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Millennium Estoril Open: Elias e Sousa ficam pelo caminho

cab ténis

O Millennium Estoril Open viu hoje alguns dos seus protagonistas ficarem pelo caminho: João Sousa perdeu para Rui Machado pelos parciais de 7-6 e 6-3, e Gastão Elias não conseguiu superiorizar-se ao francês Kenny De Schepper (6-2;2-6 e 6-3).

Gastão Elias, que vinha de jogar os quartos de final em Savannah, torneio de categoria Challenger, foi o primeiro dos portugueses a entrar em ação. Perante um court 2 com as bancadas a rebentar pelas costuras, Gastão entrou bastante mal na partida e rapidamente perdeu o primeiro set. Contudo, o português não deitou a toalha ao chão e subiu bastante o nível do seu jogo. Assim, e com alguns pontos de excelente qualidade, o encontro encaminhou-se naturalmente para uma terceira e decisiva partida. Gastão Elias, que até dispôs de dois break points no início do set, voltou novamente a baixar o nível do seu jogo, talvez um pouco cansado devido à viagem que foi “obrigado” a realizar, e acabou mesmo por não conseguir derrotar o francês. Será importante também referir que Kenny De Schepper, jogador que no ano passado alcançou a 64ª posição do ranking, apresentou um excelente ténis.

Para o encontro mais esperado do dia, que opunha João Sousa a Rui Machado, estava reservada a grande surpresa do dia. O vimaranense até chegou a liderar o primeiro set por 3-1, no entanto, Rui Machado, que se exibiu durante toda a partida a um excelente nível, conseguiu recuperar o break de atraso e vencer o primeiro set num renhido tie break (8-6). Sousa, que pareceu acusar a pressão de ser o favorito do público, nunca foi capaz de se exibir como lhe é habitual. Foi desta forma que, naturalmente, o algarvio acabou mesmo por levar de vencida João Sousa.

No que aos outros encontros diz respeito, Richard Gasquet, que regressou à competição após ausência devido a lesão, bateu o australiano Marinko Matosevic pelos parciais de 7-6 (9-7 no tie-break) e 6-1; o francês teve ainda de salvar dois set points no primeiro set. A armada espanhola, composta por Almagro, Garcia-Lopez, Carreno Busta, Montanes, Carballes Baena e ainda Albert Ramos, teve um dia bastante positivo. Almagro derrotou Stephane Robert sem grandes dificuldades (6-3 e 7-6, 7-4 no tie-break); Garcia-Lopez venceu o embate 100% espanhol frente a Carballes Baena, oriundo da fase de qualificação, por dois sets a zero; Montanes e Carreno Busta também carimbaram o passaporte para a segunda ronda, ambos com vitórias em apenas dois sets.

Albert Ramos, naquele que foi, na minha opinião, o melhor encontro do dia, saiu derrotado pela jovem promessa do ténis australiano, Nick Kyrgios. O australiano até poderia ter fechado o encontro em apenas dois sets visto que liderou o tie-break por 5-3; no entanto, o espanhol conseguiu recuperar a desvantagem e fechar o segundo set. Na terceira partida, Albert Ramos chegou mesmo a dispor do seu serviço para fechar o encontro, mas Kyrgios, sempre com a irreverência que lhe é característica, anulou o break de vantagem do espanhol e levou a decisão do set e, consequentemente, do jogo para novo tie-break.

"Tive muita sorte em não ser desqualificado" declarações de Nick Kyrgios Fonte: Millennium Estoril Open
“Tive muita sorte em não ser desqualificado” – declarações de Nick Kyrgios
Fonte: Millennium Estoril Open

Nesse mesmo tie-break, Kyrgios, que já tinha dois warnings (abuso de linguagem e raquete), demonstrou a sua insatisfação e atirou a bola para fora do estádio. Ora, as regras prevêem que ao terceiro warning o jogador perca o encontro. O árbitro, Fergus Murphy, de forma inexplicável, nada fez aquando deste incidente. Albert Ramos ainda pediu explicações junto do árbitro irlandês, mas de nada lhe valeu. Desta forma, e visto que Nick Kyrgios acabaria mesmo por vencer o encontro, a verdade desportiva não imperou.

Resta ainda dizer que Pedro Sousa e João Domingues foram derrotados por Huey e Lipsky, segunda dupla pré-designada, pelos parciais de 6-3 e 6-0.

Foi assim mais um dia cheio de emoções no Millennium Estoril Open. O grande destaque do dia vai para a eliminação de João Sousa perante Rui Machado; o melhor tenista português de sempre, João Sousa, voltou a não confirmar as expectativas que lhe eram depositadas. De realçar ainda a eliminação de Gastão Elias. As esperanças lusitanas estão agora depositadas apenas num tenista: Rui Machado. O adversário que se segue, Borna Coric, não será tarefa nada fácil para o algarvio.

Melhor encontro do dia: Nick Kyrgios – Albert Ramos

Maior surpresa do dia: Vitória de Rui Machado frente a João Sousa

Foto de Capa: Millennium Estoril Open

Uma semana perfeita

cab bundesliga liga alema

Demolidor. Foi desta maneira que todos adjectivámos o Bayern desta terça-feira. A goleada nos quartos-de-final da Champions, perante o Porto, foi o início de uma semana de sonho para o campeão alemão.

