Ao longo da história do futebol português, foram muitos os jogadores brasileiros, muitos dos quais internacionais, a fazer história no nosso campeonato e nos respectivos clubes. Foi muito difícil escolher os onze melhores, mas farei aqui um onze dos melhores brasileiros que jogaram no futebol português.
O futebol holandês tem a tradição de produzir grandes pérola futebolísticas, e Robin van Persie merece um lugar de destaque no passado recente como um dos melhores avançados deste século. O ponta de lança decidiu colocar um ponto final na sua carreira logo após o término da época transata.
Robin van Persie tem todas as características de um ponta de lança de elite: ótimo posicionamento, grande sentido de oportunidade, letal dentro da grande área adversária e bastante competência no cabeceamento e com ambos os pés, apesar de se destacar o pé esquerdo.
Frequentou a academia do SBV Excelsior e posteriormente mudou-se para Feyenoord, de modo a completar a sua formação. Curiosamente, foi no emblema de Roterdão onde iniciou e encerrou a sua carreira como futebolista profissional. Na sua primeira época na equipa principal do emblema holandês, com apenas 18 anos, foi vencedor da Taça UEFA (atual Liga Europa), realizando 17 jogos, mas sem marcar qualquer tento. A temporada que se seguiu foi de afirmação para van Persie, alcançando a marca dos 15 golos em 28 partidas disputadas. Números fantásticos tendo em conta a idade do avançado holandês.
Na época 2004/2005 deu um grande salto na sua carreira, transferindo-se para o Arsenal FC. Tornou-se uma das grandes figuras dos “Gunners” nas oito épocas que representou o emblema do norte de Londres. Em 278 jogos realizados pelo Arsenal, colocou a bola no fundo das redes por 132 ocasiões e ainda realizou 55 assistências para golo. Além dos magníficos números que o tornaram uma das principais referências ofensivas da Europa, conquistou uma Taça de Inglaterra (2005) e duas Supertaças inglesas (2004 e 2005). Na sua última época pelos “Gunners”, foi o melhor marcador da principal liga inglesa com 30 golos marcados e, desta forma, captou o interesse do Manchester United FC.
No verão de 2012, van Persie transferiu-se para Manchester por cerca de 30,7 milhões de euros, provocando um sentimento de amargura nos adeptos do Arsenal, que o consideravam um símbolo do clube. Na sua primeira temporada ao serviço dos “Red Devils” renovou o estatuto de melhor marcado do principal escalão do futebol inglês, com 26 golos marcados, ajudando a sua equipa a vencer o campeonato.
Ao fim de três épocas ao serviço do Manchester United, adquirindo mais uma Supertaça de Inglaterra para o seu palmarés, mudou-se para a Turquia, mais precisamente para o Fenerbahçe SK. Depois de duas temporadas e meia a representar o emblema turco, voltou ao clube no qual despontou para o mundo do futebol. Em 2018/2019, despediu-se dos relvados, depois de mais uma época fantástica, colocando o seu nome no marcador por 18 vezes em 31 partidas. Na fase final da sua carreira, ainda venceu a taça e a supertaça da Holanda pelo Feyenoord, além de ter envergado a braçadeira do clube.
Ao serviço da seleção holandesa, foi internacional por 102 ocasiões e alcançou a marca exata dos 50 golos. Foi figura regular do ataque holandês durante vários anos, participando em três campeonatos do Mundo e dois Campeonatos de Europa. O maior feito pela sua seleção foi o segundo lugar no Mundial de 2010, na África do Sul.
É considerado por muitos um dos melhores avançados da sua geração, sendo que os seu números e palmarés justificam isso mesmo. Deixou a sua marca, não só no futebol holandês, mas também em Inglaterra, e certamente serve como exemplo para muitos jovens pontas de lança da atualidade. Neste momento, van Persie pertence à equipa técnica do Feyenoord.
Agora que se avizinha o tão desejado regresso da Primeira Liga e, com ela, mais momentos de “magia” dos jogadores na altura de endereçar a bola para o fundo das redes, podemos recordar aqueles que foram, provavelmente, os melhores golos do campeonato até à sua suspensão na 24ª jornada.
