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Aos 38 anos, Vincenzo Nibali, vencedor de 4 grandes voltas e de 3 monumentos, terminou a carreira no último sábado após a participação na Volta à Lombardia, corrida que ganhou por duas ocasiões. Apesar do sucesso alcançado em 2015 e em 2017 na prova italiana, desta vez, Nibali não lutou pela vitória e ficou para trás quando faltavam mais de 20 quilómetros para o fim. É um de sete ciclistas em toda a história a ter ganho Tour, Giro e Vuelta ao longo da carreira.
Foto de Capa: Astana Qazaqstan Team
Artigo redigido por Filipe Pereira
OS PRIMEIROS MERGULHOS DO «TUBARÃO»
Vincenzo Nibali, ganador del Lombardía, fue medalla de bronce en el mundial Creloj de Zolder junior en 2002 pic.twitter.com/cEfwjUZ1uy
— Urtekaria (@Urtekaria) October 5, 2015
Vincenzo Nibali nasceu na província de Messina, uma região siciliana, em 1984. A paixão pelo ciclismo começou quando ainda era muito jovem. Numa entrevista ao site “Roleur”, o pai do “Tubarão de Messina” notou que, aos 12 anos, Vincenzo já falava abertamente do sonho de ser um ciclista profissional. Em 2003 passou mesmo a integrar a Cicli Fratelli Marchetta Team, uma equipa de formação. Aos 16 anos, saiu de casa dos pais para correr na região da Toscânia.
Vincenzo teve sempre o apoio da família e o seu pai reitera mesmo que este apoio foi um bom “impulso” para o ciclista. Aos 17 anos, o “Tubarão” dá as primeiras dentadas mais a sério e torna-se campeão italiano de juniores. Para além disso, comeu tudo no Giro della Lugniana e ainda ganhou a medalha de bronze no Campeonato do Mundo de contrarrelógio do mesmo escalão.
Em Sub-23, não ganhou com tanta frequência, mas destacou-se pela consistência, alcançando em 2004, mais uma medalha de bronze, novamente nos Mundiais de contrarrelógio e fechou top 5 na prova de fundo. Existiam cada vez menos dúvidas que Vincenzo Nibali seria o novo grande nome do ciclismo italiano, sucedendo a nomes como Ivan Basso (de quem foi colega de equipa) e ao falecido Marco Pantani.
CORRER NO MEIO DE PEIXES GRAÚDOS
All stories, even the most exciting ones, eventually come to an end. It is nice that the farewell to cycling comes on the roads of @Il_Lombardia, on which we have written some historical pages of this sport. One more race, just one, let’s dream on together. Grazie @vincenzonibali pic.twitter.com/MZCSEWCJDt
— Giro d’Italia (@giroditalia) October 8, 2022
Quando chega a profissional, os dois primeiros anos foram um bocado apagados para Vincenzo Nibali. Com resultados interessantes, incluindo a primeira vitória, num contrarrelógio coletivo na Settimana Internazionale di Coppi e Bartali. Os resultados mais interessantes ainda eram mesmo os top 5 nos campeonatos italianos de contrarrelógio.
Em 2007, estreia-se nas grandes voltas, mais concretamente na Volta a Itália. A estreia foi com chave de ouro, uma vez que a sua equipa (a Liquigas) ganhou a primeira etapa, um contrarrelógio coletivo. Nibali fez alguns top 10 em etapas, incluindo no contrarrelógio individual e ainda vestiu a camisola da juventude durante a primeira semana.
Não descansou muito depois do Giro e foi ganhar duas etapas, assim como a classificação por pontos da Volta à Eslovénia. Ainda no fim desse mês de junho, foi vice-campeão italiano no esforço individual. Em 2008, conquista a primeira corrida por etapas enquanto profissional: o Giro del Trentino (atualmente designada por Volta aos Alpes).
Os top 10 eram cada vez mais recorrentes e em corridas mais importantes. Em 2009, Vincenzo Nibali alcança o primeiro top 10 da carreira em provas de três semanas, ao acabar o Tour na sétima posição, depois de já contar com um top 10 na Volta ao País Basco e no Critérium du Dauphiné Liberé (atual Critérium du Dauphiné).
Aos 25 anos, o “Tubarão de Messina” faz uma das melhores temporadas da carreira. Alcança o primeiro pódio numa grande volta ao alcançar o terceiro lugar do Giro, como gregário de Ivan Basso. Pódio este que lhe valeu a liderança na Volta a Espanha. Nibali não perdeu a hipótese e numa luta até ao fim frente a Ezequiel Mosquera (e ainda com adversários como Joaquim Rodriguez e Frank Schleck) ganhou a primeira grande volta da carreira. Fez ainda top 5 na Volta a Lombardia.
