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E se os jogadores de futebol fossem os professores no #EstudoemCasa? Quem leciona o quê?

Por esta altura o mundo do Futebol regressa aos poucos ao relvado. Alguns ainda com dúvidas se voltam aos “jogos a doer”, e outros por casa ficam, na certeza de que a época acabou. A pandemia veio silenciar espaços outrora dinâmicos, como as escolas. A TeleEscola voltou, perdão, o #EstudoEmCasa, enquanto que a “bola” continua em pausa, com os dirigentes e jogadores ainda confinados. Então, e se alguns ídolos, outros nem tanto, já que estão a meio gás, dessem uma perninha no ecrã como já estão habituados e apresentassem algumas disciplinas?

Não seria, de todo, uma forma errada de economizar recursos. Os professores dedicavam o seu tempo ao acompanhamento por outras vias, e a malta do Desporto rei não perdia a habilidade de falar para as câmaras e mostravam toda a sua intelectualidade que é por vezes colocada em causa por más línguas, diz-se, não tenho a certeza. Vamos começar pelo Português. Uma Unidade Curricular (UC) que nos persegue durante anos, assim como Jaime Pacheco perseguiu os bancos durante 25 anos. Aptidão para as lentes, confirma-se, não fossem as épicas conferências de imprensa do treinador. Jeito para a língua, mais que confirmado. A juntar, ainda, o seu palavreado bastante cuidado e alargado, mais as metáforas fortes como “a face de dois legumes”, torna esta uma opção mais que válida. Quem sabe, sabe.

Francisco Geraldes é o meu escolhido para apresentar a Leitura e Literatura. As razões são mais que óbvias. Será que já acabou o “Ensaio sobre a Cegueira”? Na Matemática, o Sir Alex Ferguson. Foram 39 anos de futebol, 49 títulos e 16 prémios. De números o professor escocês percebe certamente. Quanto à personalidade, e com base na minha experiência, parece ter os requisitos mínimos, e pode sempre utilizar expressões como “no meu tempo essa conta fazia-se de cabeça”. Já que estamos por Terras de Sua Majestade, Mourinho ficaria com o Inglês. Fluente nas duas línguas, e tal como os docentes desta disciplina não largam o típico rádio, o timoneiro luso teima em largar algumas ideias táticas.

Cédric, que também tem nacionalidade germânica, ficaria com o Alemão pela facilidade que tem com ambas as línguas. Tal como é pouco desejado por alguns na seleção, esta UC é um fastio para outros. Jorge Jesus, fácil e previsível, ficava com o Espanhol. É incrível a facilidade com que o treinador do CR Flamengo aprende uma nova língua. Por vezes, é tão poliglota que acaba por introduzir novos vocábulos, diversificando até o modo como reproduz o nome dos atuais campeões da Liga Brasileira. Para apresentar Português Língua Não Materna escolhi Samaris. Com um sotaque diferente, e com algumas letras comidas no início da sua estadia em Lisboa, o grego mostrou que a língua portuguesa não é assim tão difícil.

Físico-Química iria ter dois professores. Rakitic e Carriço já mostram alguma química, em relação ao físico, o beijo foi bonito. Pirlo lecionava Estudo do Meio, e esta foi a escolha que mais me orgulha. Maestro. Buffon, profissional desde 1994, até parece dinossauro, ficava com a cadeira de História. As duas maiores estrelas da atualidade, Messi e Ronaldo, também entram nos contratados. O argentino ficava com Educação Artística e a estrela lusa com Educação Física. É necessário justificar? Parece-me que não. Com 29 clubes no currículo, Loco Abreu ficava com a Geografia.

Como o uruguaio tem dificuldade em fixar-se, Paulo Fonseca era já o substituto assegurado. Não fosse o técnico da AS Roma ter ido com o FC Porto a Leverkusen empatar com o Eintracht Frankfurt FAG. Ele lá sabe. Oficina da Escrita está destinado a Sérgio Ramos. O central espanhol quase que obriga os árbitros a escrever nos cartões e nos relatórios de jogo. Mas também escreve bonitas páginas da História do Futebol.


Balotelli parece-me indicado para as Ciências Naturais. A sua reação a alguns estímulos, a sua experiência com fogo de artifício em casa, a sua ansiedade, não sei se é o melhor termo, em conhecer o corpo humano, e a sua naturalidade ao fazer as coisas dá créditos para esta disciplina.

Por fim, Éder como professor de Francês. Foi graças a ele que durante meses cantamos “e foi o Éder que facturé”. Não tenho a certeza se foi este o termo, ou se está bem conjugado, mas garanto que foi ele que faturou, e foi com esse golo que o Euro 2016 não fugiu. O avançado, contudo, conta também com uma passagem pelo Lille OSC, o que traz sempre experiência. Esta foi a seleção que fiz, poderia ter colocado outros nomes, mas aguardo pelas vossas sugestões. Podem ir para intervalo.

 

Artigo revisto por Joana Mendes

Euro 2000 | Aquele que foi o Europeu de afirmação

O Euro 2000, realizado na Holanda e na Bélgica, é a primeira competição internacional de selecções da qual eu tenho memória de assistir. E tenho memória dos jogos e da emoção que houve naquela competição. Ainda hoje, o Euro 2000 é visto por muitos como o melhor Europeu de sempre em termos de futebol jogado. Para tal distinção, muito contribuiu a equipa das quinas que, com uma Geração de Ouro no auge, se exibiu em grande plano.

Na fase de qualificação, Portugal ficaria em segundo lugar do grupo sete, atrás da Roménia e à frente da Eslováquia, Hungria, Azerbaijão e Liechtenstein. No entanto, a vitória por 3-0 na Hungria, no último jogo de qualificação, permitiu à equipa das quinas a qualificação directa para a competição na categoria de melhor segundo classificado.