Numa análise mais superficial, teremos sempre tendência para avaliar da melhor forma os golos mais bonitos, aqueles que nos deixaram literalmente de boca aberta ao olhar para o ecrã ou quando os assistimos no estádio. Contudo, tentamos também ter em conta o momento do jogo quando se dá esse remate certeiro, o contexto da partida e a jogada em si. De forma a tentar ser os mais justos possível nesta avaliação, excluímos os golos marcados por jogadores dos “três grandes”.
Na verdade, foram vários os golos dignos de registo, mas decidimos por aqueles que mais se destacaram para pertencer a este Top:
O treinador é um promotor de atividades com grupos de praticantes recorrendo, fundamentalmente, à construção das unidades de treino, suportando-se na Teoria e Metodologia do Treino e à condução destas sessões, praticando o que foi planeado, interagindo diretamente com os seus atletas baseando-se, então, na Pedagogia.
Desta forma, sabemos que o treinador tem um papel essencial, obviamente, no planeamento e na estruturação das competências técnicas e táticas e, das atitudes e comportamentos a “propor” ao grupo com que interage, visando exercer uma ação persuasiva que fomente, nos praticantes, vontade para alterar competências técnicas e sociais.
Esta intervenção é eficaz se o treinador evidenciar competência e esta for reconhecida e identificada, primeiro que tudo, pelos praticantes. É aqui que surge o comportamento reflexivo, o hábito criado de regularmente haver uma autoavaliação, por parte do treinador, no que se refere às suas práticas e aos seus valores. E é disso mesmo que vamos falar hoje na nossa rúbrica de Jogo Interior.
Esta “ferramenta” é determinante para identificar pontos fortes e fracos, desvios e acertos no desenvolvimento da sua função com o intuito de melhorar e aumentar a competência do treinador. É, também, através do comportamento reflexivo que o treinador de futebol, ou de qualquer outra modalidade, garante e estrutura o seu próprio progresso e evolução.
Desenvolver este comportamento permite que o treinador avalie a sua própria prática e, assim, promova o seu desenvolvimento, que se repercute, invariavelmente, na qualidade das suas práticas, unidades e sessões de treino, e no desenvolvimentos dos praticantes a todos os níveis. O treinador consegue, assim, encontrar e desenvolver meios e competências para identificar o grau de eficácia das estratégias de intervenção utilizadas no treino e na competição, corrigindo-as se forem inadequadas.
Considero esta capacidade de auto-observação e introspeção essencial para o sucesso de um treinador, é uma necessidade constante, mas é transferível para qualquer área profissional e para além deste território. Um médico deve estar constantemente atento e deve refletir sobre as suas ações, sobre as suas prescrições, sobre a sua forma de comunicar com as pessoas, faz parte do seu trabalho se quiser ser competente no exercício da sua função. Numa relação familiar, amorosa ou de amizade, devemos também ter este comportamento reflexivo, perceber se estamos a abordar a outra pessoa da melhor forma, se a nossa postura é a correta a fim de perceber se somos “competentes” na relação que pretendemos manter, se a quisermos manter.
Qualquer treinador realiza, permanentemente, uma avaliação do seu desempenho, das suas decisões e intervenções, e com a experiência e o treino esta capacidade de autoavaliação em tempo real é aprimorada. Ainda assim, e tendo em conta que os treinadores menos experientes poderão perder muitas informações importantes, estes profissionais devem complementar a sua autoavaliação com uma espécie de auto avaliação à posteriori, onde recorrem à sua memória para preencherem tabelas ou listas que permitam verificar o sucesso das suas intervenções, das suas decisões e escolhas.
Tudo isto, da Primeira Liga aos patamares mais amadores, é fundamental para que o treinador se desenvolva e melhore a sua intervenção, perceba que erros está a cometer, que estratégias estão a resultar e a ter efeitos positivos e que outras não tanto, sabendo que existe influência direta deste comportamento reflexivo sobre a competência demonstrada, competência esta que é percebida pelos praticantes e atletas que tem à sua frente e que são os principais “objetos de mudança”, sendo aqueles que mais sofrem com a qualidade ou não das práticas executadas.
Mais uma vez, a WWE voltou a impressionar. O conceito de ter os dois combates Money in the Bank a ocorrerem em simultâneo e nos escritórios da WWE parecia, ao início, descabido, mas foi o ponto alto da noite.
Para além disso, os dois combates pelos títulos principais superaram as expectativas, assim como todo o evento. É bom saber que, nestes tempos, a WWE sabe como entreter os seus fãs.
