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Carta aberta a Bruno Lage e ao plantel do SL Benfica

 

Mister Bruno Lage,

Há já bastante tempo que pretendo falar consigo e esta é a forma que encontrei de o fazer.

Um “bicho” colocou em alerta todo o mundo, inclusive o do futebol, mas mesmo assim julgo ser possível retirar algo positivo de todo o mal que está a acontecer.

Nós não estamos bem. O Sport Lisboa e Benfica não está bem e alguma coisa tem de ser feita. Os tempos são de incerteza, contudo, o plantel tem de estar preparado para aquilo que se avizinha e contamos consigo para trazer de volta o Benfica, como já o fez outrora.

A temporada não podia ter começado melhor. Uma goleada aos nossos rivais na Supertaça foi a entrada que precisávamos para abrir (ainda mais) o nosso apetite, porque nós, adeptos, somos famintos por títulos.

A época prosseguiu e no campeonato tudo corria bem. Na Liga dos Campeões nem tanto, mas a Liga Europa poderia ser um bom corta-sabores. Acabámos eliminados na primeira eliminatória frente a um FK Shakhtar que em nada considero superior ao Benfica!

Em pouco mais de um mês, perdemos toda a margem de manobra que havíamos conquistado para o FC Porto e acabámos relegados para o segundo lugar e isto, mister, é inadmissível.

O campeonato não está, de todo, perdido, no entanto, já esteve bem mais fácil. Perder um jogo é normal, e não foi isso que me assustou, mas sim a reação à mesma. O Benfica entrou numa espiral negativa e a força anímica da equipa desvaneceu-se. Foi um jogo, foram dois jogos, foi um mês negro, um dos piores de que tenho memória.

Relembro, nada está perdido, mas podia estar tudo muito mais fácil.

Mister, só queremos um futuro de vitórias e isso depende, em parte, de si. Pelo Benfica.
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Os próximos meses não serão fáceis, ora por causa da pandemia que o mundo atravessa, ora pela falta que o futebol, e em especial o Benfica, nos faz. Assim, e como depois da tempestade vem a bonança, o Mister fica encarregue de nos voltar a fazer sorrir.

Acredito nas suas capacidades para nos guiar novamente ao topo da tabela classificativa, até porque se já o fez uma vez, porque não duas? O tempo de paragem que vivemos não deve ser de paragem total, mas sim de mudança. A mente de um treinador nunca para, nem pode parar.

Claro está que o plantel tem de fazer a sua parte e estar preparado fisicamente e psicologicamente para quando tiverem de entrar em ação. Quanto a nós, adeptos, estaremos sempre aqui para apoiar o glorioso. Se somos críticos? Sim, claro, mas só porque queremos o melhor de cada um de vocês.

Peço-vos que joguem como nunca jogaram, que corram como nunca correram e que lutem como nunca lutaram. Peço-vos que coloquem o SL Benfica onde merece, no topo. Caros jogadores, isto não é só o vosso trabalho, é a vida de muito de nós.

Aquilo que vos pedimos é que recuperem aquilo que é nosso, aquilo que todos os benfiquistas mais desejam, o malfadado 38! E se não for pedir muito, conquistem também a Taça de Portugal, por favor.

 

Artigo revisto por Joana Mendes

FC Porto: A incerteza sobre o futuro de Moussa Marega

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Com o futebol parado há mais de duas semanas, e sem que haja para já o regresso oficial das competições, começa a haver uma especulação crescente quanto ao futuro da equipa na próxima temporada. Seja por jogadores em fim de contrato – e que não chegam a acordo de renovação -, ou por vontade de rumarem a outros campeonatos, há abertura para se falar de eventuais saídas e do impacto que isso pode ter no plantel orientado por Sérgio Conceição, que tem contrato até junho de 2021.

Com o treinador no leme da equipa, pelo menos para já, surgem os primeiros rumores da saída de jogadores preponderantes como é o caso de Alex Telles e, mais recentemente, Moussa Marega que, apesar de ter contrato até 2021, já demonstrou que não tem intenções de ficar.

Marega chegou ao FC Porto em janeiro de 2016, proveniente do CS Marítimo – equipa que representou durante uma temporada e meia. Quando chegou aos dragões, a adaptação não foi a melhor, o que obrigou a um empréstimo na temporada seguinte ao Vitória SC, onde surpreendentemente marcou 14 golos em 31 jogos. Um registo que abonou a seu favor e o fez regressar com prontidão ao FC Porto na temporada seguinte. De odiado, o jogador começou a ser idolatrado pelos adeptos portistas que criaram cânticos de apoio ao maliano.