Chegada a competição, o seleccionador nacional Humberto Coelho escolheria os seguintes 22 jogadores para representar a equipa das quinas no Europeu:

Guarda-redes – Vítor Baía, Pedro Espinha e Quim

Defesas – Jorge Costa, Rui Jorge, Fernando Couto, Dimas, Abel Xavier, Beto e Secretário

Médios – Luís Vidigal, Paulo Sousa, Luís Figo, Rui Costa, Sérgio Conceição, Costinha, Paulo Bento e Capucho

Avançados – João Pinto, Sá Pinto, Pauleta e Nuno Gomes

No sorteio, pior seria impossível para Portugal, que iria estar inserido no grupo da morte, calhando no grupo A da competição, juntamente com a Inglaterra, a Roménia, que tinha ficado à sua frente na qualificação, e a Alemanha, então campeã europeia e que tinha afastado a equipa das quinas da qualificação para o Mundial em 1998.

O primeiro jogo do grupo contra a selecção da Inglaterra seria um dos jogos mais memoráveis da história do futebol na competição. Os Three Lions apresentavam-se na Holanda com uma equipa de grande qualidade, com uma espinha dorsal jovem composta por jogadores como David Beckham, Paul Scholes, Michael Owen e os irmãos Neville, mas que também contava com algumas referências experientes, tais como David Seaman, Tony Adams, Paul Ince e Alan Shearer.

O jogo não podia ter começado pior para a equipa das quinas que sofreu golo logo aos três minutos por intermédio de Paul Scholes. A equipa portuguesa procurou reagir, mas contra a corrente do jogo, a selecção de Sua Majestade aumentou a vantagem aos 18 minutos, após um remate de Steve McManaman.

Apesar das adversidades, a equipa das quinas não baixou os braços. Aos 22 minutos, Luís Figo reduziu a desvantagem através de um forte pontapé que ainda ressaltou na perna de Tony Adams. Aos 37 minutos, assistiu-se a um dos melhores golos da competição. Após Cruzamento de Rui Costa, João Pinto, sem ângulo e marcado de perto por Sol Campbell, cabeceou colocado e sem hipóteses para David Seaman. Estava reestabelecida a igualdade no marcador.

Aos 59 minutos, estaria confirmada a reviravolta no marcador. Com Rui Costa novamente na jogada, este assistiu para Nuno Gomes que, na cara de David Seaman, não vacilou e fez o 3-2 final. A selecção inglesa ainda procurou reagir, mas os seus atacantes foram muito bem anulados pela defesa portuguesa. Estava assim carimbada a primeira vitória na competição.

No segundo jogo seguir-se-ia a selecção da Roménia, que atravessava uma fase de transição geracional, misturando a juventude de Adrian Mutu e Christian Chivu, com a experiência de Gheorghe Hagi, Dan Petrescu e Gica Popescu. Num jogo muito táctico e com poucas oportunidades de perigo, um livre de Luís Figo já a acabar o jogo, Costinha antecipou-se ao guarda-redes Stelea e marcou o golo que assegurou o apuramento para os quartos-de-final.

Com o apuramento já assegurado, o seleccionador Humberto Coelho aproveitou o jogo contra a Alemanha para dar oportunidade aos jogadores menos utilizados, atribuindo, inclusive, as redes da baliza a Pedro Espinha. A envelhecida selecção alemã precisava de ganhar para sonhar com o apuramento.

No entanto, um hat-trick de Sérgio Conceição permitiu à equipa das segundas linhas portuguesas a maior vitória contra a selecção alemã. O resultado avantajado fez com que Humberto Coelho arranjasse um tempinho para fazer entrar o terceiro guarda-redes, Quim, cumprindo, assim, a sua primeira internacionalização pela equipa das quinas. Pleno de vitórias no grupo da morte. Melhor era impossível.

Seguiu-se a selecção da Turquia nos quartos-de-final, que contava com uma espinha dorsal do Galatasaray SK, que tinha acabado de conquistar a Taça UEFA. Nuno Gomes abriu o marcador aos 44 minutos, após assistência de Luís Figo. No entanto, no minuto seguinte, houve penálti a favor dos turcos, reinando a apreensão do lado português.

Porém, o guarda-redes assumiu o papel de herói, defendendo a grande penalidade cobrada por Arif Erdem. Aos 56 minutos, os mesmos protagonistas fariam o 2-0 final: Luís Figo a assistir e Nuno Gomes a marcar. Seguia-se a França nas meias-finais.

No jogo contra a selecção campeã mundial, Portugal voltaria a entrar bem no jogo, e Nuno Gomes inaugurou o marcador aos 19 minutos, com um pontapé de fora da área, e manteria a vantagem até ao intervalo. Porém, os bleus entrariam por cima do jogo na segunda parte e aos 51 minutos, Thierry Henry empatou o jogo, que acabaria por seguir para prolongamento.

No prolongamento, a equipa das quinas bem tentou, mas aos 117 minutos, após a polémica mão na bola de Abel Xavier, Zidane converteu a grande penalidade e carimbou o acesso à final através do Golo de Ouro. A estrelinha de campeão ditou as suas leis.

Apesar da forma dramática como a equipa das quinas foi eliminada, esta conseguiu passar uma mensagem bem vincada. A selecção de Portugal estava no convívio entre os grandes europeus e veio para ficar, marcando presença em todas as competições internacionais daí para a frente.

Artigo revisto por Joana Mendes

A ameaça francesa

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A equipa feminina francesa da Futuroscope está na estrada desde 2006 e desde 2017 conta entre os seus patrocinadores principais também a FDJ – cuja equipa masculina tem ajudado a retomar os gauleses ao topo do ciclismo -, mas nunca foi um dos conjuntos mais fortes do pelotão internacional. No entanto, uma transformação está em curso e é possível que já em 2020 – contando que o calendário previsto pela UCI vai mesmo adiante – a vejamos a dar luta às melhores nas estradas europeias.

Há uns anos, a equipa começou um processo de internacionalização e contratou até algumas atletas interessantes, ainda que longe de serem estrelas, como Tenniglo ou Slik, mas todas acabaram por deixar a equipa tão rapidamente como chegaram e até algumas referências da equipa, como Aude Biannic, também abraçaram outros projetos.