Na semana passada, tanto o próprio Óliver como Sérgio Conceição vieram a público abordar a saída do médio espanhol do FC Porto. De recordar que o ex-FC Porto abandonou os azuis e brancos, no último verão, e foi para o Sevilha FC, a troco de 12 milhões de euros. Esta foi uma mudança que deixou os adeptos dos dragões divididos, já que uma parte considerava o futebolista um dos atletas mais talentosos da formação nortenha, enquanto que outro grupo se conformou com a transferência, uma vez que Óliver nunca atingiu o potencial perspetivado aquando da sua chegada. Todavia, numa coisa concordavam, que foi no facto da sua venda se ter fixado num valor baixo, tendo em conta a idade do jogador e do cartel que merece em Espanha, devido ao que prometia nas camadas jovens.
Durante a sua estadia no Dragão, o médio andaluz foi sempre dos atletas mais acarinhados pelos adeptos, devido à classe e à elegância que espelhava no seu jogo. Neste seguimento, Conceição, atendendo às caraterísticas que incute nas suas formações, ou seja, um futebol mais físico e mais direito, foi sempre acusado de não conseguir rentabilizar e aproveitar os maiores benefícios que o jovem espanhol podia dar à equipa. Todavia, nada fazia prever a sua saída e pode-se mesmo dizer que foi uma surpresa, já que não existiram quase noticias até à confirmação da transferência.
Quase um ano após o sucedido, este assunto ainda traz à baila muitas opiniões contraditórias, no entanto, esta semana ganhou um novo fôlego, já que Sérgio Conceição e Óliver Torres vieram comentar a sua ida para a Andaluzia. Por um lado, o internacional sub-21 por Espanha, em entrevista ao jornal “A Marca”, relatou que estava muito feliz e acomodado em Portugal, e que se preparava para mais uma temporada de dragão ao peito, contudo esta oportunidade apareceu do nada e o médio achou que seria uma forma de revitalizar a carreira, além de que ia encontrar um treinador que conhece muito bem. Também não deixou de dizer que os momentos que antecederam a sua despedida da cidade do Porto foram duros e que acabou a chorar na Ponte Luiz I, ao recordar todos os acontecimentos vividos. Por outro lado, Sérgio Conceição, na sua participação no podcast “FC Porto em casa”, concedeu os seus pontos de vista salientando que contava com o jogador, mas que Óliver andava desesperado para sair, revelando que andou “uma semana com a lágrima no canto do olho a pedir para sair”, palavras suas. Adiantou ainda que os dragões nada podiam fazer, já que o centro campista só tinha mais uma época de ligação aos azuis e brancos e a margem de negociação era muito reduzida.
Como se pode constatar são declarações que parecem ter sentido inverso e que ressalvam ainda mais a dúvida sobre esta situações. A verdade é que Óliver já ia para a sua quarta temporada ao serviço do FC Porto e parecia estar um pouco estagnado no plantel de Sérgio Conceição, que parecia que não via mais do que um simples jogador de rotação no talento espanhol. Sendo assim, quando o jogador soube dos dirigentes andaluzes, é natural que tenha despertado em si um sentimento que podia relançar a sua carreira. Algo que, até agora, parece ter sido a decisão mais acertada, uma vez que está a realizar uma época positiva no meio campo do terceiro classificado do campeonato vizinho, juntando as assistências a golos, já são 3, exibições ao nível do seu futebol. Por cá, fica a sensação que podia ter sido muito mais, mas o seu carinho pelo clube não passa despercebido e por isso o FC Porto será sempre a sua casa.
Andreas Samaris é um jogador à SL Benfica. Chegou à Luz em 2014, proveniente do Olympiacos FC, por uma verba a rondar os dez milhões de euros e depressa se tornou numa figura importante no universo encarnado.
Em apenas seis meses, tornou-se num dos jogadores mais queridos pelos adeptos, ao demonstrar uma enorme capacidade para aprender a língua de Camões, assim como uma grande vontade de mergulhar na cultura deste nosso pequeno país à beira mar plantado. E se fora de campo ia ganhando pontos junto dos benfiquistas, dentro de campo as coisas corriam-lhe igualmente bem.
Na sua época de estreia em Portugal somou 37 jogos ao serviço das “águias”, assumindo-se como o patrão do meio campo do SL Benfica bicampeão de Jorge Jesus.