Depois dessa eliminatória extenuante, da qual o Bayern saiu recarregado de confiança, Pep Guardiola decidiu deixar descansar alguns dos habituais titulares e pôs em campo um onze alternativo. Acertadamente, como se veio a confirmar. O Bayern Munique não jogava com nove alemães no onze inicial desde 1999, e foi um desses novatos, Weiser, que desenhou um lance de génio e ofereceu um verdadeiro penálti a Schweinsteiger. No regresso à titularidade, o criativo não vacilou e garantiu a vitória na recepção ao perigoso Hertha. Apesar da apática exibição, os campeões em título souberam gerir a partida e levá-la a bom porto. E assim, o Bayern só precisava de esperar que o Wolfsburgo não ganhasse no reduto do Borussia Monchengladbach, colectivo que venceu os próprios bávaros, para ser campeão no sofá.

Schweinsteiger marcou o golo do título Fonte: Facebook do Bayern
Schweinsteiger marcou o golo do título
Fonte: Facebook do Bayern

O Wolfsburgo vinha cansado, esgotado e animicamente em baixo da eliminatória desastrosa frente ao Nápoles, para a Liga Europa. Apresentou-se perante o Borussia como uma equipa aborrecida e sem iniciativa, desprovida de Dost, mortífero avançado que neutralizou o Sporting. Nem os esporádicos rasgos de genialidade de De Bruyne chegaram para evitar o antecipado título do Bayern. O Wolfsburgo foi conseguindo adiar o golo da derrota quase até ao fim, muito graças a Diego Benaglio, mas não evitou o tento da vitória do Monchengladbach, aos 89 minutos. O Bayern é tricampeão alemão, com 15 pontos de avanço a quatro jornadas do fim.

E agora, com o campeonato no bolso e apenas a Taça da Alemanha como distracção, Guardiola pode dedicar-se quase por completo à Liga dos Campeões. O sorteio ditou uma final antecipada, frente ao Barcellona, equipa que não se pode gabar de já ter as competições caseiras resolvidas; o campeonato está ainda muito instável, com o Real Madrid à perna, apesar da vantagem catalã. O Bayern pode tomar partido desta possível superioridade e apresentar-se com os jogadores mais fortes física e psicologicamente, e desfrutar de mais tempo para preparar o embate.

É claro que é uma vantagem teórica, mas, tal como o próprio Guardiola afirmou, a equipa “tem sido magnífica”. Vamos esperar para ver; vão ser umas meias-finais que poderiam perfeitamente tratar-se da própria final.

Foto de Capa: Facebook do Bayern

Millennium Estoril Open: portugueses morrem na praia

cab ténis

O quadro principal do Millennium Estoril Open teve ontem o seu arranque, contudo, ainda houve lugar à realização dos últimos 4 encontros relativos ao qualifying, onde ainda estavam envolvidos 2 portugueses, Frederico Gil e Pedro Sousa.

Primeiro, foi a vez de Pedro Sousa, que acabou por ser derrotado pelo francês Constant Lestienne em 2 renhidos sets com os parciais de 7-5/7-6 (com 7-3 no tie-break). Por sua vez, Frederico Gil, que vinha de uma excelente vitória frente ao terceiro cabeça de série da fase de qualificação, Niels Desein, acabou por não conseguir contrariar o maior favoritismo de Martin Fischer acabando por ceder pelos parciais de 4-6;6-3 e 6-4.

Por último, e num encontro relativo ao quadro principal, Frederico Silva defrontou Gilles Muller, 8.º pré-designado. O luxemburguês começou melhor e conquistou com bastante facilidade a primeira partida. No entanto, e quando nada o fazia antever, o português equilibrou a partida e conseguiu mesmo arrecadar o segundo set por 6-4. No terceiro set, e talvez fruto da inexperiência nestes palcos por parte de “Kiko”, que até dispôs de break point logo no início da terceira e decisiva partida, Muller conseguiu superiorizar-se e qualificou-se, assim, para a segunda ronda do torneio português.

No que aos restantes encontros diz respeito, destaque para a vitória de Borna Coric, a nova coqueluche do ténis Croata, sobre Jeremy Chardy (6-2 e 6-4). Coric aguarda agora pelo vencedor do encontro entre Rui Machado e João Sousa.

Para hoje, e num dia onde estarão nada mais, nada menos do que 5 portugueses em ação, destaque para Gastão Elias, que vai defrontar Kenny de Schepper, e João Sousa que, como foi anteriormente referido, defronta Rui Machado. Na variante de pares, Pedro Sousa e João Domingues fecham o dia no court central; a dupla portuguesa defronta os segundos cabeças-de-série, Scott Lipsky e Treat Huey.

Foto de Capa: Millenium Estoril Open

‘Podcast’ Bola na Rede – 86.º Programa

O Clássico entre o Benfica e o FC Porto (0-0) é o foco do programa radiofónico, desta semana, do Bola na Rede. Mário Cagica Oliveira é o moderador e terá como comentadores convidados Francisco Manuel Reis (FC Porto), João Almeida Rosa (Sporting) e João Rodrigues (Benfica). A não perder!

Bola na Rede – 86.º Programa by Bola Na Rede on Mixcloud

Millennium Estoril Open: Previsão

cab ténis

O quadro principal do Millennium Estoril Open, apesar de não contar com nenhum jogador do top10 mundial, pauta pelo equilíbrio e a incerteza sobre quem vai sair vencedor na final do próximo domingo; João Sousa, o melhor jogador português de sempre, defronta Rui Machado na primeira ronda do torneio português

O sorteio, realizado no passado dia 25 de Abril, foi bastante caprichoso; comecemos pelos mais jovens. Frederico Silva, que faz hoje a sua estreia em torneios ATP, vai defrontar o experiente luxemburguês Gilles Muller (8.º pré designado). O mais jovem dos portugueses presentes no quadro principal não terá tarefa nada fácil perante Muller. No entanto, Kiko terá as suas hipóteses e deve sobretudo desfrutar da oportunidade que lhe foi concedida, apenas desta forma poderá eventualmente seguir em frente.