Contudo, uma constante do conjunto francês sempre foi a aposta na juventude, o que permitiu manter sempre um fluxo de entrada de atletas competentes. A formação de jovens talentos parece estar agora prestes a dar frutos, já que começa a figurar como um dos destaques da equipa a gaulesa Evita Muzic, que ainda conta apenas com 20 anos, mas já está na sua terceira época com a equipa e é inegavelmente uma das melhores e mais consistentes Sub-23 do mundo.

Evita Muzic é uma das mais promissores jovens do ciclismo
Fonte: FDJ Nouvelle Aquitaine Futuroscope

Em 2019, foram também adicionadas algumas ciclistas experientes, com destaque para duas de qualidade já elevada e que continuaram para 2020, Fahlin e Borgli. E este seria o prelúdio de uma ida ao mercado assertiva para esta nova temporada que coloca a FDJ Nouvelle Aquitaine Futuroscope num patamar que nunca antes esteve.

Então, para esta época, a equipa só contratou duas ciclistas, mas foram excelentes escolhas. Brodie Chapman, depois de uma passagem pelo BTT, brilhou nos últimos dois anos no calendário americano e é uma ciclista interessante capaz de alguns resultados em provas menores e de ser um bom apoio para uma forte líder.

E essa liderança foi encontrada com a contratação de Cecilie Uttrup Ludwig. Pódio na Ronde e na La Course em 2019, e sexta no Giro em 2018, a jovem dinamarquesa está a explodir para uma grande carreira e não tarda estará a ganhar algumas das mais importantes provas das duas rodas. Em França, terá estatuto absoluto no topo da hierarquia interna e um conjunto em crescimento a apoiá-la. Juntas, ciclista e equipa fazem um par temível em crescendo.

Assim, os gauleses têm agora uma renovada ambição e podem, pela primeira vez na sua já longa história, competir com as melhores nas mais importantes provas ciclísticas.

Foto de Capa: FDJ Nouvelle Aquitaine Futuroscope

 

Artigo revisto por Joana Mendes

«Cruyff disse que eu o fazia lembrar a ele próprio» – Entrevista BnR com Dani

O Bola na Rede esteve à conversa com Dani, o prodígio que é descoberto por Aurélio Pereira na praia em Tróia, com apenas oito anos. Da ocidental praia lusitana, ruma, por caminhos já outrora percorridos, até ao relvado de Alvalade, onde faz toda a formação e se estreia na equipa principal, com apenas 17 anos. Brilha nas seleções jovens, onde passa além da fronteira para conquistar um Campeonato da Europa de sub-18 e encantar tudo e todos no Mundial de sub-20 no Qatar. Em dificuldades e disputas esforçadas, passa meia época no West Ham, mas é no Ajax que alcança mais do que prometia até então. Entre gente remota que nada edificou, passa pelo Benfica e segue para o Atlético de Madrid pela mão de Futre, o seu ídolo de infância. Na capital espanhola, leva o Atlético de volta à Primeira Divisão, naquele que é o último gesto sublime de uma carreira que acaba precocemente. Nesta conversa, está a prova de que há em Dani muito mais do que uma promessa falhada. As palavras fazem-lhe justiça.

– Do areal de Tróia para o relvado de Alvalade –

Bola na Rede [BnR]: Como e quando chegas às camadas jovens do Sporting?

Dani [D]: Chego à formação do Sporting CP com oito anos, através do Sr. Aurélio Pereira, que me viu nas férias a jogar na praia. Ele pediu-me para eu dar uns toques, e passado um bocado diz-me “Posso falar com o teu pai?”. Chamei o meu pai, eles falaram e fui fazer testes ao Sporting.

BnR: Foi nas férias de verão?

D: Sim, em Tróia. Foi engraçado, eu já tinha tentado ir à experiência ao Sporting, mas disseram-me que era muito novo e para voltar quando tivesse dez anos. Nem fiz os testes. Depois fui de férias e aconteceu isto.

BnR: Jogas a que posição na formação?

D: Comecei a lateral esquerdo nos infantis, com o César Nascimento e o Osvaldo Silva. Foi o Osvaldo Silva que me pôs a alcunha, porque eu era muito pequenino, muito magrinho, muito novo comparado com os outros que tinham 11 e 12 anos.

BnR: Como é que começas a jogar mais à frente?

D: Foi uma evolução natural. Fui crescendo, melhorando as minhas qualidades e, desde que comecei a jogar com os da minha idade, passei para médio e extremo esquerdo. Depois, entre os iniciados e os juvenis, passo para extremo, ou “10”, para andar solto. Nos juvenis de primeiro ano, já jogava com os de segundo ano, e nos juniores também.

BnR: Quem são os teus ídolos em miúdo?

D: Futre. Foi logo o primeiro, tinha uma adoração por ele. O pé esquerdo, a técnica, a forma como se comportava dentro de campo… Era uma coisa que me deixava de boca aberta. Maradona também, quando foi o Mundial do México, em ’86. Eu tinha 10 anos e vi-o. Fiquei doido com as exibições dele.

BnR: Campeão da Europa de sub-18, em 1994. Que memórias tens dessa competição?

D: Tínhamos uma equipa… Eu era o mais novo até, mas tínhamos uma seleção que trabalhava muito, que lutava muito, e tínhamos um grupo muito unido. Estávamos há vários anos e tínhamos um núcleo forte: jogadores de Sporting, Benfica, Porto, Boavista…

BnR: Quem eram os outros craques desta geração?

D: Todos (risos). Nuno Gomes, Bruno Caires, Beto, Quim, Madureira. Jogadores de talento, mas de muito trabalho, muito querer e muita garra. Dávamo-nos todos muito bem, tínhamos uma alma enorme. Os treinadores também – Rui Caçador, Nelo Vingada e Agostinho Oliveira. Passávamos muito tempo em estágios, torneios, e, com aquela idade, os estágios davam-nos uma irmandade, uma capacidade de lutar uns pelos outros.