No entanto, a situação do grego iria mudar drasticamente nas épocas seguintes. Com a entrada de Rui Vitória, o internacional helénico perdeu espaço no plano de jogo dos encarnados, sendo relegado para um papel secundário. Durante as três épocas e meia de Rui Vitória ao serviço do SL Benfica, Andreas somou apenas 5794 minutos de competição.
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede
Apesar de não ser uma aposta regular para o técnico ribatejano, Samaris nunca perdeu o empenho e a sua atitude foi sempre elogiada pelos restantes colegas de equipa, tornando-se numa referência quer para os colegas, quer para os adeptos. Com a entrada de Bruno Lage na equipa, o grego ganhou um novo fôlego e, aos poucos, foi conquistando um lugar no onze encarnado, tendo sido uma peça fundamental para a conquista do 37º campeonato nacional, na temporada passada.
Na presente época, e após desperdiçar uma vantagem de sete pontos para o FC Porto, o grego voltou a mostrar a sua importância no núcleo das “águias”. Depois de não ser utilizado com regularidade na primeira metade da temporada, Bruno Lage chamou Samaris para as últimas partidas, numa tentativa de estabilizar o setor intermediário da equipa.
Apesar de não envergar a braçadeira de capitão, Andreas Samaris é uma das principais vozes de comando do SL Benfica. Numa altura em que o campeonato vai recomeçar, após dois meses de interrupção, devido à pandemia de COVID-19, a liderança do internacional helvético poderá ser fulcral para que as “águias” alcancem o 38º campeonato nacional e, porventura, a 27ª Taça de Portugal da sua história.
É certo e sabido que todos os adeptos leoninos têm um orgulho tremendo na formação. Outrora fosse ela a melhor formação de futebol em Portugal, atualmente não podemos afirmar isso. E, com isso, será que se perdeu também esse orgulho? Essa motivação de dizer de peito cheio de que temos a melhor formação e jogadores a dar cartas a nível nacional e internacional? Eu penso que sim.
É também certo e sabido que o Sporting CP deixou de fornecer vários jogadores às diversas equipas nacionais de futebol. Podemos recuar no tempo, onde eram vários os jogadores que figuravam na Seleção que ainda estavam a representar o Sporting CP. Nesse capítulo, podemos recuar até ao último jogo de Portugal e verificar apenas Bruno Fernandes nos eleitos, sendo que, neste momento, até já nem representa as cores leoninas. É verdade que há ainda alguns jogadores com passagem pela formação leonina, mas vamos colocar as coisas por dois prismas diferentes: os que estão numa fase terminal de carreira, como é o caso de Cristiano Ronaldo, Rui Patrício ou até João Moutinho; e, por outro lado, jogadores mais jovens e que nem sempre são presenças assíduas como é o caso de Rúben Semedo, Domingos Duarte, João Mário ou até mesmo Gelson Martins. Será que é por falta de qualidade? Não sei. Eu não tenho dúvidas de que João Mário ou até Rúben Semedo têm qualidade, mas será que no contexto atual têm qualidade para superar quem são as primeiras escolhas? Não sei. A verdade, e para mim o ponto chave desta pequena reflexão, é que os jovens jogadores que vão surgindo na equipa principal (e alguns ainda em equipas mais jovens) têm todos passagens por outros clubes, como é o caso do FC Porto e do SL Benfica.
A verdade é que ao longo dos anos, a formação leonina foi esquecida e deixada de parte, procurando investir tudo na equipa principal em busca de um desejado título que não surgiu. Com isto, os principais rivais fizeram o inverso. Com maior estabilidade e com maior consistência na conquista de títulos, investiram na formação. Com melhores instalações e com maior capacidade para atrair novos jovens talentos, sendo que conseguem crescer nessa estabilidade de resultados profissionais, mas também crescer num ritmo competitivo completamente diferente. Por exemplo, o SL Benfica conseguiu nos últimos anos transportar vários jogadores das camadas jovens até à equipa principal e para além de serem mais valias e apostas regulares, permitiram não só resultados dentro de campo, como resultados a nível financeiro.