Gastão Elias, que por duas vezes já alcançou os Quartos-de-final em solo português, terá, pelo menos em teoria, uma tarefa bastante mais facilidade visto que jogará contra um tenista oriundo da fase de qualificação. Por último, e infelizmente para os tenistas portugueses, o sorteio quis que Rui Machado, que beneficiou de um convite por parte da organização, defrontasse João Sousa. O Vimaranense, que, contrariamente ao ano transato, não foi cabeça de série, não deverá ter grandes dificuldades em bater o algarvio. Todavia, qualquer que seja o vencedoro, a tarefa não se adivinha nada fácil; Jeremy Chardy, 6.º cabeça-de-série, ou Borna Coric, que recentemente bateu Andy Murray, são jogadores que irão certamente causar grandes dificuldades.

Fonte: Facebook oficial do Millennium Estoril Open
Fonte: Facebook oficial do Millennium Estoril Open

Posto isto, e como já foi anteriormente referido, o quadro encontra-se bastante aberto e é difícil prever um vencedor. Contudo, e tendo em conta o atual momento de forma, na minha opinião o grande favorito à conquista do titulo é o espanhol Tommy Robredo; relativamente a João Sousa, o tenista português terá de saber lidar com a pressão e, utilizando uma expressão futebolística, pensar jogo a jogo. Espera-nos um torneio bastante atrativo e pautado pelo espetaculo. Deixo-vos com algumas das minhas previsões para o torneio português:

Vencedor – Tommy Robredo

Maior “surpresa” – Nicolas Almagro/Gastão Elias

Maior desilusão – Nick Kyrgios

O dérbi eterno e os problemas do Futebol Sérvio

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Chamam-lhe Večiti derbi (o dérbi eterno) e opõe dois históricos do futebol do leste da Europa e dois nomes incontornáveis na prática da modalidade no velho Continente. Estrela Vermelha (FK Crvena zvezda) e Partizan Belgrado (FK Partizan) mediram forças no passado Sábado no mítico Maracanã sérvio (Stadion Rajko Mitic) num jogo a contar para a 24ª jornada da SuperLiga daquele país dos Balcãs, que terminou empatado a zero. O jogo que deveria ser recordado pelo futebol praticado dentro das quatro linhas vai antes ser lembrado pelos graves incidentes que o antecederam e que obrigaram o árbitro e a federação sérvia a adiar o início da partida 45 minutos.

Os adeptos, com especial destaque para os da equipa da casa, envolveram-se em violentos confrontos com a polícia antimotim, lançando foguetes e cadeiras às forças de autoridade, que se viram obrigadas a retirar por alguns momentos à espera de mais um destacamento policial. O início do jogo, muito depois da hora marcada, não significou contudo o fim das hostilidades, uma vez que durante a segunda metade a partida teve de ser interrompida novamente, até que o fumo proveniente dos foguetes e das tochas que ardiam nas bancadas onde estavam os Delije e os Grobari se dissipasse totalmente.

Resultado final de mais um Dérbi Eterno na mítica cidade de Belgrado Fonte: FK Partizan
Resultado final de mais um Dérbi Eterno na mítica cidade de Belgrado
Fonte: FK Partizan

No que ao futebol diz respeito, foi na verdade um jogo pouco emocionante com apenas duas oportunidades dignas desse nome durante os primeiros 45 minutos. Foi de Darko Lazovic a melhor oportunidade para os homens da casa, à qual respondeu Stefan Babovic também com uma boa possibilidade para marcar. Após o reatamento, o Partizan conseguiu de certa forma controlar as operações e teve várias oportunidades para sentenciar o jogo, mas todas as tentativas esbarraram num inspirado Pedraj Rajkovic, que defendeu com bravura as redes do Estrela Vermelha.

As épocas de glória destas duas equipas e do futebol da antiga Jugoslávia estão já bem enterradas no passado e o desmembramento daquela antiga potência do leste da Europa fez com que o futebol, também ele, pagasse a pesada factura de uma sangrenta guerra civil e de uma crise económica e social que devastou o país.

Da nossa memória colectiva faz seguramente parte aquela majestosa equipa do Estrela Vermelha, que venceu a Taça dos Clubes Campeões Europeus (Liga dos Campeões) em 1991, após bater o poderoso Marselha por 5-3 nas grandes penalidades. Robert Prosinecki, Darko Pancev, Dejan Savicevic, Vladimir Jugovic e Sinisa Mihajlovic são nomes que, seguramente, aqueles que amam o futebol nunca irão esquecer. Pela mão do lendário Ljupko Petrovic, o Estrela Vermelha surpreendeu a Europa deixando pelo caminho equipas como o grande Bayern Munique e Dynamo Dresden, entre outras.

Stefan Babovic fica a centímetros de bater o GR do Estrela Vermelha Predrag Rajkovic Fonte: FK Partizan
Stefan Babovic fica a centímetros de bater o GR do Estrela Vermelha Predrag Rajkovic
Fonte: FK Partizan

Os seus rivais de Belgrado, o Partizan, não têm o mesmo palmarés internacional dos seus detestados vizinhos, mas os seus fervorosos adeptos não esquecem seguramente a poderosa equipa que chegou à final das Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1966, caindo apenas no confronto com o Real Madrid do grande Miguel Muñoz.