BnR: Temos de falar inevitavelmente daquele lance icónico pelos sub-20, frente à Holanda, no Mundial do Qatar em 1995.

D: Tínhamos treinado aquilo várias vezes, mas nunca o tínhamos feito em jogo. Nunca se tinha proporcionado o momento em que pudéssemos juntar a concentração e as necessidades do jogo com uma jogada que sai um bocadinho da caixa. Há um vídeo, da Eurosport creio, que filma por trás de mim e do Bruno Caires, e ouve-se perfeitamente o relato em inglês “Mas o que é isto? Enganaram-se! O que se está a passar?”. E, se olharmos com atenção, os jogadores holandeses na barreira relaxam os braços e o guarda-redes também. Fica tipo “O que é que se está a passar?”. Eu rapidamente marco o livre, e havia duas opções: ou ia direto à baliza, ou então havia jogadores para cabecear. Por norma, os centrais subiam. O Bóia, o Beto, o José Soares, o Carlos Filipe também cabeceava muito bem. E o Agostinho também aparecia como apareceu nesse lance, a cabecear lá para dentro. Foi um momento fantástico, e nesse jogo eu também marquei um golo de canto direto. Saiu-nos tudo bem.

BnR: Quem é que tem a ideia de criar essa jogada?

D: Creio que foi o Nelo Vingada que trabalhou isso connosco.

BnR: Falavas em estágios. Sendo vocês ainda jovens, os selecionadores sabem o que vocês fazem nos tempos livres?

D: Sim. Tínhamos as duas coisas: tínhamos a responsabilidade e a noção de que, quando era para jogar, dávamos tudo dentro do campo; mas depois fora do campo também tínhamos alguma liberdade nos momentos certos. Também tínhamos alguma irreverência para ter alguns comportamentos menos próprios para o momento, mas se fizéssemos algo de errado tínhamos castigos. Vivíamos muito e intensamente, mas o mais importante eram os jogos. Dávamos tudo dentro do campo.

BnR: Disseste que tiveste um ascendente muito rápido no futebol e, por isso, pouco tempo para ter noção do que se estava a passar na tua vida e naquilo que podias representar como jogador de futebol. Olhando agora com os olhos da maturidade, o que é que te afetou negativamente na altura?

D: Eu digo isso com perfeita noção, mas também digo que não estaria a ser intelectualmente honesto agora, passado tantos anos e olhando para a vida de uma forma completamente diferente, estar a dizer que podia ter tido outros comportamentos. Percebo que devia ter tido outros comportamentos em alguns momentos, mas não era próprio da minha maneira de ser e do momento que eu estava a atravessar.

BnR: Estreias-te na equipa principal do Sporting com 17 anos. Que memórias tens desse tempo?

D: Foi contra o Farense, na Taça. Olha, lembro-me perfeitamente de estar no banco, e, na segunda parte, o estádio começar a cantar o meu nome e a bater palmas, a pedir a minha entrada em campo! Mas tínhamos uma equipa muito forte, e ali na minha posição estava o Balakov…

BnR: Ui…

D: (risos) Exato. Eu não me apercebi dos cânticos, que era o meu nome que estavam a cantar, talvez por ser a primeira vez que estava no estádio a ouvir aquilo. No momento em que me levanto para aquecer, o Capucho diz-me “Isto é o teu nome que estão a cantar. É para ti”, e eu fiquei “Que é isto? Que é que se passa?”. Assim que entrei, ovação, muitas palmas e uma expetativa enorme.

BnR: Como é que te correu o jogo?

D: Há uma ou outra situação logo no início. Iam-me passar a bola, mas depois não passam, e ouve-se o estádio “Ahhhhhh”. Havia uma grande ansiedade em verem-me a jogar e a ver como é que eu me iria comportar. Eu senti isso. Estive ali alguns minutos sem receber a bola, e depois, na primeira vez que me passam a bola, uma situação fácil, quando a vou dominar, deixo passar a bola por baixo do pé. E o estádio todo “Ohhhhh”. Que desilusão.

BnR: Acusaste a pressão?

D: Senti isso. Só que eu não tinha muito receio e não sentia muito o peso do momento, porque as coisas aconteciam de dia para dia, de semana para semana, estava sempre a acontecer qualquer coisa na minha vida no futebol. Muita expetativa e muitas situações a acontecerem. Não tinha tempo para parar e ficar com receios ou medos. Então logo que tive oportunidade, peguei na bola, fiz uma tabela com o Balakov, fui por ali fora e, à entrada da área, rematei. A bola saiu a rasar a trave, e a partir dali os adeptos ficaram mais entusiasmados. Houve ali uma ovação e tal, mas foi pouco tempo que joguei também.

BnR: Quem te recebe na equipa principal do Sporting?

D: Fui muito bem recebido. Já treinava algumas vezes com eles, e conhecia o Figo, o Peixe, o Capucho, o Oceano. Estava habituado a vê-los nos corredores de Alvalade! O Oceano era o capitão – era um grande líder.

BnR: Nessa altura, tu, Sá Pinto e Dominguez são apelidados de “Os três Mosqueteiros”. Quem vos deu esta alcunha e porquê?

D: Acho que foi a imprensa. Na altura, o mediatismo estava a começar. Dentro e fora do campo já se começava a sentir o peso da atenção que a imprensa dava aos jogadores. Nós tínhamos uma relação ótima dentro do campo, e fora do campo ainda mais forte. Somos amigos até hoje. Acabámos por fazer algumas coisas que não eram o normal na altura, situações que foram exacerbadas, em que disseram coisas sem sentido. Tentámos sempre fazer o melhor para a sociedade, para o clube, para nós e para a evolução do jogador de futebol, para aquilo que o jogador pode representar na sociedade. Mas algumas coisas não foram vistas da melhor maneira. Desde há uns anos, o jogador de futebol não é só aquilo que faz dentro de campo. Nós apanhámos essa transição de o jogador ser só o jogador e mais nada para aquilo que começou a representar depois.