Pedro Mendes e Tomás Silva são dois dos destaques da equipa sub-23 Fonte: Sporting CP
Pegando nisto e trazendo para o contexto leonino: o Sporting CP cometeu um erro gravíssimo ao terminar com a equipa B. A competitividade que se faz sentir no segundo escalão nacional é de longe muito superior ao que se faz sentir na Liga Revelação de sub-23. Isto, na minha opinião, é queimar uma etapa e um processo de aprendizagem e de formação. Podemos pegar num exemplo: Eduardo Quaresma. Visto por muitos como uma nova pérola da formação. Apresenta qualidades técnicas, mentais e físicas acima da média, não tenho também qualquer dúvida disso. Mas transportando (novamente) para o outro lado da equação, se estivesse neste momento a jogar na equipa principal (sendo que as opções neste momento não são muito melhores) ou até numa Segunda Liga, não estaria por sua vez a potenciar não só a sua capacidade atual como a capacidade futura? Não existe aqui um prejuízo no seu desenvolvimento? Agora transportemos novamente este exemplo para uma escala global na Academia de Alcochete. Quantos jovens estão na mesma situação?
Frederico Varandas recentemente deu uma entrevista onde afirmou que estão seis jovens já na equipa principal e que o atual contexto de pandemia obriga a uma maior aposta na formação. Nisto eu concordo e não tenho qualquer dúvida. Mas não é preciso uma pandemia para conseguir perceber de que é necessário uma urgente aposta na formação. Mas de forma estruturada e pensada. Podemos seguir o exemplo do AFC Ajax que recentemente juntou experiência, qualidade, juventude e irreverência para alcançar grandes feitos na principal competição de clubes a nível europeu. É um processo coletivo e individual que vem estruturado desde a sua base, não é algo feito aleatoriamente. Em Alvalade, falta alguém que dê o murro na mesa. Alguém que coordene com pés e cabeça uma ideia, um presente e um futuro.
Outra situação que pretendo desmistificar é de que apostar na formação não significa propriamente apostar em quantidade, mas sim na qualidade. Há muitas pessoas que acham que devemos de apostar em todos os produtos que possam sair da formação. É difícil, no contexto atual ao Sporting CP, recuperar o tempo perdido e creio que será ainda mais difícil de conseguir formar imensos jogadores que possam permitir alimentar todas as posições no plantel principal com tremenda qualidade. Existem, ainda assim, vários jovens jogadores que podem alcançar o patamar superior no futebol profissional leonino, resta, como já referi anteriormente, não queimar as etapas no seu processo de crescimento e de desenvolvimento e criar condições de potenciar as suas qualidades.
Para finalizar, é certo que também é necessário mudar o pensamento de formar para os outros, isto é, formar jogadores com qualidade que nunca chegam a ter oportunidade de demonstrar a sua qualidade em Alvalade e que são rapidamente vendidos a preço de saldo ou constantemente emprestados. Daniel Bragança é um dos nomes que mais me custa a aceitar não ter lugar no plantel leonino, mas há mais casos. Focando apenas nos sub-23, podemos observar nomes como Joelson Fernandes, Bruno Tavares, Tiago Tomás, Tomás Silva, Matheus Nunes e, como já referido anteriormente, o central Eduardo Quaresma. Há ainda que salientar dois ou três casos nos escalões de juniores e juvenis que merecem toda a atenção e o acompanhar nos próximos anos.
A formação terá que ser mais do que nunca olhada com atenção, reestruturada e, mais do que nunca, ser sem dúvida o ponto de partida num clube débil e sem a capacidade financeira como a de outros rivais.
Se dentro de campo é caraterizado pela raça, entrega e determinação, fora dele, a boa-disposição e simpatia são os seus pontos fortes. Originário do Bairro do Cerco, Paulo Machado aceitou o convite do Bola na Rede para falar sobre a carreira que conta com passagens por campeonatos fora de Portugal. Da estreia pela mão de Mourinho até ao reencontro com Jorge Costa na Índia, sem esquecer a conquista do Europeu de sub-17 de 2003, eis então o percurso do médio que diz querer continuar a jogar até quando tiver forças para o fazer.
– Origens e Anos de Dragão ao Peito –
Bola na Rede (BnR): Antes de começarmos, e em tom de brincadeira, deixa-me fazer esta questão: o teu bigode em 2014 quando estavas no Olympiacos fez um enorme sucesso. O senhor Machado foi a inspiração para esse look?
Paulo Machado (PM): Aquele grande bigode mesmo! (risos). O meu pai já tem o bigode, não vou dizer desde que nasceu, pois não se nasce com bigode, mas, desde que o teve, sempre usou. Houve um jogo em que disse “Vou cortar o bigode e fazer uma homenagem ao meu pai”, fiz isso e os gregos ficaram malucos! Nunca pensei que fosse fazer tanto sucesso a nível mundial, pois toda a gente falou nisso e até comentaram “Olha o Freddie Mercury!”. Até me lembro que fizemos uma publicidade para o Olympiacos e obrigaram-me a ter o bigode.
