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O que o adiamento do Euro 2020 poderá trazer?

A UEFA anunciou o adiamento do Euro 2020 para o ano seguinte, face à pandemia que se está a verificar no mundo, actualmente, tendo agora a data de início prevista para 11 de Junho de 2021. E esta situação levanta uma série de pontos de interrogação sobre o que será da equipa das quinas no próximo ano.

Antes de mais, começando pelos jogadores que estão numa fase mais avançada da carreira. Cristiano Ronaldo é um caso sério de longevidade no desporto mundial e, certamente, não irá desperdiçar a oportunidade de marcar presença na competição, mesmo que isso implique que tenha de gerir a sua condição física ao longo da época.

Entre os jogadores mais veteranos está também o caso do médio João Moutinho, que tinha vindo a realizar grandes prestações no Wolverhampton Wanderers FC e continua a ser umas das escolhas de eleição de Fernando Santos. Mas, na minha opinião, os casos mais bicudos são os dos centrais Pepe e José Fonte.

Com 36 e 37 anos respectivamente, José Fonte e Pepe vinham a ser titulares ao longo da época, mas, tendo em conta a idade avançada que têm, é difícil garantir esse estatuto na próxima época.

Renato Sanches tem sido uma das figuras do Lille nesta época
Fonte: Swansea AFC

Quanto aos jogadores com uma idade mais avançada, convém lembrar que, por norma, estes demoram mais tempo a recuperar a forma e a condição física do que jogadores mais jovens. E esta situação levanta uma incerteza quanto à condição física destes jogadores quando passar esta pandemia.

Ainda para mais, há uns aninhos atrás que o futebol português vinha a carenciar de jovens defesas-centrais com talento. Por isso, espera-se que jogadores como Rúben Semedo, Ferro e Diogo Leite sejam capazes de dar continuidade à sua evolução, de modo a conquistar um lugar na equipa das quinas.

Para além destes jogadores, este adiamento também pode ser prejudicial para jogadores que não eram aposta regular, mas que vinham a fazer por merecer um lugar na competição. Entre estes casos, saliento principalmente o de Renato Sanches.

O médio formado no Benfica tem vindo a relançar a carreira no Lille Olympique Sporting Club Métropole, tendo já integrado por várias vezes o onze da jornada na Liga Francesa e só mesmo algum azar o afastaria da competição, mas com o adiamento do Euro 2020 as circunstâncias podem alterar-se até lá.

Até ao próximo ano, muita coisa há-de acontecer. E espero que nessa altura haja bom senso nas escolhas e que possamos partir para a guerra com os melhores à disposição.

 

Artigo revisto por Joana Mendes

«É preciso revolucionar o Atletismo, apostar em jovens» – Entrevista BnR com Mariana Machado

Em terras minhotas – especificamente, em Braga, no Estádio 1.º de Maio – encontrámos a atleta que está a dar a reviravolta na História do Atletismo Nacional. De apenas 19 anos, Mariana Machado dá-nos a conhecer um pouco da sua história, do seu percurso no desporto, da sua vida académica e da importância que o Atletismo tem tido em Portugal.

– O início da viagem ao mundo do Atletismo e a «herança» na Modalidade –

«Fui apurada ao [corta-mato] nacional, e, como adorei a experiência, comecei a treinar mais. A partir daí, fiquei encantada por este mundo».

BnR: Em primeiro lugar, gostaríamos de começar por uma curta viagem ao passado. Como é que descobriste a modalidade?

Mariana Machado: Na verdade, a modalidade de Atletismo sempre esteve muito presente na minha vida, porque a minha mãe foi atleta olímpica e sempre me incutiu o hábito pelo desporto. É óbvio que, o facto de a minha mãe ter praticado Atletismo, sempre me foi incutido, tanto pela minha família, mas também pelas pessoas que conheciam a minha mãe, que diziam «também vais correr como a tua mãe», e, assim, as pessoas «de fora» acrescentavam sempre uma pequena pressão. Por isso, penso que foi por aí que o Atletismo surgiu.

BnR: Quando é que começaste a praticar?

Mariana Machado: Comecei a praticar Atletismo um pouco tarde, com 14 anos, se não me engano. Porque, inicialmente, no meu quinto ano, eu queria praticar, mas a minha mãe achava que era uma vida de muitos sacrifícios, e muito treino, e achava que eu ainda era muito nova. Só no nono ano, é que muitas pessoas me tentaram trazer para o Atletismo, inclusive a minha treinadora, Sameiro Araújo, que na altura era treinadora da Bárbara, e também houve um professor meu de educação física que me convenceu a entrar num corta-mato escolar. Fui apurada ao [corta-mato] nacional, e, como adorei a experiência, comecei a treinar mais. A partir daí, fiquei encantada por este mundo, basicamente.

Mariana Machado, ao lado da sua treinadora, Sameiro Araújo, no campeonato da Europa de Cross-Country, em 2018
Fonte: SC Braga Atletismo

BnR: Consegues definir um pequeno momento em que te apercebeste que o Atletismo era realmente a modalidade certa para ti (por exemplo, uma prova, um treino, entre outros)?