Editorial BnR #8: Abril 2020 – O melhor mês da história do Bola na Rede

Foram 242 artigos de opinião, 10 entrevistas exclusivas e o início de uma belíssima aventura na área multimédia, com a criação de mais de 30 lives no Facebook, Youtube e Instagram – quase todos com convidados especiais -, a publicação de novos podcasts e ainda a transmissão de jogos em direto no site.

A quarentena abriu caminho para fazermos um trabalho ainda mais dedicado, e nós, com competência e procurando a melhor qualidade possível, encarregámo-nos de fazer o resto. Os números de abril não enganam: este mês foi, de longe, o melhor e mais produtivo da nossa história (ou seja, desde outubro de 2013, data de fundação do site):

Fonte: Google Analytics

Trabalhámos e procurámos inovar para que vocês se mantivessem desse lado, e a resposta foi positiva. Ainda assim, este caminho não tem sido fácil, até porque sabemos que não temos os argumentos e o poder de outros órgão de comunicação social. Tentamos lutar contra preconceitos e dar a maior atenção possível a todos os clubes, ainda que, por vezes, esse nosso foco seja desencorajado pelas próprias entidades.

Temos boas relações e somos bem tratados por quase todos os clubes, mas, infelizmente, ainda sofremos com a indiferença e desvalorização por parte de certos agentes desportivos que estão no meio. O desporto em Portugal não pode crescer, enquanto clubes de Primeira Liga – que até reclamam por maior atenção mediática – continuarem a negar-nos acreditações em jogos grandes por “não haver espaço”, ou diretores de comunicação rejeitarem-nos entrevistas, sob o pretexto de que estão “à espera de um contacto de um órgão de comunicação social maior”. Estas situações entristecem-nos, admitimos.

Do nosso lado, estamos a procurar fazer o melhor por nós, por vocês e pelo desporto em Portugal. Se já errámos? Sim. Se vamos continuar a errar? Também. Mas continuamos a lutar pela igualdade de oportunidades e a acreditar muito nas nossas ideias. O rigor, a descontração, a juventude e a dedicação vão estar sempre presentes no nosso percurso.

O caminho está traçado e nós queremos que o percorram connosco. Vamos continuar a crescer e contamos convosco.

Obrigado.

SL Benfica | E depois do adeus das modalidades, qual é o futuro?

Na passada quarta-feira, dia 29 de abril, foi anunciado o cancelamento do remanescente calendário desportivo referente às principais modalidades de pavilhão. As diferentes federações deram por terminados os campeonatos nacionais sem atribuição de títulos. Exceção feita à Federação de Andebol, que já indicou o FC Porto para a EHF Champions League, ainda não há novidades no respeitante aos participantes nas provas europeias.

Aliada à pandemia em curso, a ausência do SL Benfica das principais provas europeias de modalidades pode significar um menor investimento nos plantéis, e uma menor capacidade de planeamento da época que se avizinha – e, por consequência, das seguintes. Num momento em que se afigurava previsível um recrudescimento do investimento nas modalidades encarnadas masculinas e femininas, importa atentar no futuro próximo das mesmas.

Em primeiro lugar, não me parece que a estrutura encarnada deixe cair por completo qualquer projeto. Acredito que a ideia geral e principal seja a de tentar assegurar a continuidade de todos os planos previamente traçados. No entanto, não será estranho se as modalidades menos consagradas das águias sofrerem um pouco mais do que as restantes.

As equipas femininas de voleibol, que lutavam pela subida ao primeiro escalão, de basquetebol, em projeto de crescimento para começar a gladiar pelo título nas épocas vindouras, e de andebol, criada na época passada e que nesta época lutava pelo pódio, poderão ser mais afetadas pelo expectável plano de contenção encarnado. Isto numa perspetiva de investimento nas mesmas. Por outro lado, será mais fácil manter estes plantéis do que outros, uma vez que são das equipas menos dispendiosas do ecletismo benfiquista.

Por sua vez, acredito e desejo que não sofram um grande baque as modalidades que, nos últimos anos, têm feito do ecletismo das águias um triunfo. Não será fácil, de maneira alguma, investir em todas elas, mas o esforço deve ser feito. As equipas femininas de futsal e de hóquei em patins, ambas na cimeira europeia das respetivas modalidades, e as equipas masculinas de voleibol, basquetebol, futsal e hóquei devem ver o seu crescimento nas recentes épocas salvaguardado.

Domingos Almeida Lima, vice-presidente para as modalidades, mostrou-se dececionado pelo término das competições, mas concordou com a decisão
Fonte: SL Benfica

No plano nacional, é imperativo continuar a montar equipas competitivas e capazes de verdadeiramente batalhar pelos títulos. No plano europeu, importa não deixar fugir o comboio. Seguramente não será o SL Benfica a locomotora, mas é fulcral que os encarnados estejam nas carruagens da frente.

Não será fácil fazê-lo em certas modalidades. No futsal, por exemplo, SL Benfica e Sporting CP, que já se sagraram campeões europeus da modalidade, vão deparar-se com um campo mais competitivo do que em anos anteriores, que inclui Inter Movistar FS, FC Barcelona Lassa, El Pozo Múrcia, ACCS FCA 92, Kairat, entre outros, a partirem como favoritos, sobretudo pela superior capacidade financeira.

Todavia, as águias precisam de continuar a apostar na competitividade europeia das suas modalidades, acreditando que essa aposta será recompensada num futuro não muito longínquo. Naturalmente, não importa entrar em loucuras, mas não pode a famosíssima estrutura encarnada deixar cair, por exemplo, os projetos do voleibol e do basquetebol masculinos, que, na época agora terminada, participaram em competições europeias não desbravadas por clubes portugueses. Não podem cair as equipas femininas de futsal e de hóquei em patins, que hão provado época após época estarem no topo da Europa nas suas modalidades.

