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O filme de Stanley Kubrick 2001: Odisseia no Espaço data de 1968 e ainda hoje é um marco na história do cinema, principalmente para os amantes de ficção científica. 33 anos separam a Odisseia de David Bowman e Frank Poole da Odisseia de Jaime Pacheco e dos seus pupilos: contra todas as expetativas, o Boavista FC quebrou a ‘ditadura’ dos três grandes e sagrou-se campeão nacional na época 2000/2001. 55 anos depois, Portugal voltava a coroar um campeão que não era o SL Benfica, o FC Porto ou o Sporting CP. Tal facto é bom demais, tão bom que até poderia ser ficção científica. Mas não. Foi real e ainda perdura na memória de todos. Tal como o filme de Stanley Kubrik.
O início da Odisseia
A corrida ao título de 2000/2001 começa com um Sporting na pole position, ou não fosse o campeão em título, tendo acabado com um jejum de 18 longos anos na época anterior. A juntar a isto, a chegada de João Vieira Pinto diretamente do outro lado da Segunda Circular fazia sonhar os adeptos leoninos. Benfica e Porto partiam mais atrás nesta corrida, tendo ambos perdido no defeso a sua principal referência (no Porto, Mário Jardel fez as malas e rumou à Turquia).
O Boavista, longe de sentir a pressão de um dos três grandes, começa o campeonato de forma tranquila, com duas goleadas que deixam água na boca aos adeptos axadrezados. Segue-se um empate algo inesperado com o Estrela da Amadora, ao qual se seguiu a primeira derrota da época, frente ao Sporting de Braga, para o campeonato. Daí para a frente, os comandados de Jaime Pacheco embarcam numa série de 16 jogos sem conhecer o sabor da derrota, começando com uma vitória na quinta jornada sobre o Benfica de José Mourinho (23 de Setembro), e só terminando no dia 17 de fevereiro, com uma derrota em Braga por 1-0.
Quase cinco meses sem perder para o campeonato permitiram ao Boavista ascender ao primeiro lugar da tabela, ultrapassando o Porto, após uma vitória sobre os dragões no último jogo da primeira volta. Na jornada seguinte, os azuis e brancos perdem na Luz com o Benfica e o Boavista aproveitou para se distanciar ainda mais no primeiro lugar.

Fonte: Boavista FC
A segunda volta da Odisseia
À semelhança do filme de Stanley Kubrik, em que o uso de diálogo foi mínimo, o Boavistão, mais do que de palavras ou argumentação forte, era visto como uma equipa de ação, muito trabalhadora, aguerrida e com um forte sentido de entreajuda. Mais do que palavras e previsões, jornada após jornada, a equipa de Jaime Pacheco ia mostrando dentro de campo os argumentos que lhe permitiam intrometer-se entre os três grandes na luta pelo título.
Até ao fim do campeonato, o Boavista faz uma segunda volta quase imaculável, apenas perdendo com Braga e Porto, este na última jornada, já com o título (bem) entregue. No sprint final, a Pantera empata na Luz, quando o Benfica ainda tentava o assalto à liderança, aproveita o empate entre Porto e Sporting na 25.ª jornada para ganhar distância e ainda dá a ‘estocada’ final nos leões com uma vitória incontestável na 29.ª jornada.
A 18 de maio de 2001, na penúltima jornada, o Boavista faz xeque-mate aos adversários e sagra-se campeão nacional, tornando-se na quinta equipa a fazê-lo em Portugal. Uma vitória por 3-0 sobre o Desportivo das Aves, no Bessa, selou a conquista do título, pela primeira vez na história do clube.
Uma equipa ‘durinha’
Muitas vezes descrita como uma equipa ‘durinha’, os axadrezados defendiam-se dizendo que eram uma equipa muito bem preparada e que corriam mais do que os outros. A verdade é que depois do treino, era rotina os jogadores irem para o Parque da Cidade trabalhar a sua condição física. Incontornável o facto de que o Boavista de Jaime Pacheco era uma equipa aguerrida e que corria do primeiro ao último minuto. Em entrevista, quando questionado sobre o rótulo de equipa agressiva, Jaime Pacheco defendia-se referindo que ‘só exigia que fossemos destemidos, sem ser maldosos. Nunca partimos a perna a quem quer que fosse.’ Então qual era o segredo desta equipa? Nas palavras do timoneiro axadrezado, ‘lá, dentro do campo, pressionávamos lá em cima, à saída da área deles e isso chateava muita gente.’

Fonte: Boavista FC
Após consultar as estatísticas dessa época, observa-se que os axadrezados foram admoestados com 88 cartões amarelos ao longo das 34 jornadas, sendo apenas a 12.ª equipa com mais cartões, num campeonato a 18 equipas. Em relação a cartões vermelhos, 4 no total da época, sendo a terceira equipa com melhor registo, apenas atrás de Sporting (2 vermelhos) e Sporting de Braga (3 vermelhos). Durinhos? A resposta é “nim”.
Outros números que mostram a superioridade deste Boavista são os 63 golos marcados, o segundo melhor ataque da prova, enquanto em termos defensivos, os axadrezados foram a equipa que menos golos concedeu: 22 golos sofridos, apenas seis no Bessa. Uma autêntica fortaleza.
Mais argumentos que façam justiça ao feito épico de Ricardo, Pedro Emanuel, Petit, Sanchez, Martelinho, Elpídio Silva e companhia? No confronto com os três grandes, uma única derrota, com o FC Porto na última jornada, quando já estava tudo decidido.
2001: Odisseia no?
Qual a diferença, então, entre 2001: Odisseia no Espaço e a Odisseia do Boavista de 2000/2001? Talvez o facto de o filme de Stanley Kubrick ter um final em aberto, que dá azo a múltiplas interpretações, enquanto a campanha dos axadrezados deixa poucas dúvidas: foram quem mais correu, quem mais lutou e quem mais mereceu chegar ao título nesse ano. 2001 será sempre recordado, sem dar azo a múltiplas interpretações, como o ano da Odisseia no Bessa.
Foto de Capa: Boavista FC