Mariana Machado: Essa prova, que foi a minha primeira competição a nível nacional, que o meu professor me convenceu a ir – o [corta-mato] regional, e depois do regional passar ao nacional, que se realizou na Guarda – acho que foi onde me apercebi que poderia chegar mais longe. Pode ter sido um décimo lugar completamente insignificante, mas, para mim, teve bastante valor, e fez-me consciencializar da decisão de entrar mesmo a sério no mundo do Atletismo. Foi um décimo lugar que conquistei sem sequer treinar para o Atletismo, e aí percebi que isto é um bocado de talento e genética que tenho em mim. Essa prova marcou-me muito, porque, para mim, foi descobrir um mundo novo, algo que foi como «amor à primeira vista». Nesse ano, ganhei a minha primeira medalha a nível nacional, fui vice-campeã aqui [Estádio 1.º de Maio], e, a partir daí, consegui alcançar coisas cada vez maiores, a ambicionar cada vez mais, e, quando é assim, uma pessoa já não quer parar e quer conquistar ainda mais, e ganhar.

BnR: Poderias ter considerado qualquer uma das outras disciplinas do Atletismo, mas optaste pela corrida. Queres-nos explicar um pouco mais sobre esta escolha?

Mariana Machado: A verdade é que eu não tenho jeito para mais nada, sinceramente (risos). No primeiro ano que comecei a praticar Atletismo com a Sameiro, ainda fiz provas combinadas – uma competição que engloba lançamentos, salto em comprimento e em altura, velocidade, barreiras – e ainda fui terceira a nível regional, mas desde cedo me apercebi que só me conseguia destacar nas provas de corridas, e mais longas, principalmente do meio fundo e o fundo. Gostava de fazer um bocadinho de tudo, mas tinha um pequeno «ódio» a fazer barreiras. Mas desde cedo que a minha genética me levou a corrida contínua, e meio fundo/fundo.

BnR: Falando de Atletismo propriamente dito, tens feito competições por 800m, 1500m, 3000m e corta-mato. Das quatro, qual é a disciplina em que te sentes mais à vontade?

Mariana Machado: A que eu me sinto mais à vontade… É difícil. 800m não é de certeza (risos), porque os 800m é uma prova muito dura, e para o qual eu não tenho caraterísticas muito boas. É uma prova incrível de ver, das minhas favoritas no Atletismo, mas não tenho o perfil indicado para a fazer [800m], mas faço – ainda este ano bati o meu recorde pessoal – mas mais numa forma de me preparar para os 1500m, que penso que é a minha melhor prova, e é das que gosto mais, porque não é uma prova muito rápida como os 800m, nem tão demorada como os 3000m. O corta-mato também tem um gostinho muito especial. São duas provas [1500m e corta-mato] muito diferentes – uma é em cross, outra é em pista – e, o corta-mato, é sempre diferente. Nunca encontrámos um corta-mato igual ao outro, e gosto imenso dessa diversidade. E acho que é no cross [corta-mato] que se vê a garra do atleta. Quem tiver mais garra, é o candidato a vencer. No início do ano, fiz corta-matos, fui ao Europeu de Cross-Country, e agora vou voltar a focar-me nos 1500m. Mas são as minhas duas disciplinas de eleição.

BnR: És filha da antiga atleta olímpica de Atletismo, Albertina Machado, e um verdadeiro exemplo de que “filho de peixe sabe nadar”. Essa influência familiar também foi uma das razões que te levou à escolha da modalidade?

Mariana Machado: Sim, claro. O facto de a minha mãe ter sido atleta, é óbvio que me incutiu o hábito pelo desporto. Mas nunca me forçou a nada, muito pelo contrário, no início até era ela que nem queria muito. Mas, desde que eu me decidi, e comecei a mostrar resultados na modalidade [corta-mato], ela também ficou contente por eu me estar a sobressair num desporto que ela tanto adora. E é sempre muito curioso esse provérbio [filho de peixe sabe nadar], e as pessoas, muitas vezes, associam, e eu também acredito que haja uma componente genética. Mas acho que foi sobretudo uma decisão minha, e o facto de eu ser muito ambiciosa, e muito persistente, que me levou a continuar na modalidade. Ter a minha mãe como suporte ajuda bastante, e é sempre bom ter em casa alguém que possa aconselhar neste aspeto.

Mariana Machado com a sua mãe e ex-atleta olímpica, Albertina Machado
Fonte: Câmara Municipal de Braga

BnR: Para além da tua mãe, Albertina Machado, quem é que também consideras que é uma influência e uma “inspiração” para fazeres o que fazes?

Mariana Machado: Várias pessoas me perguntam se eu tenho ídolos ou inspirações. Eu inspiro-me nas pequenas pessoas, nos atletas com os quais eu trabalho diariamente. Claro que vejo resultados de atletas internacionais, e fico abismada: «Como é que é possível correrem assim?». Mas eu não sei qual é o trabalho que está por detrás disso. Por exemplo, no meu grupo de treino, eu vejo o quanto eles trabalham e se esforçam diariamente, e acho que é nessas pessoas que eu me inspiro. As pessoas que eu consigo ver realmente o seu esforço, trabalho e dedicação. No Atletismo, tenho como inspiração a minha mãe, claro, porque é uma pessoa com quem eu lido diariamente, e acompanho o seu esforço diário.

BnR: Alguma vez sentiste uma pressão acrescida por todo este histórico familiar que carregas, na modalidade?

Mariana Machado: Claro, há sempre uma pequena pressão. Mas, para ser sincera, nunca fui uma rapariga de ceder à pressão. Sempre lidei bem com ela [pressão], e nunca fiquei nervosa pelo facto de ser filha da Albertina, e das pessoas ficarem de olhos postos em mim por isso. Quando vou para uma competição internacional, sei do trabalho que tenho feito. Tenho consciência de que, se estou lá, é porque estou bem preparada, e só tenho que estar confiante do trabalho que realizei, e, só penso que o trabalho que tenho tido seja recompensado nas próximas provas. Acho que, quando trabalhamos bem, só tem tudo para os resultados correrem o melhor possível, e o melhor ainda está para vir.