Isto não quer dizer que outras equipas possam ser ostracizadas. Apenas rogo por uma meritocracia: caso escolhas tenham que ser feitas, que se priorize consoante o mérito e não consoante quaisquer outros fatores. O ideal, contudo, seria apostar “à grande”, mesmo nas modalidades que hão fraquejado nos anos recentes. Felizmente, acreditando nas notícias recentemente veiculadas, esse ideal poderá concretizar-se. Porquê?

O andebol masculino tem sido das forças menos pujantes dos encarnados. Para o colocar na contenda com FC Porto e Sporting CP pelo título nacional, teria que existir uma aposta quase monstruosa, quase descabida na referida modalidade. Como tal, seria expectável que a equipa masculina de andebol do SL Benfica sofresse um pouco no pós-pandemia. No entanto, as notícias recentes vão em sentido contrário.

Chema Rodríguez, espanhol de 40 anos prestes a terminar a carreira de jogador, que conjuga com a de técnico-adjunto da seleção húngara, será o novo homem do leme. O plantel será reforçado – não é reformulado, é REFORÇADO – como nunca foi, com a chegada de jogadores de calibre internacional verificado. O andebol masculino das águias prepara-se, dessa forma, para dar um salto qualitativo, mesmo após um cenário de pandemia.

Se assim é com o andebol, acredito (ou gosto de acreditar) que assim será com todas as modalidades que fazem do Sport Lisboa e Benfica um clube eclético.

Artigo revisto

Por um futuro melhor

O mundo atravessa um período muito complicado devido à COVID-19, e são nestes momentos difíceis que a união de todos faz mais sentido.

O histórico tenista suíço Roger Federer defendeu, através de um tweet, a junção entre as associações profissionais de ténis masculino (ATP) e feminino (WTA), e, desde desse momento, não se tem falado de outra coisa no universo do ténis. Vários tenistas juntaram-se a Roger Federer, entre os quais Rafael Nadal, Nick Kyrgios ou Simona Halep, neste apelo às principais organizações que tutelam a modalidade.

O próprio CEO do circuito masculino, Andrea Gaudenzi, confirmou a intenção de dar um passo em frente em relação à cooperação existente com a WTA.

Esta junção de associações poderá mesmo ser uma realidade num futuro próximo
Fonte: Australia Open

Por cá, Gastão Elias e Maria João Koehler, em entrevista ao BnR TV, também apoiaram esta iniciativa. A ex-tenista portuguesa defendeu que “para o ténis feminino ia acrescentar muito a junção do WTA e do ATP. O ténis masculino tem mais visibilidade, até porque a nível masculino há mais referências do que o feminino”. Já para Gastão Elias, “quanto mais trabalharem em conjunto melhor. Aliás, não sei por que é que até ao dia de hoje ainda não estão juntas”.

A meu ver, esta junção seria muito importante por diversas razões, sendo a principal o facto de que iria tornar o ténis mais claro para os fãs, tendo em conta que o sistema de classificação dos tenistas e as categorias dos torneios difere nos dois circuitos. Para além disso, numa altura em que se fala tanto de igualdade, ou a falta dela, o Ténis estaria a dar um exemplo no mundo do Desporto.

Agora uma coisa é certa. As possíveis conversações sobre o tema devem não só seguir sempre uma linha de progresso, e nunca de divisão, como também procurar preservar o bem-estar do Ténis e não entrar em conflitos, como acontece com outros desportos.

Por agora, resta-nos aguardar por novos avanços sobre esta temática, e também pelo regresso dos jogadores aos courts.

Foto de Capa: ATP World Tour/WTA

Artigo revisto 

Análise ao reforço | Ritmo de Vietto para o leão de Amorim

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Vivemos, atualmente, um momento de bola parada forçada e contínua e, na melhor das hipóteses, o apito que a volte a pôr em movimento chegará a partir do final do mês de Maio. Até lá, a pausa convida à reflexão sobre o que até aqui aconteceu no mundo do futebol e serve também para remexer no passado e requentar a emoção de algum jogo para o presente, tentando enganar esta fome de bola que nos assola.

Nestas linhas vou, porém, focar-me na reflexão. Durante uma das viagens diárias pela internet, deparei-me com um pertinente artigo da GoalPoint, ao longo do qual é analisada, através de uma perspetiva analítica, a prestação do Sporting CP, seja individual ou coletiva, no campeonato. Assim, enquanto os meus olhos deslizavam pelos dados e respetivas interpretações, procurava contrastar as minhas perceções do que (não) acontecia no relvado com a realidade dos números trazidos pela GoalPoint. Acredito que só nos é permitida uma maior aproximação ao que se passa efetivamente dentro das quatro linhas, criando conhecimento real e informação útil sobre o jogo e os seus protagonistas, através da interpretação qualitativa aliada ao contributo das analytics – e ambos devidamente enquadrados no contexto.

Em Alvalade, o contexto não é diferente daquele que está à vista de todos. Nesta época, o banco leonino já conheceu quatro treinadores diferentes que, cada um à sua maneira, puderam “desfrutar” de uma política de mercado que teve um impacto mais negativo do que positivo na equipa. Sobre estas “areias movediças”, a irregularidade e instabilidade leonina construiu um pobre 4º lugar (37 golos marcados e 26 sofridos), que é condizente com o (pouco) futebol produzido até ao momento.

Luciano Vietto foi o único reforço, na verdadeira aceção do termo, que esta temporada chegou ao clube e teve um impacto imediato. Para avaliar o seu desempenho individual e a sua influência no jogar leonino, vou tomar os dados fornecidos pela GoalPoint como ponto de partida para a análise.

