aproveitadas. Contudo – mais do que analisar o “efeito Casillas” ao nível da publicidade que o clube terá no estrangeiro ou a contratação milionária de Imbula – aquilo que me parece realmente importante de ser analisado é o estado atual do plantel.
Relativamente a este ponto, e apesar de considerar que contratações como as de Casillas, Maxi, Danilo Pereira, Imbula, Sérgio Oliveira e Osvaldo serão muito boas mais valias ao longo da época, a verdade é que me parece óbvio que o FC Porto, tal como os dois rivais, parte quase do zero para a nova temporada. Apesar de manter o treinador e as rotinas que com ele estão já na equipa, não é possível dissociar a falta e a importância que nomes como os de Danilo, Oliver ou Jackson tiveram na última época portista. De forma simples, estes eram os jogadores de “nível acrescentado”, que davam à equipa um nível superior e que desbloqueavam jogos com a qualidade inegável que demonstravam. Apesar de considerar Maxi um jogador interessante para a realidade portuguesa, ele não tem nem nunca terá a qualidade de Danilo. Apesar de considerar Osvaldo e Aboubakar dois avançados de bom nível, nenhum deles sequer se aproxima da qualidade de Jackson Martinez. Bem sei que encontrar jogadores com a qualidade dos internacionais brasileiro e colombiano não é uma tarefa fácil. Também por isso é que não deixo de achar engraçadas todas aquelas falácias que apontam o FC Porto como o candidato mais forte à conquista do título nacional.
Desculpem-me os portistas mas, apesar de achar o plantel portista um plantel com qualidade – falta ainda um médio criativo e um central – a verdade é que, olhando para o plantel atual, não vejo essa “inegável” superioridade que todos veem. Digo isto não por desconfiar das contratações desta época mas sim por ver a diferença para com os jogadores que saíram. A meu ver, e oxalá eu esteja enganado, na diferença entre o deve e o haver, o FC Porto fica claramente a perder. E isto não por culpa da direção portista mas sim pelas leis do mercado que obrigam a deixar sair os melhores. Dito isto, parece-me óbvio que, por todas as condicionantes que cada um dos três grandes tem, nenhum sai à frente dos outros para o arranque da temporada. Seja pela mudança de treinador, pela mudança de estilo ou pela mudança de plantel, todos eles têm virtudes e defeitos antes do início da nova temporada. Por isso, espero que as “luzes da ribalta” que pairaram sobre alguns portistas acalmem e que acordem para a realidade dos factos. A realidade que demonstra que o FC Porto perdeu muitos titulares e que por isso precisa de refazer uma equipa. Lopetegui já o disse e creio ser importante que os adeptos também o percebam. É que, por muito que ver Casillas ou Imbula aterrarem no Dragão seja um motivo de histeria geral, isso não apaga a necessidade de criar uma equipa quase do zero. E isto não é arranjar desculpas prévias para uma possível fracasso. É ser realista, algo que falta e muito às mentes dos adeptos por alturas de pré época.
Não há como fugir. Um Benfica-Sporting é um Benfica-Sporting. Em Lisboa, no Algarve e em qualquer sítio do planeta com relva, duas balizas e adeptos. Muito menos pode haver conversa fiada. Um Benfica-Sporting eleva a rivalidade para patamares que só benfiquistas e sportinguistas conhecem: há familiares que se zangam, amigos que dizem mais do que deviam, há gozo e sobranceria durante semanas a fio. A ideia de que “é só um jogo”, de que é um troféu com relativa importância – muita para quem o ganha, pouca para quem o vê fugir, é claro – não tem qualquer cabimento aqui.
A travessia da 2.ª Circular feita por Jorge Jesus tem, para além de muitas outras consequências, o condão de fazer efervescer de novo o eterno dérbi lisboeta. Muito por culpa do salto competitivo do Benfica nos últimos anos (para o qual o agora treinador do Sporting muito contribuiu), o qual o clube de Alvalade não conseguiu acompanhar, o ódio e a guerra do Benfica-Porto tomaram conta do primeiro plano no futebol por cá. De há uns anos para cá, regra geral, um Benfica-Sporting, não sendo apenas mais um jogo, era como que uma formalidade para confirmar a evidente superioridade do vermelho sobre o verde.
As atenções estão viradas para estes dois homens Fonte: Facebook do Benfica
Analisando todo o contexto, o jogo de hoje reveste-se de capital importância para os dois lados. O balão de confiança e arrogância com que Jorge Jesus e o Sporting aqui chegam pode ser esvaziado se forem para casa de mãos a abanar. Não admira esta postura, já que é exactamente a mesma que muitos reparos merecera durante a sua estadia na Luz. Muito menos admira o balão de confiança e boa-disposição que navega pela atmosfera do leão. A pré-época é, de há tempos para cá, a única altura do ano em que os sportinguistas podem fazer planos a longo prazo de maravilhosas e tituladas épocas.
A ilusão da pré-época costuma estender-se até ao Natal e a partir daí acabou e até para o ano. Acreditam os sportinguistas que com Jorge Jesus será forçosamente diferente. Eu também acredito. Sempre fui confesso fã do treinador bicampeão nacional e não duvido de que será capaz de colocar o Sporting a lutar novamente por títulos. O sangue que Jesus quis trazer para o jogo através do vital órgão do ser humano não teve resposta. E ainda bem. Além da deselegância para com Rui Vitória, também Marco Silva entra nesta equação. Se Jesus diz que mudou tudo desde a sua chegada a Alvalade é porque tudo o que Marco Silva construiu estava errado. E não me parece que as coisas sejam bem assim.
Rui Vitória chega aqui algo fragilizado. A frouxa imagem que o Benfica deixou na digressão americanizada não traz a confiança que um jogo desta dimensão sempre requer. Há as desculpas do clima, da altitude, das reduzidas condições de treino. Das baixas de Maxi, de Salvio e de Lima. Tudo isso se aceita, sim. Não se aceita é que fazer cinco passes seguidos tenha sido tarefa hercúlea em grande parte dos jogos de preparação. Principalmente numa equipa estruturada – e bem – ao longo de várias épocas. No entanto, lembremo-nos, pois, de que, hoje por hoje, é o Benfica que é bicampeão nacional e a mais forte equipa portuguesa.
Pelo que deu hoje a parecer, o discurso desgarrado e assente em lugares-comuns foi deixado para trás para assumir uma postura mais agressiva e directa. Positivamente agressiva, claro. Deixar Jesus a falar sozinho foi o melhor que o treinador do Benfica podia ter feito. Veremos com que efeitos em campo. Porque é aí que os Benfica-Sporting se jogaram, se jogam e se jogarão eternamente.
Foto de capa: Página de facebook “Ontem vi-te no Estádio da Luz”