BnR TV: O plano de Pedro Proença

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No terceiro episódio desta quarentena falamos sobre o futuro do campeonato português, pós-pandemia. Como será? Os nossos comentadores do BnR TV traçam possíveis cenários e deixam críticas para vários intervenientes do meio desportivo!

Com Mário Cagica Oliveira, João Miguel Rodrigues e Marco Ferreira.

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Futebol à porta fechada

Futebol à porta fechada: tem pairado no ar essa possibilidade nos últimos dias. O momento é de grande incerteza e engloba todas as áreas da sociedade. O futebol não foge à regra e em Portugal, como por toda a Europa, tudo se encontra em suspenso, à espera que a tempestade passe.

Com a confirmação do adiamento do Campeonato Europeu de Futebol para 2021, abre-se uma janela para se poderem disputar as restantes dez jornadas da Primeira Liga, que Pedro Proença, presidente da Liga de Clubes, admite realizar, ainda que à porta fechada. Contudo, estará sempre dependente do que decretarem as instâncias governamentais sobre a matéria.

Para já, a hipótese em cima da mesa é terminar a temporada a 30 de Junho, pelo que é nesta janela de três meses que tudo tem que acontecer. Na ótica de Pedro Proença é fundamental que se termine a época desportiva, de modo a serem apurados os campeões da liga e perceber-se quem sobe e quem desce, para que depois a temporada de 2020/2021 possa decorrer dentro da normalidade.

Atualmente apenas um ponto separa FC Porto e SL Benfica na classificação, com os dragões no comando da liga. Mais abaixo, SC Braga e Sporting CP disputam o último lugar do pódio, separados por quatro pontos, lugar que dá acesso direto à Liga Europa. Na luta europeia encontram-se ainda Rio Ave SC, Vitória SC e FC Famalicão. Abaixo da linha d’água estão CD Aves e Portimonense SC, que há muito fazem contas à vida,e que são nesta altura os principais candidatos à descida. E agora?

O campeonato está parado há mais de três semanas e as equipas impedidas de treinar, pois também estão sujeitas às medidas de isolamento social, pelo que a preparação física dos jogadores é sobretudo de cariz individual. São por isso levantadas algumas questões quanto à condição em que aparecerão os atletas, que dificilmente terão margem para uma espécie de pré-época, uma vez que o calendário será seguramente apertado.

Na jornada 25, o campeão nacional Benfica recebe o CD Tondela no Estádio da Luz. Com uma média de 52 479 espetadores por jogo, as águias são líderes do ranking de assistências na liga. O chamado “Inferno da Luz” costuma ser arma importante para empurrar a equipa para a vitória, um ambiente efervescente e por mais que uma vez elogiado tanto pelos próprios jogadores, como por adversários. Os restantes oponentes do Benfica em jogos em casa são: Santa Clara, Boavista, Vitória SC e Sporting. O dérbi que marca o fim do campeonato e que pode ser decisivo no desfecho final será também jogado sem público, o que em jogos desta natureza pode muito bem ser decisivo.

O Estádio da Luz é Estádio com a melhor média de assistência esta época em Portugal
Fonte: Bola na Rede

Com 35 625 espetadores em média por jogo, o Porto segue no segundo lugar do ranking de assistências e conta receber no Estádio do Dragão: CS Marítimo, Boavista FC, Belenenses SAD, Sporting CP e Moreirense FC. Em 12 jogos disputados em casa, o Porto apenas perdeu contra o Braga, na altura orientado pelo agora treinador dos leões Rúben Amorim, o que demonstra bem a força dos azuis no seu território. Com as bancadas despidas de público será interessante ver se mantêm a mesma consistência, com especial destaque para a jornada 32, um clássico à porta fechada.

O Braga é apenas sexto no ranking de assistências, com uma média de 10 587 espetadores por jogo, no entanto é um clube muito acarinhado pela sua massa associativa. Há duas jornadas que podem ser decisivas para as contas finais do campeonato, a 28 e a 34, com Vitória SC e Porto como respetivos adversários. A rivalidade entre os de Braga e Guimarães é sobejamente conhecida e representam por norma jogos escaldantes, com a atmosfera criada pelo público a transferir-se para o retângulo de jogo. Também aqui será interessante perceber o comportamento de ambas as equipas em resposta ao silêncio nas bancadas.

O Sporting, terceiro deste ranking, com uma média de 30 234 espetadores por jogo, poderá ser o clube que, no plano teórico, retira maior vantagem da situação. Para além das supramencionadas deslocações às casas dos dois maiores rivais, a próxima jornada ditou a visita a Guimarães, com os leões frente a frente à turma de Ivo Vieira, equipa que com uma assistência média de 16 910 espetadores se posiciona como quarta classificada no ranking, sendo o Berço tradicionalmente um terreno difícil para as equipas adversárias.

Este cenário é, claro, hipotético e está dependente dos mais diversos fatores. A acontecer, colocará todos os adeptos agarrados às televisões, em suas casas, sozinhos ou com as suas famílias. Terá de ser assim, pela segurança de todos. Há ainda a questão das receitas de dia de jogo, que sem adeptos é inexistente, mas os prejuízos de não se terminar a temporada serão seguramente maiores do que haver futebol à porta fechada.