BnR: O Hugo Almeida é que te copiou ou foi ao contrário?
PM: Isso já não sei ao certo, pois metemos os dois o bigode num jogo da Liga dos Campeões e andávamos iguais. Depois disso, dissemos “Isto vai virar moda, vamos voltar ao tempo antigo”. (risos)
BnR: Confesso que ainda jogo o FM2008, e os teus atributos mais fortes nesse jogo são a Determinação, Trabalho de Equipa, Agressividade, num bom sentido claro. De que forma a vivência no Cerco ajudou a ser um atleta mais forte psicologicamente e bastante comprometido com a equipa ao longo da tua carreira?
PM: Ajudou um bocado, pois quando vives num bairro e vês coisas que se calhar outras pessoas que têm outras possibilidades não veem. Vi pessoas a injetarem-se o dia todo e a traficar droga, e pensas para ti mesmo “Não quero isto para a minha vida, quero ser jogador”. Essa frase começa a entrar no teu pensamento, ganhas uma força mental e não te deixas ir abaixo. Quando assinas por uma equipa e estás totalmente comprometido, e dás tudo o que tens e não tens. Isso foi sempre o que meu pai me ensinou “Podes nem sempre jogar bem, mas dá sempre o teu máximo dentro de campo e as pessoas vão valorizar o teu esforço” e foi o que eu fiz. E digo isto muitas vezes: tenho um irmão mais velho que jogou no Leça e tem mais qualidade que eu, só eu que eu ganhei pela raça e entrega. O que ele tinha a mais, tinha eu menos, mas o que eu tinha a mais, ele tinha menos que era a agressividade e vontade.
BnR: É no Cerco que começas a dar os primeiros pontapés na bola. Já te destacavas quando faziam jogos?
PM: No Bairro havia jogadores melhores que eu, como o meu primo Rui que jogava muito, tanto que o Porto o queria e ele não quis ir, e esse era um dos melhores jogadores do Cerco. Até escolhiam antes o meu irmão que a mim, tanto que ainda hoje vamos jogar futebol com o pessoal do Bairro e escolhem-no primeiro.
BnR: A sério?
PM: Sim, ainda continuam a fazer isso! Podes pensar “Ah, ele é jogador”, mas quando vamos jogar peladinhas, toda a gente prefere ter o meu irmão do que a mim na sua equipa.
BnR: A tua ida para o FC Porto dá-se aos 10 anos de idade. Falaram diretamente contigo para ir lá treinar?
PM: Não falaram primeiro comigo diretamente, falaram depois. Tínhamos o Alcino Palmeira que foi um grande boxista do Porto, e ele ainda era treinador de Boxe no Porto e também diretor no Bairro Cerco do Porto. O sr. Alcino disse aos diretores do Porto que tinha lá no Bairro um miúdo que podia dar jogador, perguntou-lhes se podia ir treinar à experiência e disseram que sim. Foi ele próprio e o senhor Figueiredo que me levaram diretamente ao Porto para treinar.
BnR: A chegada a esse treino foi com toda a pompa e circunstância…
PM: Foi mesmo! (risos). Levei um apito, e pensei “Ora bem, estou a chegar aqui e tem de ser em grande”, abro a porta e apitei, toda a gente ficou a olhar para mim. O pensamento dos outros jogadores foi, “Mas quem é este maluquinho que vai entrar agora com um apito?”, e, na verdade, aparecia lá de tudo um pouco para treinar. Depois de começar a jogar lá, apanhei malta um pouco estranha, os que não falavam com ninguém, apanhei de tudo.
BnR: Os teus primeiros tempos na formação não foram fáceis para ti. Quais foram as maiores dificuldades?
PM: Foi difícil, porque nessa altura, e mesmo agora, existiam aqueles pais com mais possibilidades, os ditos “ricos” e que conseguiam meter os filhos a jogar no Porto, e havia muitos desse tipo, e como eu vinha de um bairro ninguém queria estar ao pé de mim. O único que quando cheguei lá e comecei logo a dar-me bem, foi o Ivanildo. Depois acabei por me dar com o (João Pedro) Macieira e inclusive era o pai dele que até me trazia a casa, mas, de resto, a maioria eram filhos de pais ricos e ninguém se sentava ao meu lado. Sentia-me um pouco discriminado nesses tempos.