Em 2011, fecha o Giro novamente no terceiro lugar, mas a desclassificação de Alberto Contador promoveu o “Tubarão” ao segundo lugar. Um ano depois, Nibali completa o feito de ocupar lugares do pódio em todas as corridas de 3 semanas, com um terceiro lugar na Volta à França, sendo o melhor corredor fora da Sky, ao ficar atrás do duo de Christopher Froome e Bradley Wiggins.
Em 2013, fica muito perto de fazer a primeira dobradinha da carreira. Domina completamente um Giro, no qual fizesse sol, chuva ou até neve, Nibali era simplesmente o melhor, superiorizando-se numa corrida que contava com Bradley Wiggins e Cadel Evans, os dois anteriores vencedores da Volta a França.
Numa das melhores condições físicas da carreira, perdeu a Vuelta por 37 segundos para um veteraníssimo Christopher Horner. À entrada da penúltima etapa, uma chegada ao alto do Angliru, tinha apenas 3 segundos de atraso para o norte americano e não fosse um pequeno deslize da bicicleta de Nibali durante a subida, se calhar a corrida tinha sido mesmo decidida nas bonificações.
UM CICLISTA PARA TODAS AS MEDIDAS
VINCENZO NIBALI
🏆🏆 Giro d’Italia (2013, 2016) | 7 stage wins
🏆 Tour de France (2014) | 6 stage wins
🏆 Vuelta a España (2010) | 2 stage wins* (*ℹ️ UCI)
🏆🏆 Il Lombardia (2015, 2017)
🏆 Milano-Sanremo (2018)
🏆🏆 🇮🇹 RR
🏆🏆 Tirreno-Adriatico
🏆🏆 Giro del Trentino
🏆x54 TOTAL— ammattipyöräily (@ammattipyoraily) October 8, 2022
2014 foi mais um ano em grande com a vitória no Tour, a primeira de um italiano no século XXI, a primeira também desde a dobradinha Giro-Tour alcançada pelo “Pirata” Marco Pantani em 1998. Devido ao quebrar deste jejum, Vincenzo Nibali mostrou o autêntico campeão que sempre foi e entregou uma camisola amarela à família do fenómeno italiano que perdeu a vida em 2004.
Nibali dominou completamente essa edição da Volta a França. Mostrou mais uma vez que era um ciclista versátil, capaz de atacar em média, alta montanha e até no paralelo. Numa etapa com alguns setores de pavê do Paris- Roubaix, Nibali ficou no terceiro lugar e ganhou mais de dois minutos a Alberto Contador, nesse dia. A vitória final foi arrasadora, com o segundo classificado, Jean-Cristophe Péraud, a ficar a 7 minutos e 37 segundos da camisola amarela.
A vitória do italiano persiste até ao dia de hoje sob uma grande interrogação: Contador e Froome não acabaram a corrida, devido a quedas. Teria Nibali ganho a prova rainha do ciclismo mundial, caso o espanhol e o britânico tivessem seguido até Paris? Uma daquelas perguntas que vai ficar sem resposta. O domínio de Vincenzo Nibali na Volta a França pode indicar que sim, mas Contador e Froome atravessavam também um enorme momento de forma.
Foi a penúltima grande volta que Nibali ganhou. A última foi a Volta a Itália de 2016, que o “Tubarão” ganhou com uma recuperação tremenda nos últimos 3 dias da prova, muito graças a uma queda de Steven Kruijswijk na etapa 19. O neerlandês levava mais de quatro minutos e meio para o italiano à entrada do antepenúltimo dia de competição, uma chegada em alto a Risoul.
Etapa 20, chegada em alto a Sant’ Anna Di Vinadio, numa contagem de 3ª categoria. Foi na penúltima subida do dia, uma contagem de 1ª categoria, o Colle Della Lombarda, que Nibali deixou o camisola rosa, Esteban Chaves, para trás, rumo à última “maglia rosa” da carreira. Voltaria a repetir o pódio no Giro por mais duas ocasiões (em 2017 e em 2019) e da Vuelta por uma ocasião (em 2017).