Com o prolongamento do estado de emergência, as pessoas continuam limitadas no que podem fazer e a possibilidade de ter futebol seria uma boa forma de se manterem entretidas. É um tema que certamente continuará a marcar a atualidade desportiva e em breve deveremos saber mais novidades sobre o assunto.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Que jogo devo rever nesta Quarentena? AZ Alkmaar 3-2 Sporting CP (A.P.)

No dia 5 de maio de 2005, o Sporting Clube de Portugal escreveu mais uma página na sua história centenária. Os leões deslocaram-se aos Países Baixos para defrontar o AZ Alkmaar, em jogo a contar para a segunda-mão da meia-final da Taça UEFA. Na primeira-mão, a equipa portuguesa venceu em Alvalade por 2-1 com golos de Douala e Pinilla.

Para esta partida, José Peseiro não pôde contar com Enakarhire, Rogério, Carlos Martins e Pinilla, todos lesionados.

No segundo jogo da eliminatória, o AZ Alkmaar adiantou-se no marcador, à passagem do sexto minuto de jogo por intermédio de Kenneth Pérez. Com este golo, os holandeses estavam na frente da eliminatória. Os leões empataram o jogo antes do intervalo, o goleador luso-brasileiro, Liedson, colocou a bola no fundo das redes, após remate de Polga.

No segundo tempo, o Sporting entrou bem, dispôs de várias oportunidades de golo, sobretudo através de transições rápidas, explorando a velocidade de Douala e Liedson. No entanto, ao minuto 78, o conjunto orientado por Co Adriaanse empatou a eliminatória através do suplente Huysegems. Com o segundo golo dos holandeses, o jogo seguiu para prolongamento, estava tudo empatado na eliminatória.

O tempo-extra começou com o Sporting, com algum, ascendente. No entanto, ambas as equipas dispuseram de oportunidades de golo. Na baliza leonina, Ricardo foi correspondendo aos lances de perigo do AZ. O Sporting, por seu lado, com Pedro Barbosa e Tello, que haviam entrado na segunda parte, ambos em destaque nos melhores lances ofensivos.

Já decorria a segunda parte do prolongamento quando Jaliens adiantou o AZ Alkmaar nesta meia-final, apontando o 3-1, na sequência de um canto. No final da partida, ao cair do pano, decorria o minuto 120, quando o Sporting voltava a marcar. Rodrigo Tello de pé esquerdo levantou a bola para a área, onde estavam os 11 jogadores leoninos e apareceu o herói de Alkmaar: Miguel Garcia, com o ombro a colocar o Sporting na final da Taça UEFA 04/05.

Uma página histórica para o Sporting, um jogo tremendo com emoção do principio ao fim, no De Alkmaarderhout. Uma vitória na eliminatória, conseguida através do Esforço, Dedicação e Devoção, mas também de uma equipa que acreditou e lutou até ao fim. O dia 5 de maio de 2005 ficará na memória dos sportinguistas, bem como Miguel Garcia, para sempre conhecido como “herói de Alkmaar”.

ONZES INICIAIS E SUBSTITUIÇÕES

Sporting CP: Ricardo (GR), Miguel Garcia Anderson Polga, Beto Severo, Rui Jorge (Marius Niculae, 110’), Fábio Rochemback(Pedro Barbosa, 86’), Custódio, João Moutinho, Ricardo Sá Pinto, Douala, (Rodrigo Tello, 75’), Liedson

AZ Alkmaar: Henk Timmer, Jaliens, Barry Opdam, Ron Vlaar, Tim de Cler, Denny Landzaat, Adil Ramzi (Ali Elkhattabi, 64’), Barry Van Galen, Tarik Sektioui (Christy Janga, 120’), Kenneth Pérez, Robin Nelisse (Stijn Huysegems, 72’)

Foto de Capa: Sporting CP

Força da Tática: O Santos FC de Jesualdo Ferreira

Aos 73 anos de idade, Jesualdo Ferreira está a realizar, segundo o próprio, o “último maior desafio” da sua carreira. Com uma equipa técnica com mais três portugueses (Pedro Bouças, António Oliveira e Rui Águas), Jesualdo começa a mostrar dinâmicas típicas das suas anteriores equipas e que poderão fazer a diferença no contexto em que estão inseridos.

O Santos FC realizou uma época positiva na temporada passada, atingindo o segundo lugar no Brasileirão. Nesta temporada, os comandados de Jesualdo somam seis vitórias, três empates e três derrotas; encontrando-se em primeiro lugar no grupo da Libertadores e, também em primeiro no respetivo grupo do Campeonato Paulista.

Com o seu habitual 4x3x3, Jesualdo tem imposto dinâmicas interessantes, mantendo sempre princípios táticos que o levaram a elevados patamares, como a construção de jogo a três com descida do médio defensivo, as triangulações nos corredores, as trocas posicionais entre médios e avançados ou a verticalidade dos médios interiores da equipa.

Apesar de apresentar como base o 4x3x3, a equipa altera a estrutura tática dependendo do momento do jogo, apresentando-se algumas vezes em 4x4x2 com duplo pivô no meio campo e com dois avançados na frente.

Fonte: Canal 11

Dinâmicas do Santos em Ataque Posicional:

  • Construção de Jogo

A construção do Santos apresenta no jogo de corredores o seu ponto mais forte. A equipa brasileira gosta de sair por fora e utiliza alguns movimentos padrão para o fazer.

