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Ádrian López, o respigador

David Guimarães · 5 min

Ádrian López, o respigador

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a minha eternidade

Com uma sucessão de planos cinematográficos aos quadros de Millet, Breton e Hédouin se inicia o filme “Les glaneurs et la glaneuse”, que, na tradução portuguesa, significa “Os respigadores e a respigadora”. Inspirando-se principalmente num quadro de Jean-François Millet, “The gleaneurs” – que traduzindo para português significa “Os respigadores” –, a cineasta belga Agnès Varda, um dos rostos mais icónicos da Nouvelle Vague francesa, centra a sua observação sobre o respigar contemporâneo. Historicamente, o acto da respiga dava-se no final das colheitas agrícolas, quando se procuravam as espigas que ficavam pelo caminho nas searas e não podiam ser desperdiçadas, sendo por isso procuradas com avidez para a sua recolecção.

Os respigadores actuais, retratados neste brilhante documentário cinematográfico, são pessoas, na sua maioria muito podres e mendigos, que apanham do chão para não desperdiçar, que rebuscam nas sobras dos mercados, que procuram restos nos caixotes do lixo para comer. O que esta realizadora nos mostra com mestria é que estes respigadores da sociedade contemporânea não são muito semelhantes àqueles que aparecem nas pinturas da respiga que se vêem nos museus. Apesar das parecenças no acto de “dobrar espinhas” e de se baixarem para apanhar do chão, existem, no entanto, motivações muito distintas para tal acto na contemporaneidade. Outrora para aproveitar e não desperdiçar; hoje, maioritariamente, por fome. A própria realizadora torna-se uma respigadora, com a sua pequena máquina digital: vai “respigando” imagens, entrelaçando planos melancólicos e alegres, enquanto apanha resquícios da terra. Este filme demonstra a sociedade antitética em que vivemos, consciencializando os espectadores para o seu desperdício quotidiano, mas também para a perspicácia humana em aproveitar, em transformar, em nunca desperdiçar.

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Agnès Varda, cineasta belga e autora de “Os respigadores”
Fonte: cultura.estadao.com.br

Ádrian López chegou ao Futebol Clube do Porto vindo do Atlético de Madrid, a equipa sensação da época passada, campeã espanhola e finalista da Liga dos Campeões. Nos colchoneros não era habitualmente titular, mas foi um jogador extremamente importante na campanha soberba dos madrilenos, tendo contribuído positivamente em muitos jogos. Agora este jogador vem sendo desconsiderado pelas suas exibições cinzentas. A comunicação social tem sido implacável nas críticas e os adeptos portistas têm pelo asturiano uma grande intolerância, como se viu no último jogo, onde foi bastante assobiado pelos adeptos visitantes, que não ficaram agradados com mais uma exibição paupérrima deste avançado, desta feita diante do Estoril-Praia.

O principal problema da entrada de Ádrian na equipa do Porto não pode ser visto apenas pela comparação directa, individual e posicional, com o colega que substitui. Os efeitos nefastos da sua entrada em campo não se prendem pelo défice de qualidade em relação ao concorrente directo que senta no banco. Quando Ádrian entra, o sistema muda. Mais gravoso ainda, arrasta consigo uma alteração basilar no modelo de jogo. Não acho Ádrian López mau jogador; antes pelo contrário, reconheço-lhe grandes qualidades como futebolista profissional. Com a sua inclusão em campo, o Porto abandona o tradicional 4x3x3, passando a explanar-se num 4x4x2, com o nuestro hermano como segundo avançado. Este sistema e este posicionamento específico, no apoio ao ponta-de-lança, até favorecem as características do espanhol. No Atlético de Madrid, Ádrian também era segundo avançado e jogava num sistema de 4x4x2. As divergências estão na distinta interpretação do sistema, originando um modelo com dinâmicas divergentes. O Atlético de Madrid jogava em bloco baixo, procurando sair em contra-ataques rápidos. Outra diferença está também no ponta-de-lança com quem emparelhava. Uma coisa é jogar com Jackson Martinez que recua e procura apoios para jogar com a equipa, outro enquadramento é jogar com Diego Costa, que procura a profundidade. Em Madrid, Ádrian era, na maioria dos casos, segundo avançado e procurava invadir o espaço central em velocidade, acompanhando os raides de Diego Costa. Está, portanto, habituado a jogar em ataque rápido com adversários expostos e em recuperação. No Porto, tem de jogar em ataque posicional e continuado, numa troca de bola pausada e apoiada.

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Ádrian López foi decisivo no Atl. de Madrid mas tarda em confirmar as suas qualidades no FC Porto
Fonte: Facebook oficial de Ádrian López

Lopetegui está a ser muito atencioso com o avançado espanhol. Percebe que é em 4x4x2 que este jogador mais rende e, por isso, altera o sistema para tentar retirar rendimento máximo do seu pupilo. Mas, com esta atitude benevolente para com o seu jogador, está o prejudicar todo o colectivo, rotinado para jogar com três médios. Com a sua entra em campo, a equipa fica descompensada na perda de bola e desligada nos movimentos ofensivos. O ex-Atlético de Madrid não consegue ser médio, não tem ainda movimentos de avançado, é incapaz de ganhar segundas bolas e não consegue fazer ainda qualquer tipo de ligação positiva com os colegas. Sendo mais preciso, em momento defensivo, o Porto fica arrumado em 4x4x2, sem capacidade de pressão e ocupação de espaços a meio-campo. Em momento ofensivo, os “azuis e brancos” comportam-se em 4x4x1x1, ficando o espanhol num nenúfar isolado, estático, só, incomunicável.

Vejo Ádrian e faz-me lembrar um pouco Varela, jogadores semelhantes na arte da “respiga”. Não são atletas que criem espaço para os outros, são incapazes de abrir crateras nas defensivas adversárias com passes no espaço, não desequilibram desde a faixa se forem os elementos mais procurados para uma acção fantasista. Ádrian, como Varela, brilham mais quando procuram os “restos”, as “migalhas” deixadas pelas acções dos seus companheiros. Penso nas parcerias do “Drogba da Caparica” com Hulk e do espanhol com Diego Costa. Depois das acções destes dois furacões futebolísticos, com as suas arrancadas fulminantes, utilizando uma força imparável e um remate portentoso, apareciam em ajuda, estes dois jogadores (Ádrian e Varela), que “brilham quando são sombra”. Varela mais tecnicista, melhor no drible e no cruzamento; Ádrian um pouco mais interior – são, no entando, jogadores similares nessa inteligência que têm, não para criar jogo, mas para lhe responder. Não são originais, não são estrelas a desequilibrar do nada; são sim exímios em reutilizar o génio de terceiros, finalizando jogadas que outros desperdiçaram.

Lopetegui percebe a capacidade respigadora de Ádrian em 4x4x2: é aí que o atacante espanhol sacia a sua fome futebolística. Mas julgo que o treinador deve sacrificar o melhor futebol de Ádrian em benefício do colectivo. Se o quiser colocar em campo, talvez seja mais seguro no 4x3x3 habitual, junto a uma das faixas (preferencialmente a esquerda). Embora nesse posicionamento, o espanhol não consiga pôr em prática o seu melhor futebol, terá a companhia de uma equipa mais rotinada. A inteligência, o desenrasque e a sagacidade de um hábil respigador como Ádrian são características que permitirão (se bem enquadradas tacticamente pelo treinador) alguma contribuição positiva para o grupo.

Foto da capa: Facebook oficial de Ádrian López

David Guimarães

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