De acordo com a GoalPoint, o Sporting CP só se destaca coletivamente em dois dos 12 rankings: na circulação progressiva e na quantidade de bolas que coloca com sucesso no último terço, sendo em ambos o segundo melhor registo do campeonato. Em contrapartida, a formação de Alvalade materializa apenas 10% dos cerca de 15 remates que faz por jogo (nono melhor registo da Liga). Nesses três parâmetros, para o bem e para o mal, a preponderância de Vietto parece-me assinalável. Analisemos, então, os seus números individuais:

Números do reforço com mais impacto imediato e influência no jogo da equipa leonina
Fonte: GoalPoint

Através dos dados disponibilizados, procurei contrastá-los com as expectativas que Vietto trouxe consigo e também com a minha perceção do que tem sido realmente a sua primeira época de leão ao peito. Com a saída de Bruno Fernandes, o avançado argentino tornou-se o “chefe de máquinas” no carrossel ofensivo da equipa e, de acordo com o rating da GoalPoint, emerge mesmo como o jogador mais influente do plantel.

Como o mapa apresentado ilustra, apesar de Vietto ter agora responsabilidades similares às que eram exigidas a Bruno Fernandes, a sua área de influência é ligeiramente diferente. O ‘10’ verde e branco iniciou o seu trajeto na equipa “empurrado” para o corredor esquerdo, de maneira a coabitar com o capitão leonino, mas com a intenção sempre explícita de pisar o corredor central, onde se sente mais confortável. Aliás, pelas suas características, é sobretudo liberto no meio, dentro da estrutura adversária, que a equipa mais pode beneficiar das qualidades do talentoso argentino.

Seguindo a ordem apresentada, a relação entre o número (3,6 p/90 mins) e a qualidade dos remates (28% enquadrados) de Vietto apresenta uma disparidade evidente, o que acaba por refletir o menor sucesso do argentino em matéria de finalização. Ainda que com menos 63 minutos em campo, Vietto rematou mais, em média por jogo, do que Bruno Fernandes esta época de leão ao peito, por exemplo. No entanto, o internacional português conseguiu rematar enquadrado 40% das vezes.

Ainda assim, é verdade que o argentino de 26 anos leva quatro golos no campeonato depois de participar em 20 jogos (1.463 minutos), um registo concretizador só superado pelos seis tiros certeiros de Luiz Phellype na competição doméstica. No entanto, confesso que esperava mais “poder de fogo” e melhor finalização por parte do argentino. O camisola ‘10’ é provavelmente um dos rematadores da equipa com melhor meia-distância, mas também não foram raras as vezes em que Vietto, apesar de estar em condições favoráveis, desperdiçou boas oportunidades. Aquando da sua contratação, a época sensacional no Villareal CF (20 golos e oito assistências em 2014/15) estava na cabeça de muitos adeptos, mas, até ao momento, essa tem-se revelado uma exceção nos seus números e não uma regra, depois de passagens mais discretas por Atlético de Madrid (3G e 5A), Sevilla FC (10G e 6A), Valencia CF (5G e 1A) e FC Fulham (1G e 4A).

Embora o seu registo de cara à baliza possa ser melhorado em Alvalade, pois tem qualidade para mais, Luciano Vietto revelou-se ainda, com quatro passes para golo, como o líder de assistências da equipa no campeonato (cinco assistências em todas as competições). Por jogo, em média, tem oferecido pouco mais do que um passe para finalização, mas, como vimos, nem o contexto, nem o aproveitamento leonino das oportunidades são os melhores.

Apesar disso, a influência de Vietto na manobra ofensiva da equipa é notória. Devido também à posição que lhe foi designada, tem-se assumido como um jogador nuclear principalmente na fase de criação dos leões, dadas as suas valências no jogo entre linhas, ora na mobilidade e imprevisibilidade que oferece ao ataque, através da sua liberdade de movimentos e da forma como concebe os espaços; ora na qualidade demonstrada a decidir e a executar o passe, incitando preferencialmente a um jogo mais associativo, mas com igual capacidade em passes mais longos e de variação do centro de jogo.

Outra característica que destaca Vietto dos restantes jogadores do plantel é a sua capacidade de condução e qualidade no drible, ambos fruto da sua técnica. Segundo os dados recolhidos pela GoalPoint, por jogo no campeonato, o criativo argentino completa com sucesso, em média, 2,2 dribles, assim como sofre cerca de duas faltas por cada 90 minutos. O seu descaramento no 1v1 e as arrancadas com a bola dominada, tirando adversários do caminho com as suas mudanças de ritmo e de direção, têm-se tornado movimentos habituais nos relvados nacionais.

Por fim, há um número que pode surpreender os mais distraídos: o contributo defensivo de Luciano Vietto. Colar a imagem de jogador “pouco intenso”, ou pouco dado a tarefas defensivas, a um futebolista com as características do ‘10’ leonino é algo habitual, perfaz precisamente um daqueles lugares-comuns do futebol e, por isso, essa crítica não tardou em ser endereçada ao avançado argentino. Porém, como qualquer relógio estragado que acerta nas horas duas vezes por dia, os lugares-comuns umas vezes têm correspondência com a realidade que representam, mas noutras são aplicados erroneamente. Um fenómeno que não se cinge ao futebol e que deriva essencialmente da procura e da tentativa pela hipersimplificação de temas que envolvem uma certa e obrigatória complexidade e que por isso devem ser desmistificados caso a caso.

Ora, tal como foi observado pela GoalPoint, Vietto tem em média 3,9 ações defensivas por jogo, um número que resulta da soma entre desarmes, interceções, alívios e bloqueios de remates, passes ou cruzamentos realizados, neste caso, pelo avançado argentino. Por si só, o número pode surpreender, mas quando é comparado com o registo de jogadores com responsabilidades defensivas similares (Bruno Fernandes 4,1 e Bolasie 2,1) ou até acrescidas (Wendel 1,6), torna-se ainda mais evidente o esforço e a importância defensiva de Vietto. Não deixa de ser curioso como é que, neste parâmetro em particular, a exclusiva interpretação qualitativa do jogo permite não reconhecer e até criticar o esforço defensivo de Vietto e, em contrapartida, elogiar o compromisso defensivo de Bruno Fernandes, quando na verdade a distância que os separa na quantidade de ações defensivas é mínima.