 

Com o futebol parado há mais de duas semanas, começa haver uma especulação crescente quanto ao futuro da equipa na próxima temporada.
Em 2017/2018, diante do CS Marítimo, Marega apontou o golo da vitória nos minutos finais, que colocou o FC Porto muito perto da conquista do campeonato
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Em 2017/2018 – temporada em que os portistas voltaram a ser campeões – , Marega foi um dos principais responsáveis pelo título, com 23 golos marcados em 41 jogos, com um dos golos a ser apontado ao CS Marítimo, na reta final do jogo e que permitiu os festejos antecipado dos portistas. Depois de uma temporada de feição, o maliano surpreendeu de forma negativa ao se ter recusado a treinar no início da época 2018/2019. Foram momentos de grande tensão entre o jogador e o treinador, mas que acabaram sarados com naturalidade e Marega realizou mais uma época de grande nível, com 21 golos em 47 jogos.

Curadas as desavenças e os momentos menos positivos, Marega voltou a fazer parte das contas de Sérgio Conceição para a presente temporada, apesar de estar a ter uma prestação muito menos conseguida, com apenas nove golos apontados em 35 jogos. Este registo também se explica devido a alguns problemas físicos que o jogador teve e também à chegada de Zé Luís ao plantel. Ainda assim, o setor ofensivo continua a ser um dos mais debilitados da equipa e com a eventual saída de Marega os alarmes voltam a ligar-se.

Para já, vai ser importante terminar esta temporada e só depois fazer contas à vida. Mas tendo em conta que o FC Porto precisa de vender jogadores para conseguir equilibrar as contas – que há muito tempo estão desequilibradas – a saída de Marega pode estar em cima da mesa.

A vontade do jogador possivelmente continua a ser a mesma: a saída. E com uma cláusula de 30 milhões, o negócio torna-se cada vez mais possível. De reforçar que o FC Porto precisa de alcançar cerca de 100 milhões de euros em transferências para cumprir as normas do fair-play financeiro da UEFA para inverter o resultado financeiro negativo.

Uma saída que tem, obrigatoriamente, de abrir portas a novos jogadores.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão 

«Se sou o melhor avançado de sempre a jogar em Portugal? Basta olhar para as estatísticas» – Entrevista BnR com Mário Jardel

Se voar como Mário Jardel sobre os centrais é tarefa hercúlea, falar com o melhor marcador do nosso campeonato por cinco ocasiões foi um simples regalo. Apenas uma condição imposta pelo único brasileiro com duas Botas de Ouro: ligar-lhe cedo, muito cedo, para que não interrompêssemos a sua rotina de treino matinal. No sofá de sua casa, voltou connosco aos tempos do Vasco e do Grémio, explicou-nos o que falhou nos negócios com o Rangers e com o Benfica, reviveu os muitos golos ao serviço de FC Porto e Sporting CP e mostrou-nos o novo Jardel. Ciente do seu talento, não se escudou em lugares-comuns e revelou ainda alguns episódios desconhecidos da sua carreira. Num exclusivo Bola na Rede, Super Mário como nunca o viu.

– Vasco da Gama, Scolari e Libertadores –

“Coloca o Jardel que ele vai decidir. E eu fui lá e decidi”

Bola na Rede (BnR): A primeira grande viagem da tua carreira foi de Ferroviário para o Rio de Janeiro, onde chegas com 20 anos e a troco de pouco mais de 40 mil reais brasileiros para assinar pelo Vasco da Gama. Recordas-te desse percurso?

Mário Jardel (MJ): É impossível esquecer, não é? Foi uma oportunidade que tive e que agarrei com unhas e dentes. Graças a Deus foi o começo de uma grande carreira.

BnR: Na mesma época, sagras-te campeão de juniores e campeão Mundial Sub-20 na Austrália, ao lado de nomes como Dida e do velho conhecido dos portugueses Argel, atualmente treinador do Ceará, estado de onde és natural. Consegues descrever-nos esse ano?

MJ: Com certeza! O Campeonato de Juniores foi no Rio de Janeiro, pelo Vasco [da Gama]. Comecei a destacar-me e a alternar entre os juniores e os seniores. No meu primeiro jogo pelos seniores, entrei quando faltavam cinco minutos para o fim e marquei o golo da vitória. No Mundial Sub-20, tive de aturar o Argel durante um mês no mesmo quarto e, por mais que não jogasse muito – estava no banco -, consegui fazer parte da conquista de um título muito importante, que culminou na vitória frente ao Gana por 2-1.