BnR: Ao longo da tua formação, partilhaste o balneário com vários jovens craques do Olival. Qual foi o companheiro de equipa que mais te marcou e porquê?
PM: O que me marcou mais foi o Ivanildo. Nas camadas jovens, ele era um fenómeno e não havia ninguém que conseguisse pará-lo. Lembro-me dum jogo que fizemos no Alentejo, mal começa a partida, o Ivanildo pega na bola, finta toda a gente e marca golo. Era o único da nossa equipa que fazia isso. Toda a gente que via o Ivanildo, fugia e pensava “Lá vou eu levar com o Ivanildo”. As lesões que ele teve acabaram por impedi-lo de chegar mais longe, infelizmente.
Fonte: Facebook Paulo Machado
BnR: A tua estreia nos seniores foi no jogo de inauguração do Estádio do Dragão. O José Mourinho disse-te algo antes do jogo que te marcou?
PM: Sim disse, e é normal que me marcou. Na noite anterior ao jogo, eu quase nem dormi só de pensar “Amanhã vou jogar na inauguração do Dragão”, que é o sonho de qualquer jogador da formação. Fiquei a pensar se ia jogar muito ou pouco tempo, e lembro-me dele vir ter comigo e dizer “Amanhã vais jogar 30 minutos. Dos jovens todos, vais ser quem vai jogar mais tempo”, fiquei maravilhado com as suas palavras. E, de facto, fui mesmo de todos os jovens o que jogou mais tempo.
BnR: Além desse jogo, há ainda o da Taça…
PM: Tive a felicidade de poder jogar nas Antas e na inauguração do Estádio do Dragão. A partida nas Antas contra o Vilafranquense treinado pelo Rui Vitória foi também especial, pois já sonhava poder jogar pelo Porto e conseguir fazê-lo no Estádio das Antas era um orgulho. O meu pai é sócio do Porto há cerca de 30 anos e vê-lo na bancada a apoiar-me foi uma enorme alegria.
BnR:Deves ter-te sentido radiante nesse dia…
PM: Claro. Aliás, a minha família é toda portista, e conseguir chegar à equipa A e jogar, apesar de não ser titularíssimo ou ter as oportunidades que muitos tiveram, não reclamo das oportunidades, porque muita gente diz que não fui nada no Porto, mas esquecem-se que tinha jogadores que jogavam na minha posição e não era fácil, tinha de ser um fenómeno para passá-los à frente.
BnR: A concorrência no meio-campo era de peso, o que acaba por impedir a tua afirmação no Porto. Recebias algum conselho dos jogadores mais experientes?
PM: Jogavam Costinha, Maniche e Deco, saía o Maniche, entrava o Alenichev. Conselhos recebia sempre. Eles gostavam de mim e davam-me valor porque, apesar de ser jovem, chegava aos treinos e se tivesse de dar “porrada” a este ou àquele, eles gostavam disso pois demonstrava um bocado a minha personalidade e raça que tinha. Por vir do Bairro e tudo, diziam “Este aqui não vai ter medo de nada” e se calhar isso fez conquistar o Mourinho e as pessoas dali. Vim dum bairro muito pobre, não passava fome, graças a Deus, tínhamos dinheiro para comer e beber, o que era mais importante. E ter conseguido alcançar a equipa A, era valorizado por isso.
BnR: Como eras um dos mais novos da equipa, acabavas por ser o “estafeta” e acatar os pedidos dos jogadores mais experientes. Vias isso como algo de negativo?
PM: Eu na equipa A fazia de tudo, era mesmo o estafeta. Ia buscar garrafas de água, quando íamos para a piscina diziam-me “Olha o miúdo, vai buscar toalhas” e lá tinha de ir. Naquela altura, se dissesse que não, estavas tramado, o melhor era fazer o que te pediam (risos). Sinceramente, não pensava muito se faziam de mim um escravo ou qualquer coisa do género, até ficava todo feliz por ir buscar toalhas para o Jorge Costa e Vítor Baía. Era uma oportunidade única puderes jogar no clube do teu coração e estar ao lado dos jogadores que vias na televisão, tu fazes qualquer coisa para ser amigo deles.