A realidade actual é bem diferente para ambas as equipas, mas tem sido curiosamente o Partizan Belgrado que melhor se tem adaptado às mudanças pelas quais aquele país dos Balcãs tem passado. Os Crno-Beli ganharam 12 títulos nacionais nos últimos 20 anos contra apenas 7 do Estrela Vermelha, que, após ter vencido a SuperLiga na época passada, viu este Sábado a renovação desse mesmo título fugir-lhe por entre os dedos.

O país que foi em tempos apelidado de Brasil da Europa (de tão belo e sumptuoso que era o seu futebol) vê-se agora a braços com uma cultura de violência arrepiante que, acompanhada de uma forte crise financeira e social, não só impede o desporto rei de voltar a atingir os patamares de outrora, como também faz com que o Dérbi Eterno seja apenas notícia pelos motivos errados.

Foto de Capa: FK Partizan

Benfica 0-0 FC Porto: Todos queriam ganhar e ninguém quis perder

cabeçalho benfica

«O empate é um resultado que pode deixar os adeptos algo desiludidos. Mas eu, como treinador, já perdi muitos jogos porque jogando ao ataque e a outra equipa em contra-ataque marca e ganha. (…) Podíamos não ganhar, mas era muito importante não perder.»

(Mário Cagica Oliveira) As ideias são de Giovanni Trapattoni, último treinador campeão no Benfica, antes de Jorge Jesus. Quem me conhece (ou já leu o que escrevi noutras ocasiões) sabe que sempre fui muito crítico com determinadas decisões do treinador português. Hoje, porém, creio que o treinador do Benfica pensou bem o jogo. Soube ser pragmático e cedo percebeu que as circunstâncias de jogo poderiam não lhe ser favoráveis, caso tivesse tomado riscos desmedidos. Ao contrário dos jogos em Paços de Ferreira e no terreno do Rio Ave, Jesus percebeu que um ponto poderia ser um mal menor no jogo em questão. Já diz o velho ditado: «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar».

(Francisco Vaz Miranda) Foi ligado ao facto de o empate lhe ser suficiente – pelo menos visto à luz de Jesus – que a equipa do Benfica se apresentou ao longo de todo o encontro. Por demais visível em toda a primeira parte esta retracção e contenção do Benfica – pouco costume na Luz – e que acabaria por tornar a primeira metade num verdadeiro marasmo. A média de uma falta a cada dois minutos neste tempo de jogo é suficiente para se ter a noção do tão pouco e pobre futebol que se jogou.

Surpreendeu Lopetegui ao reforçar o meio-campo (porventura já prevendo um jogo extremamente físico e de contacto) com as entradas de Rúben Neves e Evandro, empurrando Oliver para perto de Eliseu na extrema-direita do ataque portista e Herrera para o banco. Já Jorge Jesus apostou, e uma vez mais incompreensivelmente, em Talisca para o lugar de Salvio. Depois da nulidade que foi em Vila do Conde a jogar na mesma posição, o baiano voltou a rubricar uma exibição tão boa quanto o jogo no seu todo: nula.

As amarras do jogo de título começaram, pois, a construir-se na primeira parte, em que só ficou um remate de Jackson Martínez por cima da baliza para contar em termos de oportunidades de golo. De resto, faltas, passes perdidos, contactos físicos e bolas pelo ar era tudo aquilo que se via na Luz.  Em certa medida fez, até, lembrar os derbys de Madrid entre o Real e o Atlético. Um Benfica demasiado expectante e sabendo que o empate lhe servia os interesses deixava o Porto ter a bola. Mas longe, sempre bem longe de Júlio César. É esta uma das grandes qualidades deste Benfica e que salta à vista em jogos deste tipo: mesmo sem a posse da bola, o Benfica não se deixa incomodar por isso e, impedindo o adversário de se aproximar com perigo, consegue controlar o jogo a seu gosto.

Jardel fez uma exibição fantástica no clássico Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Jardel fez uma exibição fantástica no clássico
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

(Mário Cagica Oliveira) No segundo tempo, a tendência inverteu-se. O Benfica melhorou e quis procurar com maior vontade a baliza de Helton. Lopetegui percebeu isso e tentou lançar Quaresma para agitar o jogo dos dragões, mas a decisão foi infeliz. O internacional português passou ao lado do jogo e, tal como Hernâni que também entrou no segundo tempo, não conseguiu criar desequilíbrios, nem tão pouco provocar a expulsão do sempre imprevisível Eliseu (já tinha um cartão amarelo).

Já o Benfica, que no primeiro tempo não tinha conseguido exercer domínio no centro do terreno, melhorou substancialmente com a entrada de Fejsa para o lugar do apagadíssimo Talisca. Mais uma exibição miserável do médio/avançado brasileiro, que teima em regredir no seu processo de integração no futebol europeu. No sentido oposto, Fejsa entrou para modificar o jogo encarnado. O trinco sérvio é um dos jogadores mais inteligentes do nosso campeonato e voltou a comprová-lo no encontro de hoje. Irrepreensível no posicionamento, fortíssimo na recuperação de bolas e quase perfeito a ler o jogo. O amarelo que leva hoje – fruto da lógica falta de ritmo de jogo – é um bom exemplo disso mesmo. De resto, pertenceu mesmo o médio sérvio a melhor oportunidade do jogo, com um remate por cima da baliza, muito semelhante ao de Jackson Martínez no primeiro tempo.

O empate neste clássico acaba por se ajustar ao que ambas as equipas procuram produzir durante os 90 minutos. Os dragões foram melhores no primeiro tempo e os encarnados no segundo, sendo que as duas melhores ocasiões de golo foram repartidas por ambas as equipas. Tendo em conta a classificação atual e os jogos que faltam até final, parece-me claro que o Benfica tem, neste momento, 85% de possibilidades de renovar o título de campeão nacional.  Para o FC Porto, caso se confirme mais uma época a zeros em termos de títulos, é um enorme rombo no investimento e expectativas criadas para esta temporada 2014/15.