A construção é iniciada com uma linha de três, com o médio defensivo a descer no terreno e os centrais a abrirem. Os laterais encontram-se abertos nos corredores, fechando por dentro quando a bola se encontra no lateral do lado contrário. Já os médios interiores têm funções de início de criação de jogo, posicionando-se numa primeira fase entre a linha média e a linha atacante do adversário (formação de um triângulo com central e lateral) e, numa segunda fase, um dos médios posiciona-se entre a linha defensiva e a linha média adversária (formação de um triângulo com lateral e extremo) e o outro em zonas mais recuadas preparando possível transição defensiva. Os avançados são bastante móveis, podendo assumir diferentes papéis ao longo da construção de jogo. Normalmente, posicionam-se junto ao corredor ou entre linhas, atraindo os defesas adversários para espaços interiores e, consequentemente, abrindo espaço no corredor para o lateral.

Os centrais são peças fundamentais na construção de jogo, sendo, normalmente, eles a executar o passe vertical que permite à equipa entrar em zonas de criação. Jesualdo exalta a importância de ter centrais com a qualidade técnico-tática para este momento do jogo.

Vejam no vídeo:

A importância da capacidade técnico-tática dos defesas centrais na saída de jogo

Uma das dinâmicas mais utilizadas na construção de jogo é a atração da linha média da equipa adversária pelo posicionamento dos dois médios interiores em zonas centrais e consequente exploração dos corredores pelo lateral. O passe vertical para zonas de criação com médios interiores ou avançados a receber e combinarem é outro dos momentos de construção mais facultados pela equipa. A procura da profundidade, apesar de não ser das armas mais fortes da equipa (muito pelas caraterísticas dos jogadores), é utilizada algumas vezes, nomeadamente com a entrada no espaço entre central e lateral por Pituca.

Construção de jogo Santos FC

  • Da criação para a finalização

Uma das imagens de marca das equipas de Jesualdo é a fluidez de jogo nos corredores laterais. No Santos acontece exatamente o mesmo! Muitas das melhores oportunidades da turma do Peixe começam com dinâmicas nos corredores. Com o lateral subido, o médio em espaço entre linhas e o avançado encostado ao corredor, a equipa brasileira consegue desenvolver combinações e criar superioridade para situação de cruzamento ou passe próximos da área. A equipa tem conseguido criar maior desequilíbrio através desta dinâmica quando existe uma pressão passiva da equipa adversária ou quando é executado um passe longo para mudar de flanco, apanhando desprevenida a equipa adversária e criando espaço para um momento de superioridade numérica no corredor.

Estas triangulações nos corredores nem sempre são suficientes para criar momentos de desequilíbrio em zonas de criação. Dessa maneira, o avançado centro sai da marcação dos centrais e posiciona-se entre linhas para criar nova superioridade numérica.

Os médios têm também um papel fundamental no desmontar das estruturas adversárias, não só através das combinações com avançados e laterais, mas também pelos movimentos verticais que executam, explorando nomeadamente o espaço entre lateral e central da equipa adversária.

Os avançados não têm um posicionamento estático, antes pelo contrário, realizam trocas posicionais com os médios interiores, e alternam entre apoio para combinação, movimentos à largura e movimentos de rutura na linha defensiva adversária.

O Santos é uma equipa que chega rápido a zonas de finalização e, apesar de ter “apenas” 13 golos em 12 partidas jogadas, mostra nuances interessantes que têm margem para melhorar.

Antes da chegada a zonas de finalização, os avançados (avançado centro e o extremo do lado contrário ao da bola) posicionam-se de forma a garantir o um contra um com os defesas que os estão a marcar.

Normalmente, colocam sempre vários jogadores na área, mas têm sempre uma intencionalidade no posicionamento e nos movimentos. Alguns dos princípios que utilizam para criar vantagem em zonas de finalização são o posicionamento no lado “cego” dos defesas, movimento de atração para criação de espaço e movimento para atacar esse espaço. Os cruzamentos são passes intencionais em busca do jogador que possa oferecer melhores soluções, de acordo com o espaço e tempo que tenha.

Não só os avançados participam em fase de finalização, também os médios e os próprios laterais poderão fazer a diferença neste momento em ataque posicional. Uma das chaves para a criação de espaço para finalizar é, sem dúvida, a atração dos adversários pelos movimentos intencionais dos jogadores da equipa de Jesualdo.

Todas estas dinâmicas são possíveis pela qualidade técnica de vários jogadores, falo, por exemplo de Soteldo, Carlos Sanchez, Diego Pituca, Sasha, Kaio ou Lucas Veríssimo.

Vejam no vídeo:

Ataque posicional do Santos FC

  • As receções orientadas e a dinâmica ofensiva da equipa

O modelo jogo de Jesualdo funciona muito à base da aceleração e da intensidade ao nível das combinações em zonas de criação. Dessa maneira, a receção orientada como ponto de partida para encarar o jogo de frente, acelerar e executar é fulcral neste sistema que privilegia um jogo mais associativo. A tomada de decisão antes de receber é um dos princípios que permite ao jogador ser mais eficiente na receção e na execução da ação seguinte. Perceção do espaço e do posicionamento, tomada de decisão, receção com orientação corporal adequada, progressão com bola no espaço e execução são pequenos pormenores que marcam a diferença dos medíocres para os grandes jogadores.

No vídeo anterior foram destacadas as receções orientadas de vários jogadores, denotando-se influênca de Jesualdo.