BnR: Foste colecionando prémios de melhor marcador em várias competições desse escalão até conquistares o primeiro título enquanto profissional: o Campeonato Carioca. Foi neste momento que percebeste que o negócio era sério ou sempre tiveste essa convicção?

MJ: Sempre tive a perceção de que o futebol era o que queria fazer para o resto da vida. O meu sonho de infância era chegar à seleção brasileira e, com muito trabalho e sacrifício, consegui almejar o meu objetivo.

BnR: No ano seguinte, em 1994, assumes-te como dono e senhor do lugar de ponta-de-lança, levando a equipa carioca à revalidação da Copa e terminas a competição em grande, bisando na final contra o Fluminense e arrecadando o troféu de artilheiro-mor, com 17 golos. Lembras-te desse jogo?

MJ: É inesquecível. Até porque o Dener morreu [de acidente de viação, pouco tempo antes da final] – ele era o titular absoluto – e o Ricardo Rocha chegou para o Jair Pereira e disse: “Coloca o Jardel que ele vai decidir”. E eu fui lá e decidi.

Se voar como Mário Jardel sobre os centrais é tarefa hercúlea, falar com o melhor marcador do nosso campeonato por cinco ocasiões foi um simples regalo.
Fonte: Facebook Mário Jardel

BnR: Os teus golos não passaram despercebidos e, meses depois dessa final, és emprestado ao Grémio, onde Luiz Felipe Scolari concebeu uma equipa a jogar para ti e não correu mal: segunda Libertadores na história do clube de Porto Alegre e mais um troféu de melhor marcador, desta feita com 12 golos.

MJ: Primeiro o “Felipão” formou o seu grupo, jogadores que ele considerava que seriam essenciais, como o Paulo Nunes que não jogava, o Adílson que também não jogava, jogadores que não eram aproveitados. Ele acreditou naquele “time”. Conseguimos ganhar dois Campeonatos Gaúchos e a Libertadores e eu consegui ser o melhor marcador. É nessa altura que o Benfica me faz a primeira proposta, mas o Pinto da Costa foi mais rápido. 

BnR: Mas, segundo sei, estiveste com um pé no Rangers, antes de assinares pelo FC Porto. Porque é que o negócio com o clube escocês não se concretizou?

MJ: A hipótese de ir para o Rangers não aconteceu porque não tinha dupla nacionalidade e ainda tinha jogos pela seleção. Voltei ao Brasil, fiquei mais seis meses no Grémio e recebi uma ligação do meu empresário e do Gilmar Veloz, que me fizeram a proposta de ir para o FC Porto. Em dois dias estava lá. Na mesma altura, o Benfica também contratou o Paulo Nunes e o Paulo Autuori [treinador encarnado à época] queria-me também para refazer a dupla da Libertadores. Por azar do Benfica e por sorte do FC Porto, fui para o Porto. [risos]

Os 9 jogadores revelação da Liga Inglesa 2019/2020

O Covid-19 está a abalar todos os setores e a modificar a vida dos indivíduos pelo mundo fora. O futebol não é exceção e é ainda incerto o término desta época desportiva nos principais campeonatos europeus. A certeza é que a liga inglesa foi a última a suspender as jornadas restantes e planeia ainda realizá-las brevemente à porta fechada. No entanto, o clima é todo instável e de um dia para o outro tudo pode mudar. É ainda possível a realização da reta final no caso desta pandemia abrandar, juntamente com o adiamento do Euro 2020, que tinha datação para os meses de junho e julho.

Tendo a época terminado ou não, restariam apenas dez jornadas e há um conjunto de jogadores que se podem destacar pelas exibições até ao momento e que entram, portanto, no lote de jogadores revelação da Liga Inglesa 2019/2020, numa lista selecionada pelo Bola na Rede.

E agora, para algo completamente diferente…

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Quando se dirigiram a mim e me disseram, pela primeira vez, que a vida estava envolta de surpresa, não acreditei. Já não me vem à memória o momento em concreto ou onde me situava na altura. Sei apenas que era pequeno porque sorria muito, porque brincava na lama sem a mínima preocupação a corroer-me cada neurónio que possuo e porque a energia parecia proveniente de uma tomada elétrica com um fio longo, muito longo. Também nunca convivi diariamente, ainda que enclausurado em casa, com uma pandemia que tem ares de criminoso covarde, facto que acrescento para comprovar a felicidade de outrora.