Tanto nas grandes voltas, como nas provas de um dia, a explosividade de Nibali , bem como a sua capacidade exímia de descer vinham ao de cima. Foi o que se viu, particularmente na vitória alcançada na Milan – Sanremo, um dos cinco monumentos do ciclismo, em 2018
Na prova que é conhecida como uma clássica para os sprinters, o “Tubarão” cheirou sangue e veio à superfície na mítica subida do Poggio. Seguiu um ataque de Krists Neilands, campeão da Letónia na altura. Deixou o ciclista letão para trás e conseguiu ganhar alguma distância que foi capaz de aumentar no falso plano que se seguiu.
Numa chegada tão rápida como a de Sanremo, Nibali aguentou a perseguição de um grupo constituído por homens com ponta final do outro Mundo como Caleb Ewan e Arnaud Demáre, para alcançar o segundo monumento da carreira. As duas vitórias que alcançou na Volta a Lombardia foram obtidas com dois brilharetes na descida do Civiglio. Autênticos hinos aos ataques cirúrgicos que tornam o ciclismo tão belo.
OS MOMENTOS MENOS BONS
“I hope they both lose their podium places.”@tom_dumoulin takes aim at Nibali and Quintana after Stage 18 #Giro100 pic.twitter.com/6BVEAD5ulf
— Eurosport (@eurosport) May 25, 2017
Vincenzo Nibali é uma grande figura do desporto e como tal, tem alguns momentos controversos associados à sua personalidade. Um destes ocorreu na Vuelta de 2015, quando foi visto a agarrar-se ao carro da equipa para reentrar no pelotão, depois de ter sido apanhado num corte por causa de uma queda a 30 quilómetros da meta. Foi desclassificado da corrida, após essa etapa.
Na edição de 2015 do Tour, Nibali venceu a etapa 19, depois de um ataque a 58 km do fim num momento em que Chris Froome, camisola amarela, teve um problema mecânico. O “Tubarão” estava a mais de 8 minutos do britânico, mas ainda assim uma boa parte do público e a própria equipa da Sky deixou críticas ao siciliano por não ter aguardado pela reentrada do líder da geral no pelotão antes de se lançar ao ataque, algo visto por muitos adeptos e atletas como uma regra não escrita da modalidade.
Froome afirmou que o ataque pareceu motivado pela avaria da sua bicicleta, uma vez que Nibali teve uma subida inteira para atacar. O britânico admitiu que o seu maior problema com a iniciativa foi que esta última pudesse servir de motivação para o ataque de rivais mais diretos.
“Quando a corrida está a decorrer, existem problemas, como quando o Contador caiu no outro dia. Antes de julgar, temos de pensar e refletir”, foi esta a defesa de Nibali que condenou ainda as palavras que o líder do Tour lhe dirigiu, logo após o fim da etapa.
No Giro de 2017, o “Tubarão de Messina” estava a lutar pela vitória final frente a Tom Dumoulin e a Nairo Quintana. Após a etapa 17, o ciclista neerlandês, que liderava a geral, condenou os dois rivais por estarem demasiado agarrados à sua roda, comprometendo o próprio lugar no pódio. Dumoulin admitiu que gostava de ver os dois rivais a perder o pódio.
Nibali respondeu. Falou de uma atitude arrogante do ciclista dos Países Baixos e frisou que também Dumoulin podia acabar fora do pódio. O italiano acabou a corrida em terceiro e o neerlandês ganhou, por isso, ninguém teve de sair do pódio.
Em 2018, Vincenzo Nibali apontou uma nova vitória no Tour como principal objetivo. Esta oportunidade não teve um final feliz. Na etapa 12, com chegada ao Alpe d’Huez, o siciliano foi derrubado pela alça da câmera de um fã, já durante a subida final. Acabou por chegar em sétimo a apenas 13 segundos do vencedor da etapa, Geraint Thomas. Com nada mais, nada menos que uma vértebra partida, abandonando a prova no dia seguinte.
Vincenzo Nibali ganhou pela última vez a 3 de junho deste ano na RSM Wealer Ronde, corrida neerlandesa.
“O sucesso vem de diferentes formas. É algo que é construído, mas também algo que pode ser uma surpresa. É constituído por muitos aspetos”, disse Nibali numa entrevista à Roleurs.
Vincenzo Nibali teve uma carreira sensacional. Um ciclista com um feitio por vezes complicado, mas que tinha um talento enorme e uma paixão pelo ciclismo que era igualmente grande. O seu pai destaca o impacto que o “Tubarão de Messina” teve em elevar a popularidade do ciclismo em Itália, particularmente na Sicília. O seu irmão, Antonio Nibali, continua no pelotão e vai permanecer na Astana, a última formação representada pelo “Tubarão de Messina”.