Veja no vídeo:

A importância da receção orientada para acelerar e criar superioridade em zonas de criação

  • Posicionados para recuperar

Outro dos princípios utilizados pelo Santos na sua organização ofensiva é o posicionamento dos seus jogadores para evitarem a transição ofensiva do adversário e recuperarem a bola no menor intervalo de tempo possível. Para isso, é de extrema importância o papel do médio defensivo, posicionando-se, quase sempre, em zonas onde a probabilidade da bola cair é grande.

Também um dos médios centro posiciona-se, normalmente, um pouco à frente do médio defensivo, recuperando muitas bolas em zonas subidas.

A equipa junta e coesa, com linhas próximas, com jogadores com capacidade tática para perceber o melhor posicionamento para a equipa, são características que  Jesualdo quer impor neste seu Santos FC.

E depois disso, claro, sair em transição, aproveitando o espaço dado pelo adversário.

Veja no vídeo:

Recuperação da bola e transição ofensiva do Santos FC

Um treinador que eu admiro pela experiência, pelas ideias atuais, pela personalidade e que acredito ter tudo para triunfar no Brasil!

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

NBA: Os 5 insignes da década

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Desde a união de Lebron James a Wade e Bosh, que culminou na super equipa dos Miami Heat, até ao crescimento de uma das melhores equipas da história, como eram os Warriors, foram vários os acontecimentos que marcaram a NBA nos últimos dez anos.

Isto tudo, também provém do resultado da força e da influência que os jogadores acarretam nas equipas.

Nestes últimos dez anos, ocorreram assim inúmeras mutações no jogo do basquetebol e na liga norte americana, mas quem foram os principais jogadores? Vê aqui os nossos cinco ilustres.

Foto de Capa: NBA

Que jogos devo rever nesta quarentena? CF Real Madrid 4-1 Club Atlético Madrid, final da Liga dos Campeões de 2014

Quem diria que um jogo com o resultado de 4-1, aparentemente tão desequilibrado e com pouca história, ficaria marcado como um dos mais memoráveis de sempre na principal competição de clubes da Europa? Pois bem, para quem não se recorda, irá rapidamente perceber nos parágrafos seguintes.

O ano era 2014 e, em Lisboa, no Estádio da Luz, ia realizar-se a 59ª final da Liga dos Campeões. O guião tinha ditado uma final madrilena, onde Real e Atlético iriam disputar mais um jogo já bem conhecido pelos adeptos de futebol espalhados por todo o mundo. A rivalidade não poderia ser maior, e nessa noite seria preciso mais que apenas a qualidade individual e coletiva reconhecida em ambas as equipas.

Se é que de algum favoritismo se podia falar, ele estava, por incrível que pareça, do lado do Atlético. Haviam sido campeões espanhóis e praticavam o melhor futebol de que muitos se lembram. Embora sempre ao estilo de Simeone, víamos uma equipa solta, sem medo de assumir o jogo. A esta qualidade juntava-se a solidariedade não vista em nenhuma outra equipa do mundo. A garra, a vontade e o trabalho árduo não faltavam nunca nas turmas do treinador argentino, o que fazia deste Atlético uma equipa muito difícil de bater.

Do outro lado lado estava o terceiro classificado espanhol, embora com apenas menos três pontos. O Real Madrid estava certamente com o orgulho ferido depois de numa temporada tão bem conseguida não ter conseguido levar o título de campeão. Ainda assim tinham arrecadado a Taça do Rei frente ao Barcelona e a motivação estava sem dúvida no auge. Somando a esta motivação a indiscutível qualidade individual e coletiva da equipa, estávamos perante um conjunto poderosíssimo e, portanto, perante um jogo que tinha tudo para ser um dos melhores de todos os tempos.

Fonte: Real Madrid

A partida começou bastante fechada, como seria de prever. As equipas, encaixadas uma na outra, estavam serenas e um pouco à espera do que o jogo tinha para dar. Com o decorrer dos minutos começou a ficar um jogo solto, bonito, com oportunidades. O Real Madrid, comandado por Modric no centro do terreno, começou a criar mais perigo, essencialmente devido ao croata que conseguia desbloquear caminhos e dar aos colegas uma grande projeção ofensiva. Ainda assim, e é por isto que tanto amamos este desporto, foi o Atlético que aos 36 minutos inaugurou o marcador depois de uma ressaca de um pontapé de canto. Num lance confuso, Diego Godín acabou por introduzir a bola nas redes da baliza de Casillas e os Colchoneros saíam em vantagem para o intervalo.

A segunda parte foi bastante diferente da primeira e teve, como seria de esperar, sentido quase único. O Real assumiu o jogo desde cedo mas o Atlético foi-se mantendo confortável, muito devido à capacidade defensiva que era reconhecida àquela equipa de Diego Simeone. Tudo parecia tranquilo e o jogo encaminhava-se para o fim, para a vitória dos Rojiblancos que assim celebrariam a sua primeira conquista da Liga dos Campeões. Só que aos 90+3 minutos apareceu Sergio Ramos, que, com um indefensável golpe de cabeça, repôs a igualdade no marcador e levou o jogo para prolongamento.

A equipa de branco estava agora mais motivada e confiante para os 30 minutos que restavam e isso acabou por ser decisivo. Foi assim que, aos 110 minutos de jogo, depois de uma jogada fabulosa de Di Maria, Bale aproveitou a sobra para encostar a bola para o fundo das redes da baliza de Courtois, carimbando assim a remontada.