Até os operários da firma cerebral encetarem o seu trabalho e afinarem bem as máquinas que produzem pensamentos e raciocínios, a ingenuidade de uma criança comove e propaga o seu contágio aos demais. A lição é mister que o imberbe oferece ao adulto, sem que este tenha sequer tempo para ripostar: o modo como se vibra, a descrença e desprezo pela galáxia extrafutebol e os ídolos, fonte de inspiração e imitação. Para eles, os mais sábios sem efetivamente saberem disso (sem dúvida, a parte bucólica) interessa o golo, a finta, o drible, a defesa, o passe. A degradação do espírito é acompanhada pelo crescimento e eu não me quero imaginar com 50 anos…

Infelizmente, o ser humano cresce, priva-se da irracionalidade e adentra, aos poucos, na zona da discussão que em tempos achara maçuda e da qual escapava sem qualquer tipo de dificuldade. E argumenta, e contra-argumenta, e sobrepõe o argumento ao contra-argumento sobre o porquê da grande penalidade que não foi assinalada ou do offside que foi sinalizado e que seria o golo vitorioso da sua equipa. Contudo, a insatisfação parece corroê-lo, ainda não levou a sua avante! Vai buscar o árbitro, o fiscal de linha, o sistema, o Apito Dourado, os e-mails, o Cashball, o Rui Pinto, a corrupção que a tia da prima da cunhada viu na praia de Ipanema, debaixo de uma palmeira, enquanto saboreava um refresco de coco.

O presidente leonino é mais um dos rostos do futebol que se une ao combate à covid-19
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Aí, no seio do turbilhão causado pela pandemia COVID-19, quando o tempo para pensar e repensar é a equação com solução infinito elevado à sua base, depreendemos o frívolo e o vazio da nossa discussão. De entre toda a panóplia de consequências devastadoras que o vírus possa conter no seu sistema operativo, a sua chegada principiou uma atitude que há algum tem residido no meu subconsciente e que se traduz numa súplica ao lado humano e racional (o verdadeiro): de hoje em diante, uma espécie de quaresma futebolística (daí a proximidade temporal com a Páscoa), na qual todos, do dirigente ao adepto banal, realizem uma pausa na atividade farta das alfinetadas e troca de galhardetes mútuos. Que se beneficie a tática, o jogo jogado e a análise de quem o jogou. Urge ao futebol ressuscitar das escrituras!

Como o leitor observou, só uma situação de caráter anómalo distendeu sobre as instituições uma preocupação generalizada e coletiva, uma dedicação genuína à causa pública e um parecer ao exterior de que, afinal, o universo do futebol não é composto por seres tão monstruosos e imbecis como se pensava: doação de ventiladores a hospitais precários, garantia de instalações privadas de clubes, caso os estabelecimentos de saúde não sejam capazes de comportar os infetados, uma verba destinada ao Serviço Nacional de Saúde e um alistamento ao quinhão da área da saúde, garantindo uma ajuda técnica e especializada no combate ao vírus (Frederico Varandas, presidente do Sporting Clube de Portugal).

Dirigentes deste país, se fosse a vocês, preocupava-me em angariar a estima e a admiração dos que, não tarda, crescem e ficam iguais a mim e a muitos outros.

P.S: Crianças sportinguistas, eu previ muita coisa que pudesse antecipar um campeonato do nosso clube. Agora uma pandemia…

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Jogo Interior 22# – A braçadeira de Puyol: um artigo sobre liderança

Na rúbrica de jogo interior de hoje falamos sobre liderança. Esta é a arte de comandar pessoas, atraindo seguidores e influenciando (preferencialmente de forma positiva) mentalidades e comportamentos. Existem mil definições sobre o conceito de liderança, sobre a forma como pode ou deve ser exercida, sobre as suas diferentes modalidades e quais as que historicamente produzem mais ou menos efeito.

Não tenho qualquer pudor em admitir que mesmo sendo advogado, as minhas principais referências no que diz respeito à liderança, sempre estiveram ligadas ao desporto, mais concretamente ao futebol. Pelos tempos de jogador, pelos tempos de treinador ou simplesmente pela convivência com amigos durante a prática ou na observação de jogos, as figuras e os momentos que me marcaram, no contexto da liderança, estiveram quase sempre ligadas ao futebol.

Consequência do descrito, sempre atribuí uma enorme importância à figura do capitão de equipa, todos os inícios de época aguardo com alguma expectativa o anúncio por parte dos clubes de quem serão os três ou quatro jogadores que sentirão o privilégio de usar braçadeiras míticas, pesadas, que em alguns casos funcionarão como um símbolo de mística e ligação ao clube, mas que noutros casos se transformarão num verdadeiro “garrote”, aumentando a pressão de quem o usa sem saber bem o que isso significa.