A Figura:

Jardel –  Um jogo perfeito do defesa-central do Benfica. Nem um erro e sempre muito certinho nas abordagens aos lances do adversário. É um guerreiro, um jogador com excelentes atributos físicos e, acima de tudo, um verdadeiro jogador de equipa. Hoje, depois do amarelo a Eliseu, fartou-se de dar indicações e fazer dobras ao colega do lado esquerdo da defesa encarnada. Quem o viu e quem o vê. Está feito um senhor central. Menções honrosas também para Samaris, Maxi Pereira e Fejsa. Quatro patinhos feios que demonstram bem que o futebol é muito mais do que apenas talento individual. (Mário Cagica Oliveira) 

O Fora-de-jogo:

Abordagem de Jorge Jesus ao jogo – Não consigo encaixar a filosofia de Trapattoni neste jogo. Um Porto combalido da humilhação de Munique não podia, de maneira alguma, ser temido da maneira como foi. O Benfica podia ter acabado com o campeonato hoje e não o fez por demérito próprio. Não obstante isto, é notável a organização defensiva de nível mundial do Benfica que Jesus construiu. (Francisco Vaz Miranda) 

Foto de Capa: Sport Lisboa e Benfica

Benfica 0-0 FC Porto: Lopetegui jogou para não perder e Jesus fez-lhe a vontade

eternamocidade

Um dos lugares comuns que não raras vezes são repetidos, quando se analisa a competência ou incompetência de um treinador ou de um jogador, é o facto de este querer ou não ganhar. Depois do clássico desta tarde, no Estádio da Luz, talvez esse seja o argumento mais importante para ser analisado por parte dos adeptos portistas. Quanto a mim, não tenho dúvidas de que foi nessa premissa que Lopetegui caiu no jogo de hoje. Depois de um jogo como o de hoje, é impossível criticar o FC Porto por erros defensivos, tática errada ou posicionamento desacertado em campo. Não posso, porque nada disso aconteceu. Depois de um jogo como o de hoje, não posso entrar no exercício de criticar apenas A, B ou C. Após um clássico como o que vimos, a “única” coisa que posso apontar ao FC Porto é a falta de ambição em vencer.

Olhando para aquilo que é o jogo, talvez a falta de ambição se deva sobrepor a tudo o resto. É certo que, para a história do futebol, pouco importa se o Benfica foi ou não beneficiado em alguns jogos, pouco importa se o FC Porto foi ou não ingénuo em tantos outros e pouco importa se o jogo de hoje foi apenas mais um exemplo daquilo que tem sido o campeonato nacional. Depois da partida entre a equipa de Jorge Jesus e de Lopetegui, o que me provoca mais confusão é não ter visto uma equipa com ânsia pelos três pontos, com desejo pelo único resultado que interessava no jogo de hoje: a vitória.

Olhando para o onze inicial do técnico espanhol, isso era por demais evidente: retirando do onze o principal motor (Herrera) e um dos principais desequilibradores (Quaresma) – colocando Rúben Neves junto a Casemiro e pondo Evandro no vértice mais avançado do meio campo, reposicionando Oliver numa ala – a imagem que Lopetegui deu foi a de um treinador receoso, com medo de perder em vez da vontade de ganhar. Em tese e num contexto mais “normal”, com o campeonato ainda no seu início e com muito pela frente para jogar, a ideia de Lopetegui, ainda que de clube pequeno, não seria totalmente alvo de crítica, até pela dificuldade intrínseca em jogar na Luz.

Com quatro jogos para disputar após o clássico e com a vitória como o único resultado possível, Lopetegui simplesmente não podia dar este sinal à equipa e aos adeptos. De um lado e de outro, facilmente se percebeu, a partir dos primeiros minutos do jogo, aquilo que seria o figurino do clássico. Do lado encarnado, com Jesus a colocar Talisca como falso ala, via-se um Benfica a ser muito mais pragmático e muito menos vertiginoso no jogo ofensivo. Por falar em jogo ofensivo, isso foi algo que nem sequer se viu do lado benfiquista na primeira parte, sem um único remate para amostra e para a estatística da partida.

FC Porto e Benfica não conseguiram marcar no jogo de hoje Fonte: FC Porto
FC Porto e Benfica não conseguiram marcar no jogo de hoje
Fonte: FC Porto

Do lado portista, a tática defensiva de Lopetegui procurava segurar o jogo interior e as dinâmicas de Gaitán e Jonas. Contudo, ao colocar nitidamente Casemiro em cima do avançado brasileiro, o FC Porto perdeu o primeiro elemento de construção, sendo que, apenas com Brahimi como “puro” ala, a equipa raramente conseguiu lateralizar o jogo e colocar no relvado da Luz uma das suas principais qualidades: o jogo pelas faixas. Por isso mesmo, a primeira parte foi quase um marasmo de futebol e um duelo tático em que as equipas se encaixaram no meio campo. Do lado benfiquista, o empate era ótimo e, mesmo nunca o conseguindo fazer no primeiro tempo, era fácil perceber que Jesus, tal como nos jogos do Dragão e de Alvalade, havia montado a equipa sobretudo para explorar o erro do adversário no setor defensivo.