A missão parecia já impossível para o Atlético, e mais ficou quando passados oito minutos Marcelo fez o 3-1 e quase confirmou aquela que era já uma vitória anunciada. Aos 120+1, Cristiano Ronaldo fechou o placard com um golo de grande penalidade, e o Real Madrid conquistava assim a “décima” Liga dos Campeões, com uma vitória que certamente não será esquecida por nenhum interveniente daquela partida.

As emoções são difíceis de transmitir através de um texto. Melhor só mesmo ganhar duas horas desta quarentena para rever este magnífico jogo e lembrar como foi um verdadeiro recital de futebol.

Artigo revisto por Diogo Teixeira

Jogadores que admiro: Óliver Torres

Sou, muito provavelmente, uma das pessoas mais suspeitas para falar de Óliver Torres, aliás, como o próprio título demonstra. Desde a sua chegada à Invicta que o pequeno génio espanhol me encantou, não só pelo facto de vestir as minhas cores. Encantou-me pela sua categoria dentro das quatro linhas, pela sua visão de jogo acima da média, pela facilidade com que executava passes de dezenas de metros.

O sorriso com que sempre pisava o tapete verde, a enorme consideração e respeito com que tratava tudo e todos, de adeptos a treinadores. Estávamos claramente perante um enorme ser humano, para além de um talentoso jogador.

Nunca o vimos chutar garrafas de água no banco de suplentes após uma substituição, nunca o vimos a saltar do banco a contragosto, quer faltasse meia hora, quer faltasse cinco minutos para o apito final; nunca o vimos a questionar decisões de um treinador em praça pública, mesmo que tivesse razões para tal.

Nas razões que menciono acima, refiro-me a episódios como aquele ocorrido numa tarde/noite de setembro, num embate frente ao Besiktas, onde Óliver foi “queimado” com uma substituição ao intervalo, por conta de um onze, na minha opinião, desequilibrado que havia sido pensado para aquele embate.

Após a derrota no Dragão frente ao Besiktas, Óliver Torres começou a perder espaço nas escolhas de Sérgio Conceição
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

A partir daí e até ao momento da sua saída, de tudo valeu para diminuir o espanhol, desde a sua “falta de intensidade”, até à sua hipotética falta de capacidade defensiva. Argumentos que, a meu ver, não poderiam passar mais longe da realidade, até porque, se há um jogador que melhorou numa perspetiva defensiva, esse foi Óliver Torres, sobretudo no que a recuperações de bola diz respeito.

Relativamente à já tão célebre “falta de intensidade” do médio e à sua incapacidade de garantir um lugar no habitual meio campo a dois de Sérgio Conceição, a minha opinião é a seguinte: pessoalmente, acho que o antigo número dez do FC Porto poderia encaixar melhor num setor intermediário a três, contudo esteve longe de acumular más exibições quando alinhou ao lado de Danilo, por exemplo.

Contudo, independentemente da sua qualidade individual e do seu evidente espírito do que é “ser Porto”, Óliver Torres acabaria por ser vendido, por um valor bem abaixo do seu potencial, ao Sevilha FC.

No sul de Espanha, tem sido uma peça importante na boa campanha da sua equipa, tendo participado em trinta e um jogos e contribuído, entre golos e assistências, para nove tentos, em todas as competições.

Deste lado da fronteira, deixou o FC Porto com ainda menos opções para o setor intermédio, setor que já se previa enfraquecido para a presente temporada com a saída do capitão Héctor Herrera.

Deixou-nos, porém não deixou farpas para trás, não proferiu nenhuma declaração polémica sobre treinadores, dirigentes, companheiros. Despediu-se como um verdadeiro dragão, como um dos nossos. Por tudo isto, admirava-o e continuo a admirá-lo. Que, no futuro, nos voltemos a cruzar, Óliver!

Artigo revisto por Diogo Teixeira

Que filmes e séries ver nesta Quarentena? The English Game

A série The English Game fez-me ter uma visão um pouco diferente sobre o futebol e sobre o porquê de ser um desporto tão apreciado, com todos os seus prós e contras. Em pleno período de isolamento social, a Netflix brindou-nos com uma das séries mais incríveis que já vi. Isto pode parecer uma opinião chocante para alguns, até porque nunca fui muito viciado em séries.

Na segunda metade do século XIX, o futebol era um desporto fundado e praticado por antigos alunos de colégios ingleses. Num tempo em que só os jovens nascidos em famílias ricas tinham a possibilidade de se formarem e tirar um curso, o futebol era então um desporto praticado por cavalheiros e elementos da alta sociedade.

Estes mesmos cavalheiros, viriam a tomar posse da Football Association e orgulhavam-se do futebol ser praticado por senhores cultos e inteligentes e de ser um desporto amador que representaria a lealdade entre as mais altas classes sociais.

No entanto, com o avançar dos anos, também iam aparecendo clubes de futebol formados por operários, que representavam o povo e as classes sociais mais baixas. Porém, estes clubes não costumavam chegar muito longe na FA Cup (a única competição que existia na época), muito graças à tamanha diferença de realidades entre operários e cavalheiros.

Enquanto os cavalheiros tinham vidas financeiramente desafogadas e tempo para treinar, os operários não podiam treinar, porque trabalhavam de sol a sol para conseguirem pôr comida na mesa e sustentar as suas famílias.

Porém, a série retratou a melhor prestação de um clube operário na competição: em 1879, o Darwen, um clube formado por operários de uma fábrica de algodão, chegaria aos quartos-de-final da FA Cup, onde defrontariam os Old Etonians, o principal representante da alta sociedade, liderado por Arthur Kinnaird, que era o jogador com mais presenças em finais da Taça de Inglaterra.