Sócrates escreveu: “Sob a direção de um forte general, não haverá jamais soldados fracos”, frase que quase poderia ser uma apresentação de Carles Puyol, um jogador mundialmente conhecido pela forma como jogava. Um autêntico exemplo para o tema de “Jogo Interior” de hoje, quer seja pela quantidade de jogos que fez ao serviço de um dos principais clubes mundiais, mas igualmente por ser um verdadeiro símbolo e exemplo de um capitão de equipa. A braçadeira não era apenas usada por Puyol, a braçadeira fazia parte do corpo do central Espanhol.

Gerard Piqué, o último grande jogador a fazer dupla com Puyol, foi sempre um dos seus principais admiradores, como aliás descreveu: “A minha geração e as que vierem a seguir não sabem o que é um ‘Barça’ sem Puyi na defesa, com o número ‘5’ nas costas. Suponho que já nada será igual”. Piqué recordou também o momento em que os dois se conheceram: “Tu eras o capitão e o emblema da equipa e eu um jovem que vinha para conquistar o mundo. Desde o primeiro dia que tivemos uma grande relação, tanto dentro como fora do campo. Ao teu lado, sentia-me protegido, sabia se um dia falhasse, tu estarias lá para me salvar. Eras o meu anjo da guarda.”

Mas o futebol, felizmente, durante anos foi pródigo a oferecer-nos exemplos de destaque: Steven Gerrard, Totti, Mascherano, Maldini, De Rossi, Vidic, John Terry, Tony Adams, Sérgio Ramos, Hamsik, Joaquin, entre outros, numa génese de jogador e de liderança que está em vias de extinção. Porquê? Porque o futebol mudou, porque as referências dos mais jovens mudaram e todos os jogadores que citei misturavam um conjunto de caraterísticas (psicológicas e físicas) que hoje já não são fáceis de encontrar.

Mas então o que realmente define um capitão de equipa? Para mim, desde logo, três caraterísticas saltam imediatamente à vista: carisma, ética de trabalho e resiliência. Um capitão tem de ser o primeiro a dar a cara, o último a desistir, tem de ser alguém que acredita sempre até ao apito final e que secundariza, semana após semana, os seus próprios limites de cansaço e se esforça em prol de um coletivo. Mas não chega. Infelizmente não chega. Um verdadeiro capitão, aquele que analisamos no “Jogo Interior” de hoje,  também tem de ser visto como tal pelos jogadores, pelos treinadores e pelos adeptos, por forma a que as suas ações e discursos possam ter o impacto devido. Um capitão agrega, não deixa ninguém de fora, faz com que todos se sintam importantes no sucesso do grupo, mesmo que normalmente não saiam do banco ou da bancada.

Existe quem afirme que os jogadores mais dotados tecnicamente raramente dão bons capitães, afirmação que embora nem sempre seja verdade, de facto, verifica-se na maior parte dos casos. Mas para mim existe uma explicação razoável: ser capitão é também ser altruísta. Usar a braçadeira de um clube, ser o representante máximo de um emblema não se coaduna com qualquer ato de egoísmo, com a prevalência de um ego sobre o que são os interesses da Instituição que representa.

Ora, centrar todo o seu talento e esforço em prol de um coletivo, sabendo que em momentos o seu destaque individual poderá sair ferido ou comprometido, é um risco e uma forma de estar que nem todos os jogadores estão dispostos a assumir, com especial destaque para os jogadores que sabem ser “acima da média” em relação aos restantes companheiros de equipa. Mas logo assim à cabeça, acho que Bruno Fernandes é um exemplo claro de que embora concorde com esta afirmação, não é um raciocínio 100% fiável.

Bruno Fernandes era um capitão na equipa do Sporting CP e também o melhor da equipa
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Ainda que existam componentes que são trabalhadas, considero que para se ser um grande capitão é inegável terem de existir caraterísticas absolutamente inatas e que os definem nos momentos mais complicados. Numa entrevista dada já em 2020, José Mourinho referiu que teve capitães que não eram líderes. Aproveitou o ensejo e deu como exemplo máximo de liderança o ex-capitão do FC Porto, Jorge Costa, contando uma simples história, mas que nos elucida bastante sobre o papel de um capitão “à antiga”:

“Um dia estávamos a perder por 2-0 com o Belenenses ao intervalo, eu ia para o balneário e todos podiam ver que eu estava a fumegar. E o Jorge disse: ‘Espera dois minutos aí fora, por favor.’ Ele entrou, fechou a porta e fez o trabalho sujo por mim. Depois abriu a porta e disse: ‘Orienta-nos.’

Ele fez tudo o que eu iria fazer.