A breve análise a este indicador acaba por ilustrar e reforçar aquilo que as analytics podem oferecer, que, longe de explicarem tudo o que acontece num jogo de futebol, fornecem indubitavelmente um importante contributo para a aproximação a um melhor entendimento sobre o que se passa de facto dentro das quatro linhas.

Voltando a Luciano Vietto. Quando aterrou em Alvalade, seria expectável, e exigida talvez, uma maior frieza finalizadora do que a demonstrada até agora. No entanto, ser relegado para a posição de extremo, além de o ter afastado da área, deu-lhe também maiores responsabilidades na fase de criação. Dividido entre as duas tarefas mais importantes na manobra ofensiva da equipa, Vietto conseguiu balançar as redes por oito vezes e oferecer de bandeja cinco golos, depois de participar em 31 jogos das várias competições.

Em termos gerais, os golos e assistências, que são mais vistosos, já permitem ter uma noção clara da influência direta de Vietto nos registos leoninos. Contudo, acrescentando à análise alguns indicadores de ações mais dificilmente observáveis, neste caso disponibilizados pela GoalPoint, a preponderância do avançado argentino no jogo verde e branco é efetivamente mais alargada.

CONCLUSÃO

A viver a sua época de estreia em Portugal e de leão ao peito, Luciano Vietto revelou-se até ao momento, no contexto a que esteve submetido, como um criativo – o principal do plantel – e que, além disso, se compromete defensivamente como poucos. Falta-lhe talvez mais confiança e sentir-se querido e importante na equipa, algo que foi perdendo à medida que os seus empréstimos se sucediam. Por isso, Rúben Amorim terá não só a tarefa de lhe dar essa confiança à base de continuidade e regularidade nas opções, mas também procurando oferecer um contexto tático mais benéfico para um jogador que se pode destacar acima dos restantes e tornar-se uma das figuras do campeonato.

Com a saída de Bruno Fernandes, Vietto tem de deixar o corredor esquerdo para pisar definitivamente o seu “habitat natural” na zona central, como segundo avançado que ligue o meio-campo ao ataque. Além dessa mudança posicional, acredito que o Sporting CP de Amorim deverá rodear Vietto de jogadores mais capazes de entender a linguagem futebolística do argentino, que ora alimentem a sua capacidade goleadora, ora preconizem um jogo mais associativo. Um bom exemplo ilustrativo deste entendimento foi a fugaz coexistência de Vietto e Bruno Fernandes no “onze” verde e branco. Porém, caso os leões não sejam capazes de criar essa envolvência ao argentino, muita da dependência ofensiva que outrora foi colocada em Bruno Fernandes corre o risco de ser transferida para as costas do ’10’ verde e branco, que ainda está a dar os seus primeiros passos de leão ao peito. Agora, a qualidade para ser génio e figura deste Sporting CP está toda lá, da cabeça aos pés do talentoso argentino, que quer relançar a carreira, e que, desde que chegou a Alvalade, marca o ritmo dos ataques leoninos.

Artigo revisto

O 11 de jogadores que passaram ao lado de uma grande carreira

Esta semana trago-vos um 11 de jogadores que podiam ter tido uma carreira diferente, mas que por diversos motivos não o fizeram. Más decisões, falta de rendimento ou lesões são algumas das razões que determinaram as minhas escolhas. Sem mais demoras, apresento-vos o meu 11:

Olheiro BnR: Umar Sadiq

É inegável que muitos dos talentos que vão parar às grandes ligas europeias nascem (ou renascem) em campeonatos menos conhecidos, menos competitivos e também menos mediáticos. Da Sérvia, chega-nos um nome que tem condições para “renascer”, mesmo que sob outros holofotes: Umar Sadiq, avançado do FK Partizan.

Com apenas 23 anos, o ponta de lança nigeriano não só já passou por várias equipas, como também já jogou em cinco países diferentes. Oriundo do Abuja FC, da Nigéria, chegaria a solo europeu em 2013 por mão do Spezia Calcio 1906, onde deu nas vistas, tendo sido contratado, então, pela AS Roma, em 2015.

A sua passagem pela equipa da capital de Itália não foi a mais feliz. Realizou apenas 6 jogos, com 2 golos marcados. O registo foi anda pior nos emblemas italianos a que foi emprestado, tendo vestido as camisolas do Bologna FC e do Torino FC sem qualquer golo marcado. A cada seis meses, foi saltando de equipa em equipa, com a Roma a ter de emprestar o jogador ao NAC Breda (da Holanda), ao Rangers FC (da Escócia) e ao AC Perugia Calcio (de Itália), emblemas nos quais marcou golos, mas nunca se destacou.

Cada janela de transferências significava um novo rumo na carreira de Sadiq. Contudo, esta época está a ser diferente para o avançado de 23 anos. Depois de emprestado pela AS Roma ao Partizan no mercado de verão, o clube sérvio optou por accionar a opção de compra na reta final do passado mercado de inverno.

Na presente temporada, Sadiq tem sido uma peça fundamental na formação de Savo Milosevic. Marcou 15 golos em 34 jogos, contribuiu com 11 assistências e assumiu-se como o melhor marcador da equipa, quer em contexto interno, quer na Liga Europa – num grupo disputado com o Manchester United FC, o AZ Alkmaar (que se apuraram) e o Astana FC.

A realizar a melhor época da carreira, Umar Sadiq tem-se revelado letal na formação de Belgrado, fruto da sua capacidade de trocar as voltas ao adversário, de revelar ter o timing certo e de ser forte na pressão ofensiva. Além disso, o ponta de lança (colega de equipa do já conhecido Markovic) faz valer também o seu 1,92 metros no jogo aéreo.

Face aos tempos que se vivem, todo o futebol parou, e o campeonato da Sérvia não foi exceção. Ainda assim, no meio de um plantel maioritariamente composto por jogadores sérvios, é Sadiq quem mais sobressai nos processos de jogo da equipa, que se encontra no 2º lugar, bem atrás do rival FK Estrela Vermelha. Será desta que o internacional nigeriano ganha asas para outros voos?

Artigo revisto