Mesmo com o controlo da bola, o FC Porto raramente conseguiu entrar no último terço encarnado e por isso, bem feitas as contas à primeira parte, esta apenas teve uma verdadeira oportunidade, com Jackson, sem marcação dentro da área, a rematar forte por cima da baliza do guarda redes Júlio César. Com um jogo muito mais disputado do que bem jogado, o intervalo chegava sem saudades para os adeptos e depois de 45 minutos onde o Benfica jogava com a estratégia e o FC Porto parecia contentar-se com o resultado.

Como não podia deixar de ser, até pela falta de ideias de ambos os conjuntos no primeiro tempo, a segunda parte trouxe um jogo diferente, muito mais atrativo, rápido e intenso. Do balneário surgiu um Benfica muito mais pressionante, subindo linhas e colocando o bloco muito mais próximo, colocando o FC Porto em mais dificuldades para construir jogo. Lopetegui tentou emendar a mão, colocando Herrera, Quaresma e Hernâni nos lugares de Rúben Neves, Brahimi e Evandro, mas nem por isso a equipa conseguiu ser muito mais incisiva no último terço de terreno. Mesmo tendo o jogo quase sempre sob “controlo”, a posse de bola portista foi quase sempre estéril porque as dificuldades em criar perigo junto da defensiva contrária continuaram iguais às do primeiro tempo.

Mesmo com um ou outro lance de perigo de Jackson ou Hernâni, os portistas sempre transmitiram a imagem de uma equipa contente com um empate, que simplesmente não servia para as contas do campeonato. À medida que os minutos passavam, aquilo que se esperava é que se visse um FC Porto a correr mais riscos, a colocar mais homens no processo ofensivo e a ser mais incisivo e eficaz na procura pelo golo. Nada disso aconteceu pois olhar para o jogo portista é quase analisar uma linha que raramente teve turbulência, dado a acalmia em que o clássico esteve e que só beneficiou o Benfica.

Do lado encarnado, mesmo nas substituições, Jesus nunca escondeu aquilo que queria do jogo: colocando Fejsa no lugar de Talisca e André Almeida no lugar de Pizzi, o técnico português deu o sinal claro do que queria do clássico. Mais do que ganhar, o Benfica mostrou que não queria perder este jogo, para manter os três pontos e a vantagem no confronto direto relativamente ao FC Porto. Também por isso, o jogo desta tarde foi apenas mais um exemplo daquilo que tenho defendido ao longo dos últimos meses: mais do que o mérito que o Benfica terá na conquista do bicampeonato, desta Liga fica um FC Porto que deixa a imagem de que poderia ter dado muito mais e que apenas não sairá vencedor por ingenuidade, falta de experiência e falta de noção da realidade em muitos momentos da época.

Em tese, o empate na Luz seria um bom resultado, houvesse mais campeonato para recuperar a desvantagem. Como não há, a frustração que fica é a de, no clássico desta tarde, não ter visto um FC Porto com a ambição que se exigia e com a vontade em ganhar que se imperava à equipa. Nada disso aconteceu, e o que fica é uma equipa com quatro jogos por disputar sem qualquer objetivo realista por conquistar. Tal como havia dito há uma semana, os jogos contra Bayern e Benfica seriam decisivos para a época portista. Uma eliminação com a melhor equipa do mundo e um empate na Luz é algo que, em tese, é perfeitamente natural. Aquilo que não é natural, para um adepto portista, é ver uma equipa que, mais do que querer ganhar, hoje mostrou que não queria perder. É isso que me custa. E é por isso que o campeonato acabou hoje. 

A Figura:

Casemiro/Samaris – Num jogo tão fechado taticamente, os dois médios defensivos foram claramente as figuras maiores do clássico. De um lado e de outro, a consistência dada pelo brasileiro e pelo grego foram fundamentais para o buraco tático em que o clássico se transformou praticamente do primeiro ao último minuto.

O Fora de jogo:

Julen Lopetegui – A imagem que transmitiu ao colocar um onze tão defensivo foi a de um treinador sem espírito portista e sem noção de que a vitória era o único resultado que servia à equipa. Sai da Luz com um empate e, tal como no jogo no Dragão, com a noção de que apenas não será campeão por culpa própria e por falta de nervo quando se exigia.

Foto de Capa:

Recordar é Viver: Benfica vs FC Porto

recordar é viver

Hoje é dia de clássico, o jogo mais explosivo do futebol português, neste caso o jogo do título. Num Estádio da Luz que se prevê completamente lotado, os dois grandes rivais enfrentar-se-ão numa partida que poderá muito bem ser decisiva para as contas deste campeonato. Portanto, temos tudo para assistir a mais um desafio inesquecível entre duas equipas, desafio esse que se juntará à galeria dos muitos e muitos clássicos que ainda hoje permanecem na história do futebol português.

Seleccionei três partidas entre Benfica e FC Porto, sendo que todas elas terminaram com resultados diferentes, tendo como ponto comum o facto de terem contribuído de uma forma decisiva para o desfecho de cada campeonato.

Benfica 2-3 FC Porto: Época 1991/92

Resumo do Jogo

Temporada 1991/92, 28.ª jornada, 90 mil espectadores no antigo Estádio da Luz. Fantástica tarde para a prática do futebol e por isso mesmo ambiente efervescente nas bancadas. Cerca de 30 mil (!) adeptos do FC Porto fizeram questão de comparecer na Luz para dar o decisivo impulso à equipa orientada por Carlos Alberto Silva. Os “dragões” eram líderes isolados da prova e viam ao fundo do túnel a hipótese de reconquistar o campeonato ao Benfica, campeão nacional na altura, e que tinha como técnico um tal de Sven-Goran Eriksson, então na sua última época ao serviço dos “encarnados”. Mas já se notava claramente uma mudança de paradigma no futebol nacional. O FC Porto estava cada vez mais forte e ia aproveitando uma progressiva quebra dos rivais lisboetas, apesar de o Benfica ainda contar na altura com grandes plantéis.