Ele era central, nunca marcava golos e marcou dois nesse jogo. Há uma grande diferença entre capitão e líder, não compras líderes, não crias líderes. Quando os tens, a tua equipa está um passo à frente, mas o futebol hoje está cheio de imagem e as pessoas dão mais atenção aos que parecem do que aos que são”.

Mourinho acertou em cheio.

Mesmo a nível nacional, o futebol Português também já nos forneceu grande líderes, grandes exemplos, estando, na minha opinião, algum do insucesso de algumas equipas relacionado com a ausência de lideranças fortes. Mas isso não é tema para desenvolvermos neste Jogo Interior de hoje.

Para fechar, referir apenas que a imposição de uma braçadeira, a um jogador que não tenha esse perfil de liderança, poderá na minha ótica ter dois efeitos:

Um efeito positivo: o atleta percebe a responsabilidade que tem em mãos e acaba por amadurecer e agir de forma mais coletiva e agregadora;

– Um efeito negativo: passam a ser-lhe cobrados comportamentos que não são os seus, passa a estar a associado a uma imagem de falta de liderança, e cai sobre ele um peso que pode ser fatal, principalmente na relação com os adeptos ou com o treinador (quem não se lembra do caso Maicon no FC Porto que culminou na sua saída?).

Um líder é um vendedor de esperança, é alguém que tem a capacidade de conseguir que as pessoas façam o que não querem e gostem de o fazer. Não está ao alcance de todos, mas os que conseguem, ganham o estatuto de lenda, daí estar presente nesta rúbrica – “Jogo Interior” – porque é tão ou mais importante que uma tática.

Boa quarentena.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Força da Tática: A nova SS Lazio de Inzaghi

A dominar o futebol italiano durante tantos anos, a Juventus FC, tem agora uma nova companheira na conquista da Serie A. De tão inesperado sucesso, talvez a história da renovada SS Lazio se torne ainda mais bonita! Comandados por Simone Inzaghi há cinco anos, a equipa de Roma está, finalmente, a conseguir impor o futebol que o seu treinador sempre desejou.

Com um modelo de jogo que privilegia o ataque rápido ou momentos de transição ofensiva, a Lazio contempla individualidades de grande qualidade e completamente adaptadas a esta filosofia. Atualmente, jogam num sistema de 3-5-2 com dinâmicas muito interessantes ao nível defensivo e atacante.

Com três centrais, normalmente Radu, Acerbi e Luiz Felipe, a linha defensiva mostra-se bastante participativa na construção de jogo e sólida a nível defensivo. Radu, normalmente com um papel mais de progressão com bola, e os outros dois com uma qualidade individual diferente que os permite executar passes verticais para médios ou avançados. Todos eles são jogadores rápidos e eficientes no momento defensivo.

Nas alas jogam, normalmente, Lazzari e Lulic; são jogadores muito importantes para a equipa, sendo eles os responsáveis por oferecer amplitude em situações de ataque e de pressionarem de forma intensa os jogadores adversários no corredor lateral.

Fonte: FIFA

No meio campo surge um trio de grande qualidade e que se completa muito bem. No vértice mais recuado está o jogador mais posicional, que funciona como pêndulo de toda a equipa, Lucas Leiva. O médio interior direito é Milinkovic Savic; o sérvio destaca-se pela sua qualidade de passe e visão de jogo, que lhe permitem executar bem em espaço curto. Além disso, mostra uma excelente capacidade atlética, que favorece o seu jogo defensivo em duelos individuais e, por outro lado, permite-lhe ser solução em bolas longas para ganhar no jogo aéreo.

O médio interior esquerdo é Luis Alberto, um jogador com um grande primor ao nível técnico, mas também com uma perceção do jogo de qualidade. Outrora mais perto de Immobile, o espanhol tem ocupado funções de construção de jogo, descendo no terreno, quando a equipa tem bola, e de ligação com setor atacante em caso de recuperação para saída em transição ofensiva. Já a frente de ataque é composta por Immobile (o jogador em maior plano de evidência, contando com 27 golos) e o talentoso argentino Correa. Ambos têm uma dinâmica muito interessante na forma como conseguem intercalar o ataque à profundidade com movimentos de apoio.

Apesar de não serem uma equipa que priorize a posse de bola como forma de ferir o adversário (conta com uma média de 50% de posse de bola em jogos da Serie A), a Lazio chega à baliza adversária, principalmente através da verticalidade em zonas de construção e pela inteligência em espaços de criação. Neste aspeto do jogo, tem-se destacado Luis Alberto, que pela rapidez de pensamento e pela forma como recebe, enquadrando o jogo de frente, executa sempre antes dos outros. Prova disso são as 13 assistências que leva na Serie A.