Com a ajuda de Fergus Suter e Jimmy Love, dois operários de Glasgow recrutados ao Partik, o Darwen conseguiu levar a eliminatória para um segundo jogo, onde seriam facilmente derrotados, mas este seria o jogo que viria a desencadear uma série de factores, e que se tornou na chave que iria abrir o cadeado que fechava o futebol na classe da alta sociedade.

Antes de mais, o confronto entre estas duas equipas mostrado na série, fica marcado por um paradoxo no mínimo curioso: os Old Etonians, o clube dos cavalheiros, tinha um estilo de jogo muito físico e viril que, a meu entender, nada condiz com a postura cavalheiresca que os define.

Mais do que o estilo, o futebol também os tornava vaidosos e arrogantes, não apenas dentro de campo, mas também quando este se tornava tema de conversa nos jantares de grupo que faziam quase diariamente. Como chegou a dizer Alma, esposa de Arthur Kinnaird: “o futebol revela tudo o que há de mau nele”.

Por outro lado, no clube dos operários, a chegada de Fergus Suter e Jimmy Love à equipa introduziu um novo conceito de jogo na mesma, um estilo mais assente no passe e na organização de jogo. No entanto, a componente táctica é o ponto menos importante neste confronto que começaria a unir os diferentes estatutos sociais na série The English Game.

O que o Darwen fez no primeiro jogo dos quartos-de-final fez o povo acreditar no futebol, fê-los acreditar que este os levaria a um outro estatuto social, que seria impossível obter de outra forma. Por isso, disponibilizaram-se a pagar a viagem da equipa para o jogo de desempate contra os Old Etonians. Viviam com pouco e precisavam do dinheiro, mas para eles, o futebol era a única alegria e o único tubo de escape para se distraírem das vidas difíceis que levavam.

Porém, na classe dos cavalheiros, principalmente aos elementos da Football Association, como Francis Marindin, não lhes agradava o facto de existirem cada vez mais clubes operários a competir na FA Cup, considerando-os como uma praga. Eles tinham orgulho no facto do futebol ser um desporto amador essencialmente praticado por cavalheiros e queriam, a todo o custo, que este não saísse da bolha em que estava inserido.

Ainda antes de haver futebol, já eram evidentes as diferenças entre cavalheiros e operários. Mas neste caso, havia um aspecto em que ambas as classes sociais estavam de acordo. Num tempo em que o profissionalismo ainda era ilegal no futebol, tanto cavalheiros como operários não gostavam do facto de haver jogadores a serem pagos para jogar. Daí que a chegada de Fergus Suter e Jimmy Love não fosse bem vista pelos restantes jogadores, mas isso seria apenas o início de o desencadear das rivalidades nesta série The English Game.

Após essa edição da FA Cup, apareceria um novo clube operário: o Blackburn. Com a ambição de fazer do Blackburn o primeiro clube operário a vencer a FA Cup, o seu presidente investiu muito dinheiro a recrutar os melhores jogadores do país, fazendo-lhes propostas irrecusáveis, sendo que Fergus Suter e Jimmy Love fizeram parte do rol. A ida de Suter e Love para o Blackburn caiu muito mal no povo de Darwen, que se sentiu traído e desencadeou uma batalha campal no amigável disputado entre as duas equipas.

Fergus Suter e Jimmy Love são vistos como os pioneiros do futebol moderno
Fonte: Netflix

Mas mais do que isso, os incidentes ocorridos no The English Game só reforçaram as ideias de grande parte dos cavalheiros, desde a ilegalidade do profissionalismo ao facto de considerarem os operários como pessoas selvagens e pobres de espírito, que não tinham classe para dominar o futebol. Estes entendiam que jogadores que jogavam por dinheiro nunca teriam o mesmo empenho e dedicação que aqueles que jogavam por amor ao jogo, e diziam orgulhosamente que depois de cada jogo, clubes como os Old Etonians e os Old Carthusians faziam parte da mesma equipa: os cavalheiros; enquanto os operários não abordavam o futebol da mesma forma, vivendo as rivalidades de forma muito mais intensa e fervorosa.

Entretanto, quando ocorreu a final da FA Cup em 1880 entre o Blackburn e os Old Etonians, o futebol já era muito mais do que um jogo, um confronto entre duas equipas. Era também o confronto entre estatutos sociais, onde jogadores e adeptos procuravam afirmar-se individualmente através do futebol. Por isso, a rivalidade que então existia entre o Darwen e o Blackburn foi posta de lado, reconhecendo que havia uma causa maior pela qual teriam de lutar.

Mais do que o resultado e a forma como ocorreu o jogo, é preciso perceber o impacto que o futebol começaria a causar na sociedade. Daí para a frente, o futebol profissional passou a ser legal, de modo a torná-lo num desporto para todos e não só para alguns, num desporto que promove a democracia e a igualdade entre classes sociais. Porque no final, mesmo que uns sejam cavalheiros e outros sejam operários, todos somos iguais.

E a série The English Game mostra-nos isso mesmo: a forma como o futebol começou a abrir as portas pelo mundo fora, tornando-se naquilo que é hoje: num negócio que envolve rios de dinheiro, mas também num desporto apaixonante que tem milhões de adeptos espalhados pelos quatro cantos da Terra.

Artigo revisto por Diogo Teixeira