Quanto ao jogo em si, um soberbo espectáculo de futebol. Golos, jogadas de perigo, emoção, casos, futebol total entre duas equipas de grande nível. O desafio era mais importante para um Benfica que se perdesse praticamente diria adeus à luta pelo título. A iniciativa de jogo pertenceu quase sempre às “águias”, mas as investidas do Benfica iam quase sempre esbarrando na seguríssima defesa do FC Porto, que era um dos grandes apanágios de Carlos Alberto Silva. À medida que o tempo passava o Benfica perdia fulgor, expondo-se cada vez mais ao letal contra-ataque do rival. Por isso mesmo, não espantou que os azuis-e-brancos de adiantassem no marcador por intermédio de João Pinto, através de uma grande penalidade, depois de uma falta cometida por Rui Bento que lhe implicou a expulsão.

A partir daí o desafio entrou numa fase louca, com golos para ambas as equipas. William empatou a contenda para o conjunto da casa, para de seguida Kostadinov restabelecer a vantagem azul-e-branca. Mas no minuto seguinte o Benfica voltou a empatar na sequência de um golo de Yuran, até que à beira do apito final (e numa altura em que o FC Porto também estava reduzido a 10 unidades, devido à expulsão de Jaime Magalhães), Timofte estabelecia o resultado final, colocando assim a sua equipa na rota do título. Quanto ao Benfica, a época ficava praticamente perdida e Eriksson já se preparava para regressar ao futebol italiano, onde continuaria a ser muito feliz.

Benfica 0-0 FC Porto: Época 1992/93

Resumo do Jogo

Uma época depois e cenário idêntico. O Benfica recebia um FC Porto que se encontrava na primeira posição e que procurava pontuar na Luz para ficar mais perto do bicampeonato nacional. Na segunda temporada de Carlos Alberto Silva no comando dos “dragões”, o FC Porto mantinha a espinha-dorsal da sua equipa, num misto de juventude (Vítor Baía, Fernando Couto, Jorge Couto, Domingos) com jogadores consagrados e mais experientes (André, Aloísio, Jaime Magalhães, Kostadinov). Pela frente tinha um Benfica dotado de um plantel assombroso (Hélder, Mozer, Veloso, Schwarz, Paulo Sousa, Kulkov, Pacheco, João Pinto, Isaías, Rui Costa, Vítor Paneira Rui Águas) e…Paulo Futre, o melhor jogador português da altura. Mas por mais estranho que possa parecer o Benfica tinha mais um campeonato em risco.

Toni era o treinador da equipa desde a 10.ª jornada, substituindo um Tomislav Ivic que teve uma primeira fase de campeonato paupérrimo. A 1.ª volta foi fraca, mas com a 2.ª metade da prova vieram as boas exibições e o futebol que se exigia a tão bom lote de jogadores começou a aparecer. Assim sendo, era com enorme expectativa que se antevia o “jogo do título” na Luz. Com um ambiente extraordinário nas bancadas, a partida decepcionou imenso. O Benfica raramente conseguiu construir grandes ocasiões de golo, ao passo que o FC Porto conseguiu gerir o jogo quase a seu bel-prazer, pese embora tenha passado por um outro susto. Encarando o jogo de uma forma extremamente pragmática, bem ao estilo de Carlos Alberto Silva, a equipa portuense saía da Luz com o mesmo avanço pontual sobre o Benfica, o que viria a revelar-se precioso para a conquista do bicampeonato.

Por seu turno, os comandados de Toni terminariam o campeonato no 2.º lugar, claramente uma desilusão para quem tanto tinha apostado para aquela temporada. Do mal o menos, o Benfica acabou por conquistar a Taça de Portugal daquele ano, mas já eram evidentes várias convulsões internas no clube e que teriam repercussões muito grave passados poucos anos.

Benfica 2-0 FC Porto: Época 1993/94

Resumo do Jogo

Estávamos no dia 6 de Fevereiro de 1994, 18.ª jornada do campeonato nacional. O Benfica, orientado por Toni, defrontava o FC Porto que estreava no banco, em partidas a contar para o campeonato, Bobby Robson. O treinador croata, Tomislav Ivic, voltava a ser o réu e depois de uma má 1.ª volta saía do clube das Antas sem deixar saudades. O Benfica era o líder da prova com uma vantagem de quatro pontos sobre o rival (a vitória valia dois pontos) e por isso mesmo havia a consciência de que uma vitória benfiquista significaria o adeus ao título por banda do FC Porto.

No Verão de 1993 o Benfica havia sofrido uma razia em termos de saídas. Foi o célebre “Verão Quente” em que Paulo Sousa e Pacheco trocaram a Luz por Alvalade alegando salários em atraso, sendo que João Pinto também esteve a um pequeníssimo passo de seguir o mesmo caminho. Paulo Futre também já não morava na Luz, após ter saído para o Marselha, mas mesmo assim os “encarnados” aguentaram o choque e de uma forma surpreendente foram somando pontos, instalando-se no primeiro posto da tabela. Já o FC Porto mantinha a mesma estrutura da época anterior, mas com o Ivic o futebol praticado nunca convenceu, situação que se traduziu em vários desaires. Com Bobby Robson ao leme dos então campeões nacionais, a qualidade de jogo ira melhorar bastante e iriam ser criadas as bases para um ciclo dourado no clube.

Todavia, e em relação ao clássico na Luz, o Benfica triunfou sem grande discussão. Uma vitória por 2-0 em noite chuvosa alicerçada numa boa exibição das “águias” que jogaram com mais uma unidade em campo a partir dos 40 minutos de jogo, após expulsão de Fernando Couto com vermelho  directo, na sequência de uma agressão a Mozer, num lance que motivou uma célebre declaração de Robson na conferência de imprensa pós-jogo, afirmando que o resultado tinha sido de “Benfica 2-0  Fernando Couto”. Com golos de Ailton e de Rui Costa, o Benfica consolidava o primeiro lugar e praticamente arredava o FC Porto da luta pelo título, mesmo ainda faltando muito campeonato.

E a verdade é que a equipa da Luz sagrar-se-ia mesmo campeão nacional, para depois entrar numa espiral de más temporadas que conduziriam o clube a um período muito delicado da sua história. Por seu turno, o FC Porto venceria a Taça de Portugal dessa temporada, para depois…iniciar o trilho do pentacampeonato.

O novo “príncipe” do Mónaco

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cab ligue 1 liga francesa

Bernardo Silva, que no início desta época foi emprestado ao Mónaco pelo Benfica e posteriormente adquirido a título definitivo pelos monegascos, a troco de 15,75M€, tem estado em pleno destaque na equipa de Leonardo Jardim, aumentando a cada dia que passa a sua relevância e estatuto, somando minutos e adquirindo inclusive, na maioria das partidas, um lugar no onze predileto do treinador português. Muitos duvidavam de que conseguisse singrar ao mais alto nível na Europa em tão tenra idade e sem qualquer tipo de experiência em ligas principais, porém Bernardo tem demonstrado precisamente o contrário. Os elogios ecoam na imprensa francesa e internacional e os milhões gastos pelo clube no “novo príncipe do Mónaco” estão a revelar-se bem produtivos para as hostes do principado.

O jovem português, de 20 anos, não começou a temporada como indiscutível nas escolhas de Jardim, com os franceses a verem-no como uma aposta para o futuro e não tanto para o presente. Porém, as suas excelentes exibições, pautadas por momentos de brilhantismo e irreverência, provaram o potencial que lhe era atribuído e fizeram-no conquistar o seu espaço no emblema monegasco, mesmo que não seja na sua posição natural. Isto porque o estilo de jogo de Bernardo Silva é, claramente, o de um “10” puro – com uma tremenda visão de jogo, criação de oportunidades ofensivas, excelente qualidade de passe e uma capacidade técnica que a muitos deixa inveja -, posição que raramente se perfila no futebol dos tempos modernos, o que faz o treinador madeirense apostar em variadas ocasiões no luso a jogar pelo corredor direito, trabalhando como extremo/médio-interior. Este tipo de função leva o esquerdino, que não prima por uma constante ida à linha de fundo para cruzar, a pisar zonas mais interiores do terreno, nas suas características acelerações com bola, a que alia uma finalização, de certo modo, produtiva para um médio, contando, de momento, seis golos na Ligue 1.

O jovem português já leva 6 golos na Ligue 1 Fonte: Facebook de Bernardo Silva
O jovem português já leva 6 golos na Ligue 1
Fonte: Facebook de Bernardo Silva

Certamente, também tem ainda que melhorar determinados aspetos do seu jogo, primordialmente no foco defensivo, no qual revela, talvez fruto da inexperiência, algumas falhas evidentes, que necessita de trabalhar de modo a que possa tornar-se num jogador completo e consiga acompanhar os demais craques do futuro no panorama futebolístico. Para se tornar num jogador de topo mundial, Bernardo tem que conseguir juntar o equilíbrio defensivo à sua capacidade de criação de jogo e de desequilíbrio ofensivo.

Recentemente, frente à Juventus, na segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, atingiu mais um feito na sua ainda curta carreira, no culminar de uma época que está a revelar-se absolutamente fantástica e surpreendente. Somou o primeiro jogo como titular na liga milionária e coroou-o como uma exibição bem positiva, apesar do empate no jogo (0-0) e da consequente eliminação dos monegascos face ao resultado negativo (0-1) adquirido na primeira mão da eliminatória, em Itália.

A próxima meta para o ex-Benfica passa pela seleção portuguesa, na qual já fez notar a sua presença em tempos recentes, num compromisso amigável com Cabo Verde, tendo sido um dos poucos jogadores lusos a evidenciar sinais positivos no encontro e o que esteve mais em destaque. Todavia, acredito que, com o atual sistema implementado por Fernando Santos na equipa das quinas, Bernardo pode ser incluído na disputa por um lugar no onze inicial, atuando numa posição de médio interior, algo similar ao que Fábio Coentrão fez no jogo contra a Sérvia, baixando, assim, o jogador do Real Madrid para o lugar onde atualmente rende mais, o de lateral-esquerdo. O médio do Mónaco assume-se como um dos pretendentes a este lugar, primordialmente pelo rendimento que tem vindo a demonstrar ao longo da presente temporada e à lacuna de atletas em boa forma e rendimento na nossa seleção.

Muito se criticou Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira por deixarem fugir do emblema “encarnado” esta jovem promessa do futebol português, mas já não é tempo para isso. Agora, há que desfrutar do seu talento nato com bola e vê-lo em ação ao mais alto nível. Com 20 anos, Bernardo Silva promete não parar por aqui e, se trabalhar bem o potencial que ainda tem por explorar, será um dos craques do futuro, não só de Portugal, como também em termos internacionais. E quem sabe, se continuar a exibir-se a este nível, daqui a pouco tempo até o poderemos ver a dar outro passo na sua carreira, rumo a um emblema com maiores aspirações que o Mónaco.

Foto de Capa: Facebook de Bernardo Silva