No futebol não vale de muito ter posse, quando não se sabe o que fazer com bola. É um chavão clássico no futebol, mas não deixa de ser verdade. A formação Laziale mostra intencionalidade e inteligência sempre que tem a bola. Algumas dinâmicas da Lazio com bola:

  • Ambos os laterais subidos em momento de organização ofensiva e a dar amplitude nos corredores;
  • Construção a três com centrais abertos e disponíveis para progressão com bola ou para execução de passe vertical;
  • Médio defensivo é o jogador posicional na preparação de eventual momento de transição defensiva;
  • Médios interiores oferecem-se como terceiro homem em dinâmica entre central e lateral, recuam para criar superioridade numérica em zonas de construção (normalmente, Luis Alberto) ou posicionam-se entre linhas para criar superioridade numérica em zonas de criação;
  • Normalmente, um dos avançados posiciona-se entre linhas em apoio frontal para combinação com médios e o outro avançado posiciona-se entre centrais, permitindo o recuo da linha defensiva adversária e oferecendo espaço e tempo aos jogadores entre linhas para decidir e executar.

A Lazio é uma equipa que “vive” muito do erro do adversário. Dessa maneira, a pressão intensa em zonas subidas ou a partir do seu meio campo, dependendo do momento do jogo, é uma caraterística implícita no futebol da equipa romana. Além disso, a dinâmica e posicionamento atacante da equipa italiana permite-lhe preparar o momento de transição defensiva e assim recuperar a bola em terrenos avançados e transformar essa transição defensiva em oportunidade para transitar ofensivamente. Mostram-se bastante pressionantes e com linhas muitos próximas, não se coibindo de ter centrais em zonas bastante avançadas do terreno. Vejam no vídeo:

Ao nível da organização defensiva, mostram uma identidade que consiste numa atração, principalmente por parte da dupla de avançados (pressão de dentro para fora), da equipa adversária para os corredores laterais. Nesses momentos criam quase sempre superioridade numérica, recuperando a bola e partindo para transição. Além disso, é uma equipa que não se desmonta facilmente, mantendo sempre o triângulo do meio campo, com os três vértices bem definidos e uma linha defensiva de, pelo menos, 4 jogadores. Os homens da frente são responsáveis pelo condicionamento da fase de construção adversária e depois de ultrapassados “esperam” pelo momento para transitar. Todos estes aspetos fazem da Lazio a melhor defesa da liga italiana, juntamente com o FC Inter de Milão, com 23 golos sofridos.

Em transição ofensiva mostram uma qualidade soberba que os coloca entre os melhores da europa neste momento do jogo. Destaque para as sobreposições verticais que a equipa utiliza, a forma como preparam as ações antes de receber, enquadrando-se para o jogo com grande qualidade e a alternância entre ataque à profundidade e movimento de apoio. Para isto, muito se deve a forma como Luis Alberto, Milinkovic Savic, Correa e Immobile se relacionam dentro de campo. Com uma habilidade motora acima da média, perceção do jogo e recursos técnicos, os dois primeiros nomes referidos aceleram o jogo e esperam pela melhor solução para servirem os dois homens da frente, Correa e Immobile.

A morder os calcanhares à Juventus, a SS Lazio mostra recursos e qualidade suficientes para vencer esta Serie A.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Que livros de desporto devo ler nesta Quarentena? Alex Ferguson – A Minha Autobiografia

A mais completa colecção de memórias de Alexander Chapman Ferguson – Alex Ferguson – A Minha Autobiografia – é o livro lançado em 2014, edição final e completa da vida e carreira do mais titulado treinador de sempre.

Nascido nos subúrbios de Glasgow no último dia de 1941, Alex sempre se definiu orgulhoso das suas origens modestas no distrito de Govan, distrito operário onde fomentou as suas qualidades humanas. A honestidade e a força de carácter, características intrínsecas à sua personalidade e que demonstrou durante toda a sua carreira, foram a base de um talento inesquecível na gestão de egos e na sua capacidade em impor a autoridade nas mais diversas circunstâncias.

A descrição de todas as etapas enquanto homem, atleta amador e profissional e, finalmente, treinador, são-nos explicadas ao pormenor de forma articulada e fluída, na qual todos os detalhes vitais nos são transmitidos com uma precisão histórica infalível.

Desde os tempos de futebolista profissional no Dunfermline AFC e no Rangers FC, onde chegou a internacional escocês, até ao último jogo na liderança do Manchester United FC: o 5-5 frente ao West Bromwich Albion FC é apontado por ele como o resultado que melhor ilustra uma carreira ímpar e um estilo inconfundível, no qual a racionalidade muitas vezes se deixava subjugar pela força das emoções.

«If I needed a result to epitomise what Manchester United were about it came to me in game No. 1500: my last. West Bromwich Albion 5 Manchester United 5. Wonderful. Entertaining. Outrageous. If your were on your way to watch Manchester United you were in for goals and drama. Your hear was in for a test. I could have no complaints about us throwing a 5-2 lead agains West Brom within nine minutes. I still went through the motions of expressing my annoyance but the players could see right throught it. I told them: ‘Thanks boys. Bloody great send-off you’ve given me!» p. 11

Lê-se nas ‘Reflexões’ e é a introdução perfeita para a descrição de uma carreira e de uma personalidade que faz parte da história do jogo, por mérito próprio. Desde os 32 anos, quando começa no East Stirlingshire FC, que a sua faceta disciplinadora foi sentida. Um autêntico sargento.

As aventuras, as peripécias e os sucessos do ícone maior dos bancos vistos à lupa
Fonte: Amazon

A imagem de pai carinhoso com temperamento instável foi o que possibilitou a transformação de grupos de jogadores em seguidores acérrimos da sua palavra: só assim se justifica a forma como pega no Aberdeen FC e os leva a intrometerem-se entre o poderio dos dois gigantes do costume, levando-os inclusive à glória europeia com a conquista da Taça das Taças.

Em Manchester, revolucionaria um clube, dar-lhe-ia identidade e seria a figura paternal de uma geração inesquecível de jogadores, a Class of ’92, assim chamada pela vitória na FA Youth Cup do mesmo ano: Gary e Phill Neville, Scholes, Giggs e Beckham, a estrela maior e a personalidade mais mediática até à consolidação de Cristiano Ronaldo na primeira equipa.

Ao português, dedica-lhe um capítulo completo – o oitavo de 25 -, o qual começa com a mais pertinente das afirmações: Cristiano Ronaldo was the most gifted player I managed.

A carreira é-nos apresentada em números no final da obra, onde se explica com todas as estatísticas, classificações e trajetórias europeias o percurso do jogador e do treinador Sir Alex Ferguson, pormenor que emprega ao livro o definitivo carimbo de ‘essencial’ na biblioteca de qualquer admirador.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Fórmula 1: 5 Grandes Prémios do Mónaco a rever

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Infelizmente, o Grande Prémio do Mónaco foi cancelado devido à pandemia do coronavírus (COVID-19). Sim, leram bem, foi cancelado. Não foi adiado como os outros Grandes Prémios. Assim, este icónico Grande Prémio é realizado desde 1929, mas só em 1950, quando foi introduzido o Campeonato de Pilotos, é que começou a pontuar.

Em 2020, a corrida continua a ser uma das mais emblemáticas. Mas, como o Mónaco é a única que não paga à Liberty Media, a decisão do seu cancelamento foi uma escolha acertada neste momento difícil por que passamos.

Assim, fui ao meu baú de memórias e vou-vos apresentar os cinco melhores Grandes Prémios que se correram nestas ruas. Se tem algum, não se esqueça leitor, pode sempre deixar sugestões na caixa de comentários.

Lewis Hamilton e Sebastian Vettel prestaram tributo a Nikki Lauda em 2019
Fonte: F1

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Grande Prémio do Mónaco de 1950 – A primeira corrida a contar para o Campeonato do Mundo de Pilotos viu Juan Manuel Fangio vencer no Alfa Romeo, com mais uma volta sobre Alberto Ascari em Ferrari e Louis Chiron em Maserati em terceiro. Uma corrida excelente, mas que, hoje em dia, poderia ser aborrecida (?)

Força dos Números: As estatísticas do líder FC Porto

Até ao momento, mais de dois terços das jornadas já se realizaram e, ao fim das mesmas, a tabela classificativa é liderada pelo FC Porto, seguido de perto pelo SL Benfica. O campeonato português encontra-se, atualmente e por tempo indeterminado, paralisado.

Infelizmente, não é ainda unânime entre os especialistas a data em que voltarão a estar reunidas todas as condições para a bola voltar a rolar. Até lá, nós, que respiramos futebol, teremos mais tempo livre do que o comum, tempo que poderemos empregar relembrando tudo aquilo que já aconteceu durante este campeonato.

Será essa a proposta deste artigo em particular, rebobinar tudo aquilo que ocorreu na nossa liga, de um ponto de vista azul e branco, naturalmente, e traduzi